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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

TOP 2013

Qual a finalidade de se fazer essas listas? Bem, não posso responder por outras pessoas, mas para mim é porque acho divertido pensar sobre tudo o que vi, li e ouvi durante o ano.
Melhor ainda é ler a lista de outras pessoas. Dá pra descobrir um montão de coisas bacanas que deixamos passar em branco, por um motivo ou outro (em geral desconhecimento mesmo).
Sem mais delongas, aí vai meu TOP 2013:


10. Black Angels - Indigo Meadow: Explodiu minha mente desde os primeiros segundos de audição. Ótima mistura de surf music com garage rock e uma boa dose de psicodelia, além de deliciosas referências ao The Doors. Eu já havia ouvido outros álbuns dos caras e até presenciado um show deles. Sempre gostei da banda, mas esse foi de longe o álbum que mais me cativou.


9. Vista Chino - Peace: Pra quem não sabe, o Vista Chino é o Kyuss sem o Josh Homme. Antes do lançamento do cd ouvi por aí que "Kyuss sem Josh é o mesmo que o Sabbath sem o Iommi". Faz sentido. Porém, o guitarrista Bruno Fevery deve ser um clone do líder do Queens. Os riffs, solos, timbres e tudo mais que saem de sua guitarra parecem ter sido gravadas por Homme nos anos 90. Claro, eu sou contra cópias, acho que banda boa, em regra, é banda original. Mas quem mais poderia copiar o Kyuss senão o próprio Kyuss (ou pelo menos 3/4 dele)?
Fato é que Peace é um cd inteligente. Conseguiu resgatar toda a essência da banda, sem cair no auto-plágio descarado. Soa como se tivesse sido gravado pela banda original e saído 2 ou 3 anos depois do ...And the circus leave the Town. É fantástico? Será um clássico como Blues for the Red Sun e Welcome to Sky Valley? Certamente não. Mas mantém o legado do Kyuss intacto, ainda que com outro nome.


8. Seasick Steve - Hubcap Music: Ah, o véio mendigo! Este é seu álbum mais roqueiro até agora. Provavelmente por contar com ninguém menos do que John Paul Jones no baixo. Nenhuma dessas músicas é o cúmulo da criatividade e Hubcap Music não vai mudar o mundo, porém a pegada dele é tão honesta e tão empolgante que não tem como não amar.




7. Jimi Hendrix - People, Hell and Angels: Não há mais o que se falar do mestre da guitarra. O impressionante é que "míseras" sobras de estúdio dele sejam tão sensacionais. People, Hell and Angels é uma lição de rock, blues e soul. 



6. Arctic Monkeys - AM: Já longe da época de "sensação da internet" os Monkeys (donos de um dos nomes de banda mais idiotas que já ouvi) lançaram esse ano seu álbum mais sóbrio e equilibrado (isso não quer dizer que eu tenha achado o melhor deles, meu favorito ainda é o Favorite Worst Nightmare). Não gostei de todas as músicas, na metade o cd fica um pouco irregular, entretanto, as músicas que são boas, são boas mesmo. 

5. Deep Purple - Now what: Todo mundo na ansiedade pelo Black Sabbath e o Deep Purple correu por fora e lançou o melhor álbum de banda clássica do ano. Na minha modesta opinião, é o melhor desde que Steve Morse entrou na banda, o primeiro, desde então, que eu colocaria ao lado de outros grandes cds (lps, aliás) que os caras já gravaram. Um dos grandes destaques é o tecladista Don Airey. O cara, mesmo substituindo ninguém menos do que John Lord, não se intimidou e matou a pau. Não só ele, é claro, a banda inteira está afiadíssima e conseguiram fazer uma sucessão de riffs, solos e melodias com a propriedade de quem é uma lenda viva do rock.


4. Nick Cave & The Bad Seeds - Push the Sky Away: Lento quase parando, denso, pesado (no sentido de clima, não no de guitarras), intenso, depressivo, lindo. O álbum é um pacote de emoções. Não tem como ficar impassível ouvindo belíssimas composições como Water's Edge, Jubilee Street ou Higgs Bóson Blues.













3. David Bowie - The Next Day: Esse surpreendeu todo mundo. A gente achando que o Bowie tinha se aposentado e ele vem e lança essa pérola. O álbum parece até uma coletânea, já que tem tantas músicas tão boas, cada uma ecoando uma fase do camaleão. É aquele tipo de trabalho tão bem feito e detalhado que o ouvinte descobre uma coisa nova cada vez que o escuta. Coisa linda. 













2. Ben Harper and Charlie Musselwhite - Get Up!: Uma pequena obra de arte. Não conheço muito do Ben Harper e, admito, menos ainda do Charlie. Por acaso acabei assistindo à apresentação da dupla no Rock in Rio neste ano e meu queixo caiu. O blues e o rock praticado pela dupla em Get Up! é algo acima do normal. Tudo na medida, som redondinho, simples e poderoso, feeling em níveis estratosféricos.  Tudo que um bom cd do gênero pede.














1. Ghost - Infestissumam - Redux: Se eu colocasse outro álbum em primeiro lugar não estaria sendo honesto comigo mesmo. Não, eu não acho que Infestissumam é o mais criativo ou inovador lançamento do ano, há outros nessa lista mesmo que estão muito a frente dele nestes e em uma série de outros quesitos. Porém, o que é curtir música? Em primeiro lugar (ao menos pra mim) é diversão. E ninguém me divertiu mais em 2013 do que o Ghost. Adoro tudo sobre a banda. O "mistério", o satanismo de botequim, o figurino, os videos... e principalmente, claro, a música.  Consigo, ao ouvir os suecos, sentir toda a rebeldia adolescente do heavy metal fluindo pelo meu corpo. O som da banda, já saudosista por definição, me traz uma série de recordações e sentimentos bons da época que eu usava preto da cabeça aos pés, mesmo que estivesse fazendo 40ºC à sombra. A medalha de ouro vai, sem dúvidas, pra esse cd.
Coloquei aqui a versão redux já que ela inclui os maravilhosos covers que também não saíram do meu mp3 player durante o ano.


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Alguns P.S.:
1- Não, não tem Black Sabbath, Alice in Chains, Queens of the Stone Age e outros medalhões. É simples, tem 10 (ou mais) álbuns que gostei mais do que esses. 

2- Quase lá: a disputa para entrar na lista foi grande. Em décimo também poderiam também ter sido os novos do Motorhead (provavelmente a unica banda do mundo com tanto tempo de estrada que nunca decepcionou), do Paul McCartney, do Deafheaven, do Cult of Luna... foi um ano com muita coisa legal.

3- Os melhores álbuns de outros anos que só descobri em 2014 foram o Locked Down do Dr. John (de 2012) e o auto-intitulado do Fever Ray (de 2009). Se lançados este ano, ambos teriam entrado facilmente no meu top 10 e o Locked Down disputaria o primeiro lugar com o cd do Ghost (e se eu refizesse a lista do ano passado ele ficaria em segundo).




sexta-feira, 7 de junho de 2013

Alice in Chains - The Devil Put Dinosaurs Here (2013)

Quando foi anunciado o retorno do Alice in Chains com um novo trabalho e um novo vocalista todos os fãs experimentaram uma enorme apreensão. Poderia a banda sobreviver sem seu icônico vocalista Layne Staley? Quem poderia substituir à altura uma figura tão talentosa e carismática? O vocalista e guitarrista Willian DuVall entrou na banda e os caras tiveram com Black Gives Way to Blue um excelente recomeço. Aquele álbum foi pensado e executado como uma reapresentação da banda e do novo integrante, investindo em músicas que buscavam elementos passados e consagrados de forma bastante convincente. Desta forma, o cd de 2009 foi mais uma visita aos álbuns passados com uma roupagem nova do que uma evolução da banda, que vinha agregando novos elementos e se alterando em cada novo trabalho. A missão foi cumprida com louvor, assim eu imaginava (e esperava) que a banda voltaria à sua "metamorfose ambulante" em seu segundo álbum da nova fase. Entretanto, o que o AiC fez em The Devil Put Dinosaurs Here foi lançar uma espécie de Black Gives... parte 2.


Dá pra dividir o álbum em 3 grandes blocos distintos: As músicas pesadas, baseadas em riffs fortes de guitarra e andamentos moderados de bateria; as músicas densas e depressivas, arrastadas e com dedilhados tristes; e por fim as sempre presentes baladas. 

O cd abre com 3 pauladas: Hollow, Pretty Done e Stone. São todas faixas muito boas, entretanto soam de forma muito semelhante entre si. É até curioso que a banda tenha escolhido colocar essas músicas em sequência, o que acaba por tirar um pouco do impacto individual de cada uma. Dá a impressão que os músicos encontraram uma fórmula e vão repeti-la até o fim. Ao ouvir esse primeiro bloco tive a impressão de que o AiC havia se tornado uma espécie de AC/DC do grunge.

Voices é a primeira balada do disco. Bem no estilo da Your Decision do álbum anterior, porém sem o mesmo frescor. Assim como a Scalpel, que tem uma pegada meio country em seu arranjo. Ambas não se comprometem e não se destacam. Perto da grande experiência em baladas da banda essas duas músicas são bastante fracas.  Já a última faixa, Choke, é de longe a música mais emocionante do trabalho. Belas melodias vocais e arranjos. Adoraria ouvi-la sendo tocada em um set acústico ao lado de Nutshell e Over Now.

A faixa título vem naquele estilo Love Hate Love, com dedilhados e climas pesados. Gosto bastante do refrão, mais pela letra do que pelo ritmo, mas também não tem nada nela que a faça ficar grudada na memória. Lab Monkey mantém a pegada sombria, com algumas partes mais agitadas e um belo solo. Se destaca mais do que a anterior e o vocal de DuVall finalmente ganha mais destaque.

Low Ceiling é a faixa mais hard rock do trabalho, sendo a única que não tem pares no mesmo. É também a que mais me lembrou os trabalhos solo do guitarrista Jerry Cantrell. Uma faixa sem muita inspiração, mas que traz um solo de guitarra muito bonito, que a faz valer a pena.

Breath on a window tem um ótimo riff e um ritmo mais rápido do que as outras do seu estilo no cd. A variação de andamento e a guitarra do final da musica tornam ela mais épica ainda. Uma das melhores do trabalho, sem dúvidas. Já Phantom Limb volta a fórmula das 3 primeiras, guitarras e bateria pesadas, tendo o melhor riff principal de todo o álbum. Esta deve ser a música com maior destaque do vocal de DuVall. Aliás, acho uma pena que ele não apareça mais. Gosto da voz do Jerry e da dinâmica das duas vozes juntas, mas o vocal mais agudo e agressivo do "novo" vocalista confere mais emoção às faixas.

Hung on a Hook é a "Down in a Hole" da vez. Aqui DuVall canta os versos de forma muito diferente e interessante, em tons baixos, para explodir nos refrãos. Do bloco das músicas mais arrastadas é a mais criativa e minha preferida.

The Devil... é mais um bom trabalho dos caras. Não é melhor do que os álbuns clássicos, e talvez nem os próprios músicos tenham a pretensão de tentar superar aqueles registros. O grande pecado do grupo foi escolher fórmulas prontas e “fáceis” ao invés de se arriscar, como a banda fazia em seus primeiros anos. O AiC de hoje é uma grande banda de hard rock, sem dúvida dentre as melhores do estilo em atividade, mas que aparentemente não consegue mais sair de sua zona de conforto. Lugar que os trabalhos com Layne nem chegaram a conhecer.



Álbum: The Devil Put Dinosaurs Here
Artista: Alice in Chains
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Capitol

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Queens of the Stone Age - ... Like Clockwork (2013)


Quando penso no rock da primeira década do século XXI não tenho dúvidas de que a grande banda foi o Queens of the Stone Age. Nascido das cinzas do ótimo Kyuss, o Queens rompeu com todos os limites e criou álbuns que agregavam os mais diversos elementos de forma orgânica. Seus discos sempre foram pesados, dançantes, criativos, barulhentos, empolgantes. Assim ansiedade por este ...Like Clockwork, primeiro trabalho em seis anos, era imensa. 
A atual formação do Queens of the Stone Age

O cd abre com uma das melhores faixas, Keep your Eyes Peeled. Bluesão pesado, distorcido e arrastado, com excelentes riffs e andamentos. Ainda assim me pareceu uma escolha curiosa para abrir o álbum, por ser muito lenta e soturna. Essa é uma faixa que eu esperaria ouvir no vindouro álbum do Black Sabbath ou de alguma (boa) banda Doom Metal por aí.
As carismáticas If I Had a Tail e I Sat by the Ocean tem aquele estilo bem característico e consagrado da banda, contrastando bases pesadas com ritmos dançantes. Se não trazem nada de realmente novo à sonoridade da banda ao menos são bastante boas dentro de suas propostas, em especial a segunda, com suas ótimas linhas vocais.
The Vampyre of Time and Memory é uma balada bonita, que tem até uma pegada meio classic rock, principalmente no solo de guitarra. Outra faixa no mesmo estilo é a que nomeia e fecha o trabalho, uma música melancólica que começa ao piano e violão para ir ganhando corpo e emoção conforme evolui.
Kalopsia é a mais fraca do cd. Uma faixa que tem em sua concepção caras como Josh Homme e Trent Reznor (Nine Inch Nails) merecia mais do que ter apenas passagens bacanas. Se alternando entre versos lentos (tediosos) e refrões barulhentos (bem legais) fica bem aquém do que eu esperava. Prefiro a cooperação que os músicos tiveram na trilha sonora do documentário Sound City, aquela sim bem mais interessante.
A maior porrada do álbum é sem dúvidas a My God is the Sun, que foi mostrada pela primeira vez no Lollapalooza Brasil. Bons riffs, Dave Grohl detonando na bateria como sempre... é legal, mas fica pálida perto de outras barulhentas da banda, como Sick Sick Sick, Feel Good Hit of the Summer ou Song for the Dead, por exemplo. Divertida, mas duvido que se torne um clássico nos shows dos caras.
Smooth Sailing me lembrou um pouco o estilo amalucado reminiscente de Era Vulgaris em faixas como I'm Designer e Misfit Love, com inúmeros detalhes, camadas e sonoridades diferentes. A mais psicodélica e uma das melhores deste lançamento. No início de Fairweather Friends temi pelo pior, mas temos aqui um ótimo hard rock, engrandecido pelo ótimo piano de Sir Elton John. Música simples, mas bem eficiente.
A angustiante (no bom sentido) I Appear Missing é uma power balad furiosa. Épica até o osso, a semi-balada te deixa com os nervos à flor da pele até o fim. Alias, acho até anticlimático que o trabalho não se encerre com essa faixa. É tranquilamente um dos destaques de ...Like Clockwork
A produção do cd está excelente. Todos os instrumentos podem ser ouvidos com bastante definição. Ouça no fone de ouvido e descubra novos detalhes cada vez. Os timbres dos instrumentos foram todos muito bem escolhidos. As guitarras solo tem um som vintage delicioso enquanto as bases soam "gordas" e na cara. Os teclados e sintetizadores e o som seco escolhido para a bateria deixam tudo mais pesado. Outro dos destaques do álbum é a voz de Josh, que está cantando muito. É impressionante como ele vem melhorando cada vez neste quesito com o tempo. Fazia tempo que eu não ficava tão impressionado com a produção de um cd. Neste quesito dá até pra dizer que ...Like Clockwork é o Sgt Peppers do Queens. O que decepciona é que fora o piano de Elton John nenhum outro participante especial mostra muito a que veio. Se eu não tivesse lido a lista dos músicos convidados eu nunca saberia que participaram desta gravação.
Mais um bom trabalho da banda, que ainda está invicta, sem lançar nenhum cd realmente fraco. Entretanto faltou "aquela" música, entende? Não temos aqui nenhuma arrasa-quarteirão como No One Knows, Sick Sick Sick, Feel Good Hit of the Summer, entre outras. A impressão que dá é que o falta um pouco de tempero para o álbum, algo que o deixe diferenciado. Nada daqueles riffs criativos de outrora, a pegada aqui é bem mais Hard Rock setentista. Mais direto, mais ao ponto. Dá pra dizer que ...Like Clockwork é exatamente o oposto de Era Vulgaris. Enquanto aquele álbum tinha bastante músicas "médias" e umas 3 ou 4 arrasa-quarteirões, o novo release é um álbum forte e coeso, com suas 10 músicas mostrando qualidades, porém sem nenhum grande hit. ou "revolução". Nenhuma música aqui tem aquela pitada de insanidade, de desconstrução dos padrões estabelecidos que permeavam os álbuns anteriores e que  "explodem seu cérebro". É tudo muito bem feito e bacana, porém dentro da "normalidade". Aqui o Queens é uma ótima banda de hard rock/rock alternativo, mas não é desafiadora para os seus ouvintes.
Entretanto é importante ressaltar que apesar de manter certas referencias, conceitos e estilos, a banda nunca  se auto-plagia. A integridade artística do Queens continua intacta e este ...Like Clockwork é mais um passo em sua brilhante carreira, tendo uma cara bem própria, sendo o mais soturno e melancólico trabalho da banda. Se não é aquela explosão de criatividade da década passada, ao menos o álbum é um honesto, bem-feito e cativante registro de rock.
Um cd muito bom e que provavelmente será um dos destaques de 2013, mas ainda assim dificilmente será lembrado como um dos grandes clássicos dos caras. Para outras bandas seria um lançamento maravilhoso, mas para um grupo do quilate do Queens é pouco. Nos acostumaram mal demais.


Álbum: ... Like Clockwork
Artista: Queens of the Stone Age
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Matador, Rekords Rekords

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Panela velha é que faz comida boa


Este parece ser o ano dos veteranos da música. Estão todos com novos trabalhos na praça e mandando super. Destaco abaixo alguns dos cds que mais me chamaram a atenção até agora.

Jimi Hendrix - People, Hell and Angels: O cara morreu faz mais de 40 anos e um cd seu com sobras de estúdio é mais relevante do que a maioria da produção atual. Se você não sabe porque Hendrix é considerado o melhor e mais influente guitarrista da história escute People, Hell and Angels e não tenha mais dúvida nenhuma. 
O trabalho é um passeio por diversas emoções. O solo da Hear my train a comin' é sobrenatural, me arrepia toda vez que ouço, já em Let me move you e Mojo Man a vontade é de sair dançando por aí. O álbum é um curso intensivo de blues, rock'n'roll e soul em 12 lições. Estude!

Seasick Steve - Hubcap Music: Seasick é um cara com uma história bem peculiar. Nascido em 1941, ele fugiu de casa aos 13 anos. Vagou pelo Tennessee e Mississipi, vivendo de pequenos bicos. Nos anos 1960 passou a excursionar com bandas de blues e a trabalhar como engenheiro de som e produtor. Também morou em Paris, nos anos 1990, onde se apresentava sozinho pelas estações de metro da cidade. Lançou seu primeiro álbum, Cheap, em 2004, aos 63 anos.
Hubcap Music apresenta uma sonoridade bem próxima do álbum anterior, You can't teach an old dog new trick, calcada em rock cru e blues eletrificado, com algum toquezinho de country music aqui e ali. Neste trabalho Seasick é acompanhado por uma banda formada pelo baterista Dan Magnusson e por ninguém menos do que John Paul Jones, ex-Led Zeppelin, no baixo, além da participação de Jack White na guitarra na faixa The Way I Do. 
O cd tem esse nome porque o instrumento que Seasick toca é caseiro, feito provavelmente por ele mesmo usando, entre outras coisas, duas calotas de roda (hubcaps). É pra ouvir no talo.

Dr John - Locked Down: Na verdade esse é do ano passado. 
Sabe pra que servem premiações e listas de melhores do ano? Para nos indicar coisas bacanas. Por exemplo, depois de ver a lista de indicados na categoria "melhor filme" no Oscar resolvi assistir um monte de filmes que, talvez, de outra forma eu não teria assistido. E no Grammy vi que este Locked Down do Dr John ganhou como melhor álbum de blues de 2012. Como já tinha visto esse álbum figurar  em várias listas de "melhores" de gente bacana no final do ano passado resolvi arriscar. E agora não consigo parar de ouvir! 
Com a produção e a guitarra de Dan Auerbach do The Black Keys o álbum tem uma sonoridade muito própria. Algo entre o rock'n'roll, soul e rythm and blues, mas o que mais me vem a cabeça ao ouvir esse trabalho são as trilhas sonoras dos filmes do Tarantino. Sabe aquele som sacana, dançante e malicioso que te faz lembrar de bares de strip tease enfumaçados? É mais ou menos isso. Imperdível. 


Deep Purple - Now What?! Eu via as notícias sobre esse cd e não dava muita bola. Veja bem, sou um grande fã dos caras. Os álbuns clássicos dos caras furaram de tanto que os ouvi e já fui em uns 3 ou 4 shows da banda. Mas sei lá, as músicas mais novas (leia-se dos 80s pra cá) nunca me apeteceram muito. Mas me deparei com o trabalho a dois cliques de distância, então porque não dar uma conferida, certo? A surpresa foi incrível! A banda está soando tão pesada e técnica quanto nos bons tempos de Machine Head. A interação entre o super guitarrista Steve Morse e o tecladista Don Ayrey (que aqui deixa pouco a dever ao grande mestre Jon Lord) é impressionante e confere lindos momentos instrumentais.
As quatro primeiras músicas são um um rolo compressor, só pedrada! Já na segunda metade do cd se ouvem mais baladas e momentos mais jazzy, mas tudo com o selo Deep Purple de qualidade. E ainda sobra tempo para a fantástica homenagem à um dos mestres do terror, o sr Vincent Price. Uma grata surpresa. 

Iggy Pop and The Stooges - Ready to Die: Que paulada! Nada de inovação, o que se ouve aqui é o massacre punk costumeiro da banda. E isso não é demérito nenhum! Poucos conseguem manter a qualidade depois de tanto tempo de estrada. Mas enquanto a grande maioria das bandas se torna cover de si mesmo, o Iggy Pop e seus Stooges tocam com a mesma pegada e atitude que tinham 40 anos atrás. Não vai mudar a história, mas a diversão é certa.

Veteranos fazendo bonito. Será que o Black Sabbath vai segurar a onda? 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Lollapalooza - 30 de março de 2013


Este sábado fui ao festival Lollapalooza. Em primeiro lugar, achei o festival extremamente bem organizado. Quanto a estrutura dele não tenho nenhum ponto negativo para comentar, então vamos pro que interessa mesmo, os shows (só os que eu vi, obviamente)!



Tomahawk. Depois do Faith no More é a banda do Mike Patton que eu mais gosto.  Eu vinha acompanhando o setlist de shows anteriores dos caras e me surpreendi muito positivamente com o que apresentaram no Lolla. Começaram com a ótima Mayday e misturaram de forma bastante coerente músicas dos dois primeiros álbuns com algumas (muito bem escolhidas) do mais recente. Mas para mim o momento alto da apresentação foi a Totem, única representante do maravilhoso álbum Anonymous, apresentada por Patton como "música de macumba".

Quem já viu o vocalista a frente de qualquer uma de suas bandas já sabe o que esperar. Apesar de mais contido em relação às suas maluquices quando está com sua banda mais famosa, o cara é um frontman sem paralelos. O restante do Tomahawk também não fica pra trás, afinal o grupo é praticamente um dream team do rock/metal alternativo com Duane Denison (Jesus Lizard) na guitarra, Trevor Dunn (Mr Bungle) no baixo e John Stainer (Helmet) na bateria.
Em relação a banda não tenho dúvidas que foi um showzaço, porém, com pouca gente que conhecia/gostava dos caras na platéia acabou não sendo tão empolgante. Fico na expectativa de ver um show só deles, com mais tempo e mais fãs enlouquecendo ao meu lado.

Alabama Shakes. Me surpreendeu o número de gente esperando ansiosamente em frente ao palco. E todo mundo conhecendo e cantando as músicas! Nem parecia que estávamos diante de um grupo formado recentemente e que possui apenas um cd na bagagem. Quem disse que downloads ilegais são apenas prejudiciais para as bandas, hein?
O show foi excelente. É impressionante o quanto canta a vocalista Britanny Howard! 
Torço muito para que o Alabama Shakes continue evoluindo.

Queens of the Stone Age. Vou a shows faz 19 anos. Já vi de Alanis Morrissete à Brujeria e posso afirmar que poucas bandas são tão legais em cima de um palco como o QotSA. É muito peso, muita energia. Para mim, foi não só o grande show da noite como também um dos grandes shows que já presenciei na vida.
A banda se calcou no seu disco mais famoso, Songs for the Deaf, mas deu tempo de tocarem algumas surpresas como a inédita (e ótima) My God is the sun e a lisérgica Better living through chemistry.
Além disso foi a primeira apresentação do grupo com seu novo baterista, John Theodore, que é um monstro. A técnica e a brutalidade com que ele espanca sua bateria são impressionantes.
Claro que cada um tem suas preferências e outras pessoas podem ter gostado mais de outro show, mas a plateia mais empolgada e o show mais comentado do dia foi com certeza o do QotSA. 

A Perfect Circle. A difícil tarefa de tocar depois do QotSA. Apesar de adorar a banda e estar ansioso para vê-los reconheço que demorei umas 3 músicas pra entrar no clima da apresentação. Foi como sair de um jogo de Hóquei no gelo e ir ver um balé. 
Entretanto, passada essa minha fase de adaptação o que presenciei foi show lindíssimo. O segundo cd da banda, o Thirteenth Step, é um dos meus prediletos dentre os lançados no século XXI e ver aquelas músicas ao vivo foi uma emoção muito grande. Claro que faltou uma ou outra que eu gostaria muito de ter visto, mas o setlist dos caras foi incrível e a execução das músicas idem.

The Black Keys. O guitarrista/vocalista Dan Auerbach e o baterista Patrick Carney mostraram boa presença de palco, muita simpatia e tinham um setlist matador em mãos. Mas alguma coisa não estava certa. Faltou um pouco de pegada ao show. 
Atribuo isso a dois motivos em especial. O primeiro foi o som. Como o headliner do dia pode ter o pior som? Desregulado e baixíssimo, só consegui ouvir alguma guitarra depois de umas 4 ou 5 músicas. O que eu mais ouvi durante a apresentação da banda foi o cara do meu lado contando pra uma amiga que tinham roubado o celular dele. Isso por si só já era motivo para estragar a minha experiência. 
O segundo motivo: talvez o The Black Keys não seja uma banda para tocar para multidões. Acompanho os caras faz alguns anos e até pouquíssimo tempo atrás eles eram uma banda que devia tocar em lugares para 1000 ou 2000 pessoas. Não estou tendo síndrome de underground aqui, acho ótimo que mais gente esteja conhecendo e apreciando o competentíssimo blues rock da dupla, era uma banda que estava faltando no mainstream, mas acredito que o tipo de som que eles fazem ficaria melhor num ambiente menor e mais intimista, com um público que conhecesse mais da história deles e não apenas Lonely Boy. 
Em resumo, o show foi bom, mas poderia ter sido melhor.

terça-feira, 19 de março de 2013

David Bowie - The Next Day (2013)


Não tem como deixar passar em branco um super lançamento como este, né? Como você já deve estar sabendo, o cantor/ator/produtor/alienígena/camaleão/etc David Bowie apareceu depois de muito tempo sem dar qualquer notícia para lançar um novo álbum intitulado The Next Day, seu primeiro registro em dez anos. Após deixar o álbum no repeat por uma semana acho que já estou apto a falar sobre ele.
O cd abre de forma bastante forte com a faixa que dá seu nome. Um rock'n'roll energético e dançante com uma certa pegada Rolling Stonica, principalmente nas guitarras. Ouvindo a faixa me vem a cabeça a imagem de um show lotado, com o publico pulando e cantando enlouquecidamente. Uma música simples, mas grudenta e eficiente.
A sequência com Dirty Boys, The Stars (are out tonight) e Love is Lost é minha parte preferida do trabalho. Uma música melhor do que a outra. Enquanto a Dirty Boys transita entre o rock e o jazz, com seu acompanhamento de metais e seus tempos quebrados, The Stars... volta ao rock básico.  A música já ganhou um fantástico clip e é fácil de entender o porquê de ter sido escolhida como single. A guitarra sempre presente e sua estrutura em crescendo que explode no refrão tem tudo pra se tornar um dos grandes hits da carreira de Bowie. Já me peguei cantando ela alto no busão algumas vezes. Love is Lost fecha esse primeiro terço do cd de forma soberba com seu baixo pulsante, teclado altíssimo dando um aspecto sombrio para a música e guitarras distorcidas que surgem em ótimos fraseados e riffs. A linha vocal criada por Bowie confere um tom de urgência para a faixa.
Então vem o único ponto fraco do trabalho. Where are we now? é uma baladinha pra tocar em baile da terceira idade. Chata que só. E por falar em baladas, o cd tem mais algumas (felizmente bem melhores), como Valentine's Day, que poderia ter aparecido em algum LP antigo do inglês. Seu andamento e sonoridade remetem à um amalgama de músicas romanticas dos anos 60 e 80. Entretanto, a melhor balada do cd é a épica You feel so lonely you could die. Corais, pianos, cordas... a faixa podia ter descambado para a breguice, mas o cantor consegue fazer de tudo isso um momento genuinamente emocionante. 
Uma das músicas mais interessantes é a agitada If you can see me. A bateria dela parece ter sido inspirada pela fase drum and bass do camaleão (do álbum Earthling, de 1997), entretanto sendo tocada "organicamente". Extremamente trabalhada e criativa é sem dúvida uma de minhas preferidas do álbum.
I'd rather be high tem um andamento militar (mais ou menos como a Sunday Bloody Sunday do U2) e um bonito refrão. Boss of me reúne um monte de elementos de forma elegante. Guitarras, metais, partes mais paradas, outras mais agitadas, corais... tudo de forma orgânica e bem equilibrada. Já uma das mais alegres e dançantes é a Dancing out in space
How does the grass grow é uma das grande pérolas. Com um "quêzinho" de hard rock, a faixa traz linhas de teclado bacanas, bateria bem trampada e uma das onomatopéias mais divertidas dos últimos tempos. Te desafio a escutar a música e não ficar com esculaxados La la la las na cabeça. O solo de guitarra é outra coisa linda. E por falar em solo de guitarra, um dos melhores é da post-punk (You will) Set the world on fire, faixa que evoca Bauhaus todo o tempo.
A densa Heat fecha o trabalho. Se a faixa de abertura foi a escolha certa, a de fechamento também não poderia ser melhor. Lenta, depressiva e épica, Heat é hipnotizante. Coloque-a no fone de ouvido, feche os olhos e boa viagem pelas sensações e sentimentos que a música vai te trazer.
No alto dos seus 66 anos David Bowie ainda mostra como se faz. Dá um banho em um monte de bandinhas que se acham modernas e lançou um cd digno não só de sua própria discografia como também das famosas listinhas de melhores do ano. Na minha com certeza The Next Day vai estar.
Álbum: The Next Day
Artista: David Bowie
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Columbia

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sound City: Real To Reel (2013)


Dave Grohl é a pessoa ligada à música que mais gosto. Longe da revolução punk dos tempos de Nirvana, no Foo Fighters Grohl desenvolveu uma boa fórmula, um rock de arena palatável para grandes multidões e para as rádios, mas sem cair na bunda-molice que geralmente se encontra nesse tipo de música atualmente. É uma das mais honestas e interessantes bandas de rock'n'roll mainstream da atualidade.  
Entretanto, eu gosto mesmo é quando Grohl assume as baquetas. Como baterista ele gravou alguns álbuns clássicos, como (obviamente) o Nevermind do Nirvana, o Songs for the Deaf do Queens of the Stone Age e o auto-intitulado cd do Them Crooked Vultures, além de participações e projetos diversos, como sua homenagem ao heavy metal, o Probot, e a recente participação na nova jóia do metal, o sueco Ghost.
Dave, o fã de Slaaaayeeeeer
Além de simpaticíssimo e carismático, o líder do Foo Fighters também é hiperativo. Ao decretar férias para sua banda principal ele não demorou à encontrar novos projetos. Dentre eles a gravação de um novo álbum com o Queens of the Stone Age e a produção de um documentário sobre o lendário estúdio Sound City. Foi lá que muita gente boa gravou. Como por exemplo, o próprio Nirvana, Neil Young, Greatfull Dead, Santana, Metallica, Kyuss, Queens of the Stone Age, Red Hot Chilli Peppers, Elton John, Tool, Black Crowes...
E claro que esse documentário geraria música também. Assim Dave juntou um time de músicos que em sua maioria (se nao todos) já utilizaram o Sound City em gravações e produziu uma excelente trilha sonora para o filme.
O trabalho abre com a guitarrenta Heaven and All que conta com Robert Levon Been e Peter Hayes, músicos do Black Rebel Motorcycle Club. A faixa lembra bastante a sonoridade da banda em seus melhores momentos. Agitada e barulhenta, a música foi uma excelente escolha para abertura do cd, com sua levada garage rock ao  estilo do clássico MC5.
Time Slowing Down trás nos vocais e guitarra Chis Goss da banda Stoner Rock Masters of Reality e a "cozinha" do Rage Against the Machine. A música entretanto soa como um ótimo hard rock. Chegamos então a uma das minhas faixas preferidas, You can't fix this que tem nos vocais a ex-Fleetwood Mac Stevie Nicks. Uma pseudo-balada meio sombria como se fazia nos anos 1980.
As duas próximas são as musicas "punk" do álbum. Na verdade The man that never was se parece bastante com as faixas mais barulhentas do Foo Fighters (talvez por contar com praticamente toda a banda de Grohl), enquanto You wife is calling é mais violenta, me lembrando até alguma coisa do The Stooges. Um inesperado solo de gaita dá um charme a mais pra faixa.

Alguns dos músicos que tocaram no álbum.
Corey Taylor é um dos grandes vocalistas da geração atual. Gosto muito quando ele canta de verdade, não ficando limitado apenas aos guturais que usa no Slipknot. Sei que tal banda tem uma legião de fãs, mas acho o cara um talento desperdiçado. Uma pena que não rolou a entrada dele no Velvet Revolver, adoraria ouvir o que ele produziria ao lado dos ex-Guns'n'Roses. From can to can't, a música que Corey canta, é uma balada metal, que começa com um dedilhadinho a la Scorpions e acaba ganhando os riffs de guitarra mais pesados do álbum.
Josh Homme é o principal convidado de Centipede. Uma das melhores do cd, a faixa, que poderia ser do Them Crooked Vultures, começa com um bonito dedilhado e descamba para uma destruição sonora lotada de riffs e bateria pesadas
A trick with no sleeve é a primeira a ganhar clip. Talvez como homenagem a Alain Johannes. Parceiro habitual de Grohl em diversos projetos, o ótimo multi-instrumentista acaba sempre sendo eclipsado por nomes mais conhecidos. Aqui entretanto ele assume os holofotes ao cantar esse ótimo rock de arena.
Sem dúvida nenhuma o convidado mais ilustre do cd é Sir Paul McCartney. Em Cut me some slack o ex-Beatle é acompanhado pelo "Nirvana". Ou seja, Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear (guitarrista que tocou com a banda em suas últimas turnês). A música é um rock'n'roll sem frescura, como deve ser.
Nas duas últimas faixas Grohl assume o microfone. If I Were Me é uma baladinha com violões e piano. Bonita música, mas não considero das melhores do cd. Já Mantra era o encontro que eu mais aguardava, juntando à Grohl os gênios Joshua Homme e Trent Reznor. A faixa é um épico de quase 7 minutos, uma mistura de Queens of the Stone Age com elementos eletrônicos do Nine Inch Nails. Coisa linda.
Apesar dos diferentes músicos envolvidos o cd não parece uma colcha de retalhos. Claro que cada convidado acabou levando sua música para o lado de sua banda de origem, mas Dave soube dar a "liga" necessária e, ao contrário do que poderia se esperar de um cd assim, Sound City: Real to Reel não é daqueles cds de grandes altos e baixos, com duas ou três faixas bacanas e as demais descartáveis. O cd é inteiro ótimo, pra se ouvir do início ao fim. Bem alto de preferência. 
Se a ideia era mostrar que o Sound City é um lugar inspirador, de onde saem ótimas músicas, então Dave foi bem sucedido. Fica agora a curiosidade para assistir ao documentário.

Álbum: Sound City: Real to Reel
Artista: Vários
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   RCA

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

1991: a Revolução (II)

Marlon Villas


Grunge. Uma das principais palavras de ordem naquele tempo. Até hoje muita gente se confunde na definição do que seja grunge, muitos dizem que isso seria um subgênero de rock, outros afirmam que é um estilo de vida, portanto maior do que apenas ligado ao rock. A verdade é que esta palavrinha estranha e engraçada surgiu no estado de Washington, EUA, principalmente na cidade de Seattle, e teve a ver com rock, sim.

Pra ser totalmente honesto com você, esse papo de que o movimento grunge é “muito mais” do que somente uns caras que gostam de um som pesado e distorcido do heavy metal, vestem camisas e calças rasgadas, revivendo a atitude visual do punk, e gritam contra a sociedade, seus preconceitos e sua moral hipócrita, não passa da necessidade de um bando de sujeitos supervalorizarem algo que idolatram, nada mais. O grunge tem a ver com rock porque nasceu nas entranhas do rock, não há mais o que discutir a respeito deste ponto, e ponto final.

Vamos seguir em frente.

O movimento de Seattle já estava se consolidando como uma nova forma de se fazer um som com peso e de aparência mais suja, musicalmente falando, do que os roqueiros estavam acostumados até então. Os norte-americanos estavam com suas antenas voltadas para Los Angeles ou Nova York, e foi aí que surgiu algo fora dos padrões destas duas cidades: a cena punk de Seattle estava passando por alguma espécie de metamorfose efervescente. Daí, você já sabe: tudo o que é diferente e criativo acaba virando uma febre que se espalha rapidamente. Os empresários musicais da época foram forçados a rever seus conceitos na mesma velocidade, a fim de abocanhar aquele mercado que se mostrava bastante promissor.

Esta cena, provavelmente batizada de grunge pela banda Green River, segundo reza a lenda, já estava bem estabelecida nas ruas onde havia nascido alguns anos antes, no final da década de 1980, além de começar a ganhar um bom status fora de seus domínios, com trabalhos de bandas diversas, como Alice In Chains, The Melvins, Soundgarden, Stone Temple Pilots etc. Porém foi no ano de 1991 que, mais uma vez, como no thrash metal (ver este outro texto), que muitos criam estar à beira da morte, a revolução grunge tomou o lugar de uma certa pasmaceira musical na mídia especializada daqueles dias. Tudo por causa, basicamente, de dois discos lançados quase simultaneamente (um, no final de agosto, o outro, no final de setembro). Coincidência?

Capa emblemática pra cacete.
(Fonte: http://cs.leander.isd.tenet.edu)
Ten – Pearl Jam
A banda Pearl Jam começava sua carreira definitivamente pelas rádios de todos os EUA, e depois por todo o mundo, com seu primeiro álbum, Ten. Falando nisso, alguém pode me dizer o motivo deste título? Porque, se é para se referir às 11 faixas contidas no disco, então obviamente não faz sentido. Ou faz? Enfim, conheci o grupo através da MTV, quando a emissora ainda era uma ótima opção para se conhecer bandas e artistas da música nacional e internacional, com seus videoclipes sendo transmitidos todos os dias, às vezes em diversos horários num mesmo dia, caso sua popularidade fosse alta.

Ao contrário das outras bandas grunges aqui citadas e outras do mesmo movimento, com uma sonoridade mais carregada e cheia de distorções e diferentes efeitos, o Pearl Jam se destacava, já neste trabalho, por uma maior limpeza na equalização das músicas, além destas serem trabalhadas com mais solos de guitarras e uma clareza na voz do vocalista Eddie Vedder. Tudo isso sem perder, no entanto, a contestação e os assuntos de forte conteúdo emocional tratados por todos os grunges, como suicídio, depressão, dúvidas existenciais, morte, drogas, preconceitos sociais, falta de sentido/necessidade de liberdade, e por aí vai.

Logo após o lançamento do álbum, ele não teve tantas vendas, mas alguns meses depois, principalmente no ano seguinte, os fãs de rock perceberam que estavam diante de algo feito de forma única, em contraste com tudo o que andavam escutando. Não deu outra: Ten é considerado um dos discos mais bem sucedidos de toda a década de 1990, na verdade dos últimos 20 anos. Não são muitas bandas que alcançam reconhecimento desse nível logo no primeiro trabalho. Na minha opinião, todas as faixas possuem aquela coisa que você pode não definir bem o que seja, mas com certeza reconhece que é especial. Even Flow, Alive, Black, Jeremy, Porch, Garden, todas são músicas que brincam com as sensações de quem as ouve, emocionando de uma maneira ou de outra, com solos simples e bem executados, com pratos e caixas da bateria soando agressivos sem partir para o ataque propriamente dito, linhas melódicas de voz e baixo muito bem casadas. Enfim, uma bela obra de arte em 53 minutos totais.

A lendária caça ao dólar.
(Fonte: http://hqrock.files.wordpress.com)
Nevermind – Nirvana
Diferentemente do Pearl Jam, o Nirvana já tinha um disco na bagagem em 1991. Dois anos antes havia lançado Bleach, embora tal trabalho não tenha alcançado na época toda a imensa fama que Nevermind ofereceria ao trio de punk grunge.

Diferentemente do Pearl Jam, o Nirvana sempre prezou por algo mais barulhento, com certa violência em suas músicas, de uma crueza magnífica, mesmo que houvesse apenas uma guitarra, um baixo e uma bateria para fazer todo o estardalhaço em seus trabalhos. Confesso aqui que, no início, não me agradou muito o som da banda, não sei exatamente o porquê. Foi só bem depois, provavelmente entre meus 17 e 18 anos, quando decidi gastar meu dinheiro e comprar este CD, que compreendi toda a importância do álbum que andava evitando. Não me arrependi.

Do mesmo modo que o Pearl Jam, conheci o Nirvana pela MTV, assistindo ao videoclipe de Smells Like Teen Spirit, um single que ficou para a história do rock. Aliás, em algum ano da década de 2000, quando eu ainda morava em Campinas/SP, a extinta Rádio Rock da cidade fez um tributo a todas as grandes músicas da história, começando às 08 horas e terminando às 18 horas do dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock, as 100 mais tocadas de todos os tempos, e adivinha qual foi a número 1? Bingo. Não sei se concordo que Smells... tenha sido a mais tocada em todas as rádios do mundo, também nem sei se concordo com aquela lista, mas certamente ela merece estar numa homenagem como aquela.

Todos sabem (deixando de fora os alienados) que Nevermind chegou a tamanho sucesso que a própria banda, principalmente o vocalista Kurt Cobain, que já era uma lenda viva, não conseguia administrar emocionalmente a fama e, entre outros motivos, acabou por se matar na sala de sua casa alguns anos depois. O que vale dizer sobre o álbum é que Smells..., bem como Come As You Are, Lithium, Polly, Territorial Pissings, Stay Away e Something On The Way, além de todo o resto das 12 faixas, foi um tipo de catarse para toda uma geração de jovens incomodados com suas próprias vidas e com o rumo que tomavam todos os acontecimentos em vários cantos e em vários países, principalmente no aspecto social, se tornando o exemplo perfeito de tudo aquilo que o movimento grunge reclamava e criticava em altos e potentes decibéis.

* * * * *

O que era grunge já passou. Mesmo as bandas que nasceram naquele meio e ainda estão em atividade já não carregam (tanto) aquele estigma da época. Mas até hoje o movimento influencia novas bandas de diferentes gêneros do rock, talvez mesmo de gêneros não-rock. Uma revolução musical que, sem sombra de dúvidas, quem viveu não vai esquecer tão cedo, pois sempre mostra suas garras aqui e ali, para mostrar que, no fundo, bem lá no fundo, grunges somos todos nós.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

1991: a Revolução (I)

Marlon Villas

Sabe quando você de repente lembra de algo que há muito tempo não apreciava? Foi assim comigo. Passando um dia tomando uma cerveja de leve na casa de uma de minhas irmãs, conversando sobre a vida, recordei de coisas de mais de quinze anos atrás, e eis que bateu a vontade de ouvir mais uma vez um disco que marcou muito meu início no mundo do rock pesado.

Recordo também que, aos 14 anos, comprei o tal CD, um dos primeiros da minha lista do gênero, e que várias primaveras mais tarde, acabei o emprestando a um sujeito na faculdade que nunca teve a decência de me devolver de volta. Um amiguinho do Danilo Altman, que por sinal aqui também escreve. Cadê o Sérgio, Danilão?

E a capa, como o álbum, é magnífica.
(Fonte: http://sequelacoletiva.wordpress.com)
Tive de baixar Arise, do Sepultura, lançado em 1991, na internet para voltar às minhas sensações de estupefação e assombro com o recém-conhecido thrash metal brasileiro naquela minha época. E me peguei sozinho no quarto dos meus sobrinhos, enquanto eles jogavam video game na sala, ouvindo no fone de ouvido do celular, deitado na cama, toda aquela porradaria muito bem concertada, gritando em silêncio (?) junto com Max Cavalera as letras do álbum.

Você, que é nostálgico, sabe bem do que estou falando.

Foi com esse trabalho que a banda de Belo Horizonte conseguiu finalmente reconhecimento dos headbangers do próprio país, pois até então os quatro músicos eram mais bem sucedidos em terras estrangeiras, principalmente nos Estados Unidos. Com a participação do Sepultura no Hollywood Rock, de 1992, no Rio de Janeiro, a consagração foi total.

A faixa-título abre com tal peso, cadência e clareza de sonoridade, que são poucas as músicas do estilo thrash que me fazem sentir tão bem com o fato de curtir o gênero quanto essa. A voz gultural do vocalista ajuda a arrepiar os pelos no refrão: "Under a pale gray sky we shall arise!". Em seguida, entra Dead Embrionic Cells, com uma guitarra um pouco mais ritmada, mas a construção bem feita da melodia e dos solos, além da bateria profunda dando o ar sinistro do som, principalmente na parte em que há uma espécie de parada sintomática prenunciando outro corpo musical, é fantástica (é a famosa parada em que hoje, nos shows, com o atual vocalista Derrick Green, e antes, com Max, há o inevitável "Um, dois, três, quatro!" berrado no microfone). Logo vem Desperate Cry, que para mim, é uma pequena obra-prima de mais de 6 minutos do metal brasileiro, com um riff inicialmente simples, e que depois descamba para uma espécie de sinfonia apocalíptica. Não vou me estender detalhando todas as faixas de Arise, porque, acredito, seria muito maçante para você, mas quero que também preste atenção à décima e última música, um cover da mítica banda Motörhead, Orgasmatron; esta versão ficou conhecida em todos os meios de metal, sem exceção (isso, é claro, caso você não saiba do que estou falando).

Dito isso, logo resolvi voltar mais uma vez (de dezenas e dezenas de vezes) a outro álbum lançado em 1991, Metallica, ou o grande Álbum Preto, do Metallica. Foi então que resolvi escrever esta homenagem às duas bandas, estas que, cada uma a seu modo, marcaram história no thrash metal mundial.

Para bom entendedor, Metallica foi o grupo que oficialmente inaugurou este gênero mais pesado (violento, destilando fúria?) do metal, no início dos anos 80. Hoje os fãs sabem que a banda investiu em outros estilos de som misturados ao original, ou mesmo fugindo do que os mais conservadores chamam de "tradição". Porém ninguém nega que este quarteto da Bay Area da Califórnia (EUA) contribuiu demais para o rock como um todo.

A capa simples e sem muitas firulas.
(Fonte: http://redutodorock.com.br)
Metallica é o álbum mais popular (entenda-se por popular aquilo de que quase todo mundo, mesmo não sendo roqueiro, já ouviu algo a respeito, pelo menos uma ou duas músicas) de toda a carreira destes músicos. Enter Sandman abre o trabalho de estúdio, com uma levada bem cadenciada, guitarras mais limpas do que os discos anteriores e melodia idem. Aliás, todas as doze faixas do trabalho soam desta forma, com uma equalização de todos os instrumentos tocados que soa agradável aos ouvidos, sem perder o peso que marcou a fama de Hetfiled, Ulrich & Cia. Sad But True é uma espécia de balada às avessas, pois é carregada de um clima estranho para um otimista (aliás, penso que a letra é sobre os abusos de álcool de Hetfield - se você prestar atenção, percebe que o alcoolismo se encaixa muito bem nas metáforas utilizadas). Nothing Else Matters é a única música romântica feita pelo grupo, e que virou o hit em toda e qualquer rádio no mundo, mesmo aquelas que não costumam tocar nada de rock. Of Wolf And Man remete a algo visceral de toda pessoa, dos seus instintos básicos. My Friend of Misery é uma pérola, entre tantas outras contidas no álbum.

Duas bandas de origens distintas, mas com algo em comum: o amor pelo som pesado e consagrado por dois discos lançados no mesmo ano, um ano em que muitos consideravam o início do fim do metal, já que muitas bandas começavam a surgir copiando umas às outras indiscriminadamente. Essa afirmação, que depois se mostrou totalmente errada e feita às pressas por pessoas que estavam desgostosas com os rumos da música na época, teve como motivo uma outra coisa que surgiu em outro canto dos EUA: o movimento grunge, com algumas bandas que, duas décadas depois, já ganharam seus devidos espaços no Olimpo do rock. Depois farei uma comparação entre outros discos destas "novas" bandas, que também tiveram destaque neste mesmo ano de 1991.

Parece que 1991 foi algo abençoado para os roqueiros de todos os gêneros. De lá para cá, ainda não percebi nada tão devastador - no bom sentido - quanto o que aconteceu naquele ano tão longínquo. Eu e muitos outros ainda aguardamos por outra revolução como aquela.