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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Black Sabbath - 13 (2013)

"Desde que saí do Sabbath, diversos grandes músicos passaram pela banda. Mas ninguém toca o Sabbath como o Sabbath." disse Ozzy Osbourne em uma entrevista. Nada poderia estar mais certo. Com todo respeito à quem curte mais alguma outra fase da banda, o Black Sabbath original é que foi a banda que vai ficar na história. Com a formação Ozzy, Geezer, Ward e Iommi a banda lançou dezenas de clássicos imortais, redefiniu padrões e deu bases para a fundação de inúmeros estilos da música pesada. Em outros momentos o BS foi uma boa banda de heavy metal, mas foi com esse quatro garotos de Birminghan tocando seu blues pesado que o grupo fez suas obras primas. 
 
Geezer, Ozzy e Iommi
Podemos analisar 13 de três formas: é uma qualidade incrível para uma banda que não fazia nada junta desde 1978. Ou, ainda: é um trabalho morno para quem já lançou álbuns como o Master of Reality e Vol 4. Não à toa tenho visto dois tipos de reação ao trabalho, gente o descrevendo como a oitava maravilha do mundo, enquanto outros o massacram. Por fim, podemos analisar o álbum como se fosse o primeiro álbum de um novo grupo. Nesse caso, qual seria a reação da crítica e do público, teria tanta gente empolgada assim? Acho que dá pra chegar à um meio termo entre essas análises. 

Na primeira análise, se levarmos em conta o tempo desde a última vez que os 3 músicos estiveram em estúdio juntos o álbum pode ser considerado um sucesso. Claro que (provavelmente)  não tem nenhuma música que vai figurar no olimpo do rock juntamente com Iron Man ou Sabbath Bloody Sabbath, entretanto o grupo aproveitou muito bem a oportunidade e este é um (provável) fechamento de discografia muito mais digno do que os fraquíssimos Technical Ecstasy e Never Say Die. Se não vai ocupar o mesmo lugar de honra na história do rock que os quatro ou seis primeiros discos dos caras, ao menos 13 traz um bom conjunto de canções. Boas suficiente para ser o melhor álbum dos caras desde Heaven and Hell, de 1980, talvez o único sem a formação clássica que seja digno de nota.
Brad Wilk

Já a comparação direta com os clássicos é até injusta. O Black Sabbath dos anos 70 está dentre as mais geniais e influentes bandas de rock da história. A saída foi o auto-plágio. Desta forma, a escolha do produtor Rick Rubin foi acertada. Dá pra dizer que o cd está para os ingleses como o Death Magnetic está para o Metallica. Um monte de ideias usadas nos seus tempos áureos recicladas. Ou vai dizer que o começo e a estrutura de End of the Beginning (e mesmo de God is Dead?) não é idêntica à música que nomeia o grupo? E o que seria Zeitgeist se não uma Planet Caravan parte 2? Faça um exercício, tente cantar a letra de NIB enquanto ouve Loner. A faixa nada mais é do que uma irmã mais nova do clássico. Usando um pouco, bem pouco, de imaginação, é possível encontrar ecos do passado em todas as faixas. Por sorte este trabalho tem mais fôlego do que aquele dos americanos. As músicas soam mais como grandes homenagens do que como marmita requentada. Aliás, não entendo o porquê God is Dead? ter sido o primeiro single. É facilmente a faixa mais fraca do álbum. Apesar de seguir a cartilha da banda em seu ritmo arrastado, ela me soa mais tediosa do que tenebrosa (ainda que seus riffs finais sejam excelentes). Fiquei pensando que se tivessem deixado apenas a metade final da música ela seria bem mais interessante e poderosa. O outro clone de Black Sabbath, End of the Beginning é bem melhor. Ainda que seus primeiros três minutos sejam pura cópia, sua parte final é bastante empolgante.
Os 3 Sabbathicos com Rick Rubin

Por fim, o olhar sobre 13 como se este fosse o debut de uma banda desconhecida. Temos aqui um bom conjunto de canções, em especial no que se refere à guitarra. Iommi é o mestre, não tem jeito. Seus solos estão incríveis. Parece que foram gravados nos anos 70 e estão sendo usados agora. Além disso, ele mostra que ainda tem alguns ótimos riffs na manga.  Geezer sempre foi um dos meus baixistas prediletos e continua mostrando toda sua técnica e peso. Uma pena Bill não ter participado das gravações, mas seu substituto, Brad Wilk, fez um ótimo trabalho. Já a voz do Ozzy é só um fiapo do que era. Nem o mais die hard dos fãs pode dizer que o comedor de morcego foi algum dia um excelente cantor, mas ao menos em juventude ele tinha um vigor que os anos de abusos levaram embora. O timbre inconfundível está lá, o carisma também, mas falta um pouco de emoção em suas linhas, parece que ele está desanimado, cantando enquanto pensa nos seus problemas com a Sharon. No conjunto da obra acredito que esta "nova banda" conseguiria sim atrair alguma atenção. Não haveria tantas odes de amor ao álbum, mas tenho certeza de que arrebanhariam um número considerável de fãs e boas críticas. Principalmente devido às duas grandes músicas do cd, que são Live Forever e Damaged Soul. A primeira um vigoroso heavy metal com o melhor riff do trabalho e a segunda um delicioso blues cheio de solos e gaitas. Nessas duas músicas consegui sentir a magia Sabbathica chegando bem perto da força dos longínquos anos 70.

As três músicas bônus são todas muito boas, até é engraçado terem ficado de fora, sendo  melhores do que a maioria das "oficiais". Enquanto Peace of Mind e Pariah são faixas que conseguem remeter à fase clássica soando, ao mesmo tempo, modernas, Methademic é uma desgraceira da melhor qualidade. Interessante notar que são justamente nestas que estão os melhores momentos de Ozzy.  Acredito que se tivessem seguido nessa direção o resultado final seria bem melhor. Entretanto, é fácil entender o porquê das 3 músicas terem ficado de fora da edição "normal" do cd, elas são conceitualmente bem diferentes das demais. Essas faixas não cometem, por exemplo, o erro das anteriores, de serem mais longas do que deveriam.
Hora do chá

Resumindo:

Ao meu ver, são três os grandes problemas do álbum: a já discutida falta de empolgação de Ozzy, a duração das músicas, muitas delas são muito maiores do que deveriam, e o auto-plágio. Também faltaram alguns refrãos mais poderosos. Dear Father, por exemplo,  é uma música com ótimas guitarras, mas com um refrão que dá uma certa broxada.

E como pontos positivos: grandes riffs e solos e ... o auto-plágio! Em sua maioria as músicas dão aquela sensação de "já ouvi isso antes", mas sejamos honestos, alguém queria realmente que o Sabbath fizesse algo diferente nessa altura do campeonato? 13 não é apenas a continuação de uma discografia, é um retorno depois de mais de três décadas. Era difícil se arriscar (e acertar). Neste ponto a banda acertou o tom. Musicas com uma pegada setentista e a produção moderna. Seria irreal esperar uma evolução do BS, surgindo em 2013 como se tivesse passado apenas um ou dois anos de Volume 4.

Pensando bem, se olharmos o período entre o primeiro e este último álbum dos ingleses, muitas boas bandas de heavy metal surgiram, algumas poucas conseguiram chegar perto, menos ainda se igualaram (Iron Maiden, Metallica...talvez mais uma ou duas...), mas ninguém conseguiu superar os pais. Um Black Sabbath recauchutado e sem brilhar, muito longe do que já fez de mais incrível, é melhor do a gigantesca maioria das bandas atuais.

Álbum: 13
Artista: Black Sabbath
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Vertigo, Universal

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Queens of the Stone Age - ... Like Clockwork (2013)


Quando penso no rock da primeira década do século XXI não tenho dúvidas de que a grande banda foi o Queens of the Stone Age. Nascido das cinzas do ótimo Kyuss, o Queens rompeu com todos os limites e criou álbuns que agregavam os mais diversos elementos de forma orgânica. Seus discos sempre foram pesados, dançantes, criativos, barulhentos, empolgantes. Assim ansiedade por este ...Like Clockwork, primeiro trabalho em seis anos, era imensa. 
A atual formação do Queens of the Stone Age

O cd abre com uma das melhores faixas, Keep your Eyes Peeled. Bluesão pesado, distorcido e arrastado, com excelentes riffs e andamentos. Ainda assim me pareceu uma escolha curiosa para abrir o álbum, por ser muito lenta e soturna. Essa é uma faixa que eu esperaria ouvir no vindouro álbum do Black Sabbath ou de alguma (boa) banda Doom Metal por aí.
As carismáticas If I Had a Tail e I Sat by the Ocean tem aquele estilo bem característico e consagrado da banda, contrastando bases pesadas com ritmos dançantes. Se não trazem nada de realmente novo à sonoridade da banda ao menos são bastante boas dentro de suas propostas, em especial a segunda, com suas ótimas linhas vocais.
The Vampyre of Time and Memory é uma balada bonita, que tem até uma pegada meio classic rock, principalmente no solo de guitarra. Outra faixa no mesmo estilo é a que nomeia e fecha o trabalho, uma música melancólica que começa ao piano e violão para ir ganhando corpo e emoção conforme evolui.
Kalopsia é a mais fraca do cd. Uma faixa que tem em sua concepção caras como Josh Homme e Trent Reznor (Nine Inch Nails) merecia mais do que ter apenas passagens bacanas. Se alternando entre versos lentos (tediosos) e refrões barulhentos (bem legais) fica bem aquém do que eu esperava. Prefiro a cooperação que os músicos tiveram na trilha sonora do documentário Sound City, aquela sim bem mais interessante.
A maior porrada do álbum é sem dúvidas a My God is the Sun, que foi mostrada pela primeira vez no Lollapalooza Brasil. Bons riffs, Dave Grohl detonando na bateria como sempre... é legal, mas fica pálida perto de outras barulhentas da banda, como Sick Sick Sick, Feel Good Hit of the Summer ou Song for the Dead, por exemplo. Divertida, mas duvido que se torne um clássico nos shows dos caras.
Smooth Sailing me lembrou um pouco o estilo amalucado reminiscente de Era Vulgaris em faixas como I'm Designer e Misfit Love, com inúmeros detalhes, camadas e sonoridades diferentes. A mais psicodélica e uma das melhores deste lançamento. No início de Fairweather Friends temi pelo pior, mas temos aqui um ótimo hard rock, engrandecido pelo ótimo piano de Sir Elton John. Música simples, mas bem eficiente.
A angustiante (no bom sentido) I Appear Missing é uma power balad furiosa. Épica até o osso, a semi-balada te deixa com os nervos à flor da pele até o fim. Alias, acho até anticlimático que o trabalho não se encerre com essa faixa. É tranquilamente um dos destaques de ...Like Clockwork
A produção do cd está excelente. Todos os instrumentos podem ser ouvidos com bastante definição. Ouça no fone de ouvido e descubra novos detalhes cada vez. Os timbres dos instrumentos foram todos muito bem escolhidos. As guitarras solo tem um som vintage delicioso enquanto as bases soam "gordas" e na cara. Os teclados e sintetizadores e o som seco escolhido para a bateria deixam tudo mais pesado. Outro dos destaques do álbum é a voz de Josh, que está cantando muito. É impressionante como ele vem melhorando cada vez neste quesito com o tempo. Fazia tempo que eu não ficava tão impressionado com a produção de um cd. Neste quesito dá até pra dizer que ...Like Clockwork é o Sgt Peppers do Queens. O que decepciona é que fora o piano de Elton John nenhum outro participante especial mostra muito a que veio. Se eu não tivesse lido a lista dos músicos convidados eu nunca saberia que participaram desta gravação.
Mais um bom trabalho da banda, que ainda está invicta, sem lançar nenhum cd realmente fraco. Entretanto faltou "aquela" música, entende? Não temos aqui nenhuma arrasa-quarteirão como No One Knows, Sick Sick Sick, Feel Good Hit of the Summer, entre outras. A impressão que dá é que o falta um pouco de tempero para o álbum, algo que o deixe diferenciado. Nada daqueles riffs criativos de outrora, a pegada aqui é bem mais Hard Rock setentista. Mais direto, mais ao ponto. Dá pra dizer que ...Like Clockwork é exatamente o oposto de Era Vulgaris. Enquanto aquele álbum tinha bastante músicas "médias" e umas 3 ou 4 arrasa-quarteirões, o novo release é um álbum forte e coeso, com suas 10 músicas mostrando qualidades, porém sem nenhum grande hit. ou "revolução". Nenhuma música aqui tem aquela pitada de insanidade, de desconstrução dos padrões estabelecidos que permeavam os álbuns anteriores e que  "explodem seu cérebro". É tudo muito bem feito e bacana, porém dentro da "normalidade". Aqui o Queens é uma ótima banda de hard rock/rock alternativo, mas não é desafiadora para os seus ouvintes.
Entretanto é importante ressaltar que apesar de manter certas referencias, conceitos e estilos, a banda nunca  se auto-plagia. A integridade artística do Queens continua intacta e este ...Like Clockwork é mais um passo em sua brilhante carreira, tendo uma cara bem própria, sendo o mais soturno e melancólico trabalho da banda. Se não é aquela explosão de criatividade da década passada, ao menos o álbum é um honesto, bem-feito e cativante registro de rock.
Um cd muito bom e que provavelmente será um dos destaques de 2013, mas ainda assim dificilmente será lembrado como um dos grandes clássicos dos caras. Para outras bandas seria um lançamento maravilhoso, mas para um grupo do quilate do Queens é pouco. Nos acostumaram mal demais.


Álbum: ... Like Clockwork
Artista: Queens of the Stone Age
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Matador, Rekords Rekords

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ghost - Infestissumam (2013)


Do nada começaram a pipocar notícias e reviews sobre o Ghost. Não dei muita bola. Demorei a ter curiosidade sobre os caras. Mas depois de ver que até figurões como Phil Anselmo (Down, Pantera) e James Hetfield (Metallica) se declararam fãs e andavam por aí com camisetas do grupo deixei a preguiça de lado e fiz o download. Verdade seja dita, de cara não curti a banda. Achei leve demais e o timbre do vocal Papa Emeritus I não me desceu. Mas de repente me vi cantarolando algum riff ou melodia dos caras. E ouvi mais uma vez o álbum, só pra tirar teima. E mais uma. E outra. Logo já estava cantando todas as letras por aí. Não teve jeito,  também fui pego pela praga do Opus Eponymous, debut dos suecos. Já se passaram uns 2 anos desde meu primeiro contato e continuo ouvindo o cd sem parar.
O Papa e seus seguidores
Pra quem não sabe, o Ghost é uma banda que faz um resgate do heavy metal setentista, com influências de Blue Oister Cult e Uriah Heep e alguma pitada de Mercyful Fate. Desta última trouxeram principalmente o aspecto visual e teatral e as temáticas demoníacas. Para reforçar o aspecto sombrio a banda decidiu manter em sigilo as identidades de seus músicos. Alias, fora o vocalista Papa Emeritus I (agora Papa Emeritus II), que a imprensa acredita ser Tobias Forge, vocalista das bandas de death metal Repugnant e Subdivision, todos os outros outros cinco instrumentistas encapuzados são conhecidos apenas como Nameless Ghouls.
Dá para entender o rebuliço que o debut da banda causou. O contraste dos vocais suaves aliadas às belas melodias do hard rock/heavy metal setentista com as letras e visual obscuro e enigmático conferiram uma aura cult ao grupo. Aliás, não consigo parar de pensar que a banda é, além de uma grande homenagem as bandas clássicas, uma certa sátira à alguns clichés do metal. As letras de tão absurdamente satânicas (e até meio juvenis) passam a ser  engraçadas. Veja bem, isso não é uma crítica. Muito pelo contrário, acredito que a cada detalhe da banda foi pensado e repensado em cada pormenor e o Ghost é entretenimento puro. Desde as especulações sobre as identidades dos músicos até o que mais importa mesmo, o som.
Phil Anselmo, Dave Grohl e James Hetfield, fã club do Ghost
Com tudo isso veio a ansiedade pelo segundo álbum. O primeiro single liberado foi a "valsa" Secular Haze, que ganhou um clip no melhor estilo Black Sabbath. A música já mostrava o que seria ouvido no álbum, uma produção mais caprichada e uma atenção redobrada aos teclados. 
A banda fez excelentes escolhas na composição de Infestissumam. O primeiro aspecto é que não fizeram uma mera cópia do cd anterior. O grupo evoluiu e se aprofundou ainda mais em seu resgate da sonoridade setentista.  Seu som está até mais leve e melódico do que em Opus Eponymous, porém não menos carismático. Como já dito, a presença do teclado é bem mais forte e a adição de alguns corais gregorianos em certas faixas só acrescenta dramaticidade e consistência ao som do grupo.
O trabalho abre com a excelente instrumental que dá nome ao álbum, com bateria rápida e corais, já deixando o ouvinte em estado de alerta e preparando o clima para Per Asperi Ad Inferi, uma das mais pesadas do cd, com seu riff cortante e bateria militar em seu refrão. Esta é provavelmente uma das faixas que mais se parece com as do registro anterior.
Uma das diferenças entre este cd e o debut é a presença de "baladas". A primeira metade do épico Ghuleh/Zombie Queen é um exemplo, com seus teclados, piano e clima triste. A segunda metade da faixa começa com um efeito "tecnobrega" (o Ghost se inspirou em The Strokes?) e ela se torna uma das faixas mais agitadas e divertidas do álbum. Outra balada é Body and Blood, que poderia ter saído de qualquer cd da Mark III do Deep Purple.
Jigolo Har Megiddo, Idolatrine e Depth of Satan's Eyes são ótimos hard rocks. Todas com andamentos moderados em termos de velocidade, as faixas apresentam muita melodia e um clima até dançante, meio post-punk. Mostre essas músicas pra aquele seu amigo que acha que música boa é só aquela produzida nos anos 70 e pode apostar que ele vai amar.
A grande música do álbum (e da banda, ao menos até agora) é Year Zero. O coral cantando nomes de demônios dá espaço à riffs e andamentos que são ao mesmo tempo vintage e modernos. Impossível não se empolgar com esta faixa. Ela até já ganhou um clip bacaníssimo e bem sacado, cheio de subtextos, brincando com rituais católicos e pagãos, além da óbvia piada a respeito da identidade dos músicos. 
O trabalho fecha com Monstrance Clock. Imagino o King Diamond ouvindo esta e pensando "meus garotos" com um sorriso no rosto. Piano e um riff sabbatico dão o tom aqui. Só tome cuidado para não sair cantando em alto e bom som por aí "come together, together as one, come together, for Lucifer's son".
O desafio do segundo álbum está mais do que superado. O Ghost veio para ficar.


Álbum: Infestissumam
Artista: Ghost
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Loma Vista

terça-feira, 19 de março de 2013

David Bowie - The Next Day (2013)


Não tem como deixar passar em branco um super lançamento como este, né? Como você já deve estar sabendo, o cantor/ator/produtor/alienígena/camaleão/etc David Bowie apareceu depois de muito tempo sem dar qualquer notícia para lançar um novo álbum intitulado The Next Day, seu primeiro registro em dez anos. Após deixar o álbum no repeat por uma semana acho que já estou apto a falar sobre ele.
O cd abre de forma bastante forte com a faixa que dá seu nome. Um rock'n'roll energético e dançante com uma certa pegada Rolling Stonica, principalmente nas guitarras. Ouvindo a faixa me vem a cabeça a imagem de um show lotado, com o publico pulando e cantando enlouquecidamente. Uma música simples, mas grudenta e eficiente.
A sequência com Dirty Boys, The Stars (are out tonight) e Love is Lost é minha parte preferida do trabalho. Uma música melhor do que a outra. Enquanto a Dirty Boys transita entre o rock e o jazz, com seu acompanhamento de metais e seus tempos quebrados, The Stars... volta ao rock básico.  A música já ganhou um fantástico clip e é fácil de entender o porquê de ter sido escolhida como single. A guitarra sempre presente e sua estrutura em crescendo que explode no refrão tem tudo pra se tornar um dos grandes hits da carreira de Bowie. Já me peguei cantando ela alto no busão algumas vezes. Love is Lost fecha esse primeiro terço do cd de forma soberba com seu baixo pulsante, teclado altíssimo dando um aspecto sombrio para a música e guitarras distorcidas que surgem em ótimos fraseados e riffs. A linha vocal criada por Bowie confere um tom de urgência para a faixa.
Então vem o único ponto fraco do trabalho. Where are we now? é uma baladinha pra tocar em baile da terceira idade. Chata que só. E por falar em baladas, o cd tem mais algumas (felizmente bem melhores), como Valentine's Day, que poderia ter aparecido em algum LP antigo do inglês. Seu andamento e sonoridade remetem à um amalgama de músicas romanticas dos anos 60 e 80. Entretanto, a melhor balada do cd é a épica You feel so lonely you could die. Corais, pianos, cordas... a faixa podia ter descambado para a breguice, mas o cantor consegue fazer de tudo isso um momento genuinamente emocionante. 
Uma das músicas mais interessantes é a agitada If you can see me. A bateria dela parece ter sido inspirada pela fase drum and bass do camaleão (do álbum Earthling, de 1997), entretanto sendo tocada "organicamente". Extremamente trabalhada e criativa é sem dúvida uma de minhas preferidas do álbum.
I'd rather be high tem um andamento militar (mais ou menos como a Sunday Bloody Sunday do U2) e um bonito refrão. Boss of me reúne um monte de elementos de forma elegante. Guitarras, metais, partes mais paradas, outras mais agitadas, corais... tudo de forma orgânica e bem equilibrada. Já uma das mais alegres e dançantes é a Dancing out in space
How does the grass grow é uma das grande pérolas. Com um "quêzinho" de hard rock, a faixa traz linhas de teclado bacanas, bateria bem trampada e uma das onomatopéias mais divertidas dos últimos tempos. Te desafio a escutar a música e não ficar com esculaxados La la la las na cabeça. O solo de guitarra é outra coisa linda. E por falar em solo de guitarra, um dos melhores é da post-punk (You will) Set the world on fire, faixa que evoca Bauhaus todo o tempo.
A densa Heat fecha o trabalho. Se a faixa de abertura foi a escolha certa, a de fechamento também não poderia ser melhor. Lenta, depressiva e épica, Heat é hipnotizante. Coloque-a no fone de ouvido, feche os olhos e boa viagem pelas sensações e sentimentos que a música vai te trazer.
No alto dos seus 66 anos David Bowie ainda mostra como se faz. Dá um banho em um monte de bandinhas que se acham modernas e lançou um cd digno não só de sua própria discografia como também das famosas listinhas de melhores do ano. Na minha com certeza The Next Day vai estar.
Álbum: The Next Day
Artista: David Bowie
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Columbia

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sound City: Real To Reel (2013)


Dave Grohl é a pessoa ligada à música que mais gosto. Longe da revolução punk dos tempos de Nirvana, no Foo Fighters Grohl desenvolveu uma boa fórmula, um rock de arena palatável para grandes multidões e para as rádios, mas sem cair na bunda-molice que geralmente se encontra nesse tipo de música atualmente. É uma das mais honestas e interessantes bandas de rock'n'roll mainstream da atualidade.  
Entretanto, eu gosto mesmo é quando Grohl assume as baquetas. Como baterista ele gravou alguns álbuns clássicos, como (obviamente) o Nevermind do Nirvana, o Songs for the Deaf do Queens of the Stone Age e o auto-intitulado cd do Them Crooked Vultures, além de participações e projetos diversos, como sua homenagem ao heavy metal, o Probot, e a recente participação na nova jóia do metal, o sueco Ghost.
Dave, o fã de Slaaaayeeeeer
Além de simpaticíssimo e carismático, o líder do Foo Fighters também é hiperativo. Ao decretar férias para sua banda principal ele não demorou à encontrar novos projetos. Dentre eles a gravação de um novo álbum com o Queens of the Stone Age e a produção de um documentário sobre o lendário estúdio Sound City. Foi lá que muita gente boa gravou. Como por exemplo, o próprio Nirvana, Neil Young, Greatfull Dead, Santana, Metallica, Kyuss, Queens of the Stone Age, Red Hot Chilli Peppers, Elton John, Tool, Black Crowes...
E claro que esse documentário geraria música também. Assim Dave juntou um time de músicos que em sua maioria (se nao todos) já utilizaram o Sound City em gravações e produziu uma excelente trilha sonora para o filme.
O trabalho abre com a guitarrenta Heaven and All que conta com Robert Levon Been e Peter Hayes, músicos do Black Rebel Motorcycle Club. A faixa lembra bastante a sonoridade da banda em seus melhores momentos. Agitada e barulhenta, a música foi uma excelente escolha para abertura do cd, com sua levada garage rock ao  estilo do clássico MC5.
Time Slowing Down trás nos vocais e guitarra Chis Goss da banda Stoner Rock Masters of Reality e a "cozinha" do Rage Against the Machine. A música entretanto soa como um ótimo hard rock. Chegamos então a uma das minhas faixas preferidas, You can't fix this que tem nos vocais a ex-Fleetwood Mac Stevie Nicks. Uma pseudo-balada meio sombria como se fazia nos anos 1980.
As duas próximas são as musicas "punk" do álbum. Na verdade The man that never was se parece bastante com as faixas mais barulhentas do Foo Fighters (talvez por contar com praticamente toda a banda de Grohl), enquanto You wife is calling é mais violenta, me lembrando até alguma coisa do The Stooges. Um inesperado solo de gaita dá um charme a mais pra faixa.

Alguns dos músicos que tocaram no álbum.
Corey Taylor é um dos grandes vocalistas da geração atual. Gosto muito quando ele canta de verdade, não ficando limitado apenas aos guturais que usa no Slipknot. Sei que tal banda tem uma legião de fãs, mas acho o cara um talento desperdiçado. Uma pena que não rolou a entrada dele no Velvet Revolver, adoraria ouvir o que ele produziria ao lado dos ex-Guns'n'Roses. From can to can't, a música que Corey canta, é uma balada metal, que começa com um dedilhadinho a la Scorpions e acaba ganhando os riffs de guitarra mais pesados do álbum.
Josh Homme é o principal convidado de Centipede. Uma das melhores do cd, a faixa, que poderia ser do Them Crooked Vultures, começa com um bonito dedilhado e descamba para uma destruição sonora lotada de riffs e bateria pesadas
A trick with no sleeve é a primeira a ganhar clip. Talvez como homenagem a Alain Johannes. Parceiro habitual de Grohl em diversos projetos, o ótimo multi-instrumentista acaba sempre sendo eclipsado por nomes mais conhecidos. Aqui entretanto ele assume os holofotes ao cantar esse ótimo rock de arena.
Sem dúvida nenhuma o convidado mais ilustre do cd é Sir Paul McCartney. Em Cut me some slack o ex-Beatle é acompanhado pelo "Nirvana". Ou seja, Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear (guitarrista que tocou com a banda em suas últimas turnês). A música é um rock'n'roll sem frescura, como deve ser.
Nas duas últimas faixas Grohl assume o microfone. If I Were Me é uma baladinha com violões e piano. Bonita música, mas não considero das melhores do cd. Já Mantra era o encontro que eu mais aguardava, juntando à Grohl os gênios Joshua Homme e Trent Reznor. A faixa é um épico de quase 7 minutos, uma mistura de Queens of the Stone Age com elementos eletrônicos do Nine Inch Nails. Coisa linda.
Apesar dos diferentes músicos envolvidos o cd não parece uma colcha de retalhos. Claro que cada convidado acabou levando sua música para o lado de sua banda de origem, mas Dave soube dar a "liga" necessária e, ao contrário do que poderia se esperar de um cd assim, Sound City: Real to Reel não é daqueles cds de grandes altos e baixos, com duas ou três faixas bacanas e as demais descartáveis. O cd é inteiro ótimo, pra se ouvir do início ao fim. Bem alto de preferência. 
Se a ideia era mostrar que o Sound City é um lugar inspirador, de onde saem ótimas músicas, então Dave foi bem sucedido. Fica agora a curiosidade para assistir ao documentário.

Álbum: Sound City: Real to Reel
Artista: Vários
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   RCA

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

1991: a Revolução (II)

Marlon Villas


Grunge. Uma das principais palavras de ordem naquele tempo. Até hoje muita gente se confunde na definição do que seja grunge, muitos dizem que isso seria um subgênero de rock, outros afirmam que é um estilo de vida, portanto maior do que apenas ligado ao rock. A verdade é que esta palavrinha estranha e engraçada surgiu no estado de Washington, EUA, principalmente na cidade de Seattle, e teve a ver com rock, sim.

Pra ser totalmente honesto com você, esse papo de que o movimento grunge é “muito mais” do que somente uns caras que gostam de um som pesado e distorcido do heavy metal, vestem camisas e calças rasgadas, revivendo a atitude visual do punk, e gritam contra a sociedade, seus preconceitos e sua moral hipócrita, não passa da necessidade de um bando de sujeitos supervalorizarem algo que idolatram, nada mais. O grunge tem a ver com rock porque nasceu nas entranhas do rock, não há mais o que discutir a respeito deste ponto, e ponto final.

Vamos seguir em frente.

O movimento de Seattle já estava se consolidando como uma nova forma de se fazer um som com peso e de aparência mais suja, musicalmente falando, do que os roqueiros estavam acostumados até então. Os norte-americanos estavam com suas antenas voltadas para Los Angeles ou Nova York, e foi aí que surgiu algo fora dos padrões destas duas cidades: a cena punk de Seattle estava passando por alguma espécie de metamorfose efervescente. Daí, você já sabe: tudo o que é diferente e criativo acaba virando uma febre que se espalha rapidamente. Os empresários musicais da época foram forçados a rever seus conceitos na mesma velocidade, a fim de abocanhar aquele mercado que se mostrava bastante promissor.

Esta cena, provavelmente batizada de grunge pela banda Green River, segundo reza a lenda, já estava bem estabelecida nas ruas onde havia nascido alguns anos antes, no final da década de 1980, além de começar a ganhar um bom status fora de seus domínios, com trabalhos de bandas diversas, como Alice In Chains, The Melvins, Soundgarden, Stone Temple Pilots etc. Porém foi no ano de 1991 que, mais uma vez, como no thrash metal (ver este outro texto), que muitos criam estar à beira da morte, a revolução grunge tomou o lugar de uma certa pasmaceira musical na mídia especializada daqueles dias. Tudo por causa, basicamente, de dois discos lançados quase simultaneamente (um, no final de agosto, o outro, no final de setembro). Coincidência?

Capa emblemática pra cacete.
(Fonte: http://cs.leander.isd.tenet.edu)
Ten – Pearl Jam
A banda Pearl Jam começava sua carreira definitivamente pelas rádios de todos os EUA, e depois por todo o mundo, com seu primeiro álbum, Ten. Falando nisso, alguém pode me dizer o motivo deste título? Porque, se é para se referir às 11 faixas contidas no disco, então obviamente não faz sentido. Ou faz? Enfim, conheci o grupo através da MTV, quando a emissora ainda era uma ótima opção para se conhecer bandas e artistas da música nacional e internacional, com seus videoclipes sendo transmitidos todos os dias, às vezes em diversos horários num mesmo dia, caso sua popularidade fosse alta.

Ao contrário das outras bandas grunges aqui citadas e outras do mesmo movimento, com uma sonoridade mais carregada e cheia de distorções e diferentes efeitos, o Pearl Jam se destacava, já neste trabalho, por uma maior limpeza na equalização das músicas, além destas serem trabalhadas com mais solos de guitarras e uma clareza na voz do vocalista Eddie Vedder. Tudo isso sem perder, no entanto, a contestação e os assuntos de forte conteúdo emocional tratados por todos os grunges, como suicídio, depressão, dúvidas existenciais, morte, drogas, preconceitos sociais, falta de sentido/necessidade de liberdade, e por aí vai.

Logo após o lançamento do álbum, ele não teve tantas vendas, mas alguns meses depois, principalmente no ano seguinte, os fãs de rock perceberam que estavam diante de algo feito de forma única, em contraste com tudo o que andavam escutando. Não deu outra: Ten é considerado um dos discos mais bem sucedidos de toda a década de 1990, na verdade dos últimos 20 anos. Não são muitas bandas que alcançam reconhecimento desse nível logo no primeiro trabalho. Na minha opinião, todas as faixas possuem aquela coisa que você pode não definir bem o que seja, mas com certeza reconhece que é especial. Even Flow, Alive, Black, Jeremy, Porch, Garden, todas são músicas que brincam com as sensações de quem as ouve, emocionando de uma maneira ou de outra, com solos simples e bem executados, com pratos e caixas da bateria soando agressivos sem partir para o ataque propriamente dito, linhas melódicas de voz e baixo muito bem casadas. Enfim, uma bela obra de arte em 53 minutos totais.

A lendária caça ao dólar.
(Fonte: http://hqrock.files.wordpress.com)
Nevermind – Nirvana
Diferentemente do Pearl Jam, o Nirvana já tinha um disco na bagagem em 1991. Dois anos antes havia lançado Bleach, embora tal trabalho não tenha alcançado na época toda a imensa fama que Nevermind ofereceria ao trio de punk grunge.

Diferentemente do Pearl Jam, o Nirvana sempre prezou por algo mais barulhento, com certa violência em suas músicas, de uma crueza magnífica, mesmo que houvesse apenas uma guitarra, um baixo e uma bateria para fazer todo o estardalhaço em seus trabalhos. Confesso aqui que, no início, não me agradou muito o som da banda, não sei exatamente o porquê. Foi só bem depois, provavelmente entre meus 17 e 18 anos, quando decidi gastar meu dinheiro e comprar este CD, que compreendi toda a importância do álbum que andava evitando. Não me arrependi.

Do mesmo modo que o Pearl Jam, conheci o Nirvana pela MTV, assistindo ao videoclipe de Smells Like Teen Spirit, um single que ficou para a história do rock. Aliás, em algum ano da década de 2000, quando eu ainda morava em Campinas/SP, a extinta Rádio Rock da cidade fez um tributo a todas as grandes músicas da história, começando às 08 horas e terminando às 18 horas do dia 13 de julho, Dia Mundial do Rock, as 100 mais tocadas de todos os tempos, e adivinha qual foi a número 1? Bingo. Não sei se concordo que Smells... tenha sido a mais tocada em todas as rádios do mundo, também nem sei se concordo com aquela lista, mas certamente ela merece estar numa homenagem como aquela.

Todos sabem (deixando de fora os alienados) que Nevermind chegou a tamanho sucesso que a própria banda, principalmente o vocalista Kurt Cobain, que já era uma lenda viva, não conseguia administrar emocionalmente a fama e, entre outros motivos, acabou por se matar na sala de sua casa alguns anos depois. O que vale dizer sobre o álbum é que Smells..., bem como Come As You Are, Lithium, Polly, Territorial Pissings, Stay Away e Something On The Way, além de todo o resto das 12 faixas, foi um tipo de catarse para toda uma geração de jovens incomodados com suas próprias vidas e com o rumo que tomavam todos os acontecimentos em vários cantos e em vários países, principalmente no aspecto social, se tornando o exemplo perfeito de tudo aquilo que o movimento grunge reclamava e criticava em altos e potentes decibéis.

* * * * *

O que era grunge já passou. Mesmo as bandas que nasceram naquele meio e ainda estão em atividade já não carregam (tanto) aquele estigma da época. Mas até hoje o movimento influencia novas bandas de diferentes gêneros do rock, talvez mesmo de gêneros não-rock. Uma revolução musical que, sem sombra de dúvidas, quem viveu não vai esquecer tão cedo, pois sempre mostra suas garras aqui e ali, para mostrar que, no fundo, bem lá no fundo, grunges somos todos nós.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

1991: a Revolução (I)

Marlon Villas

Sabe quando você de repente lembra de algo que há muito tempo não apreciava? Foi assim comigo. Passando um dia tomando uma cerveja de leve na casa de uma de minhas irmãs, conversando sobre a vida, recordei de coisas de mais de quinze anos atrás, e eis que bateu a vontade de ouvir mais uma vez um disco que marcou muito meu início no mundo do rock pesado.

Recordo também que, aos 14 anos, comprei o tal CD, um dos primeiros da minha lista do gênero, e que várias primaveras mais tarde, acabei o emprestando a um sujeito na faculdade que nunca teve a decência de me devolver de volta. Um amiguinho do Danilo Altman, que por sinal aqui também escreve. Cadê o Sérgio, Danilão?

E a capa, como o álbum, é magnífica.
(Fonte: http://sequelacoletiva.wordpress.com)
Tive de baixar Arise, do Sepultura, lançado em 1991, na internet para voltar às minhas sensações de estupefação e assombro com o recém-conhecido thrash metal brasileiro naquela minha época. E me peguei sozinho no quarto dos meus sobrinhos, enquanto eles jogavam video game na sala, ouvindo no fone de ouvido do celular, deitado na cama, toda aquela porradaria muito bem concertada, gritando em silêncio (?) junto com Max Cavalera as letras do álbum.

Você, que é nostálgico, sabe bem do que estou falando.

Foi com esse trabalho que a banda de Belo Horizonte conseguiu finalmente reconhecimento dos headbangers do próprio país, pois até então os quatro músicos eram mais bem sucedidos em terras estrangeiras, principalmente nos Estados Unidos. Com a participação do Sepultura no Hollywood Rock, de 1992, no Rio de Janeiro, a consagração foi total.

A faixa-título abre com tal peso, cadência e clareza de sonoridade, que são poucas as músicas do estilo thrash que me fazem sentir tão bem com o fato de curtir o gênero quanto essa. A voz gultural do vocalista ajuda a arrepiar os pelos no refrão: "Under a pale gray sky we shall arise!". Em seguida, entra Dead Embrionic Cells, com uma guitarra um pouco mais ritmada, mas a construção bem feita da melodia e dos solos, além da bateria profunda dando o ar sinistro do som, principalmente na parte em que há uma espécie de parada sintomática prenunciando outro corpo musical, é fantástica (é a famosa parada em que hoje, nos shows, com o atual vocalista Derrick Green, e antes, com Max, há o inevitável "Um, dois, três, quatro!" berrado no microfone). Logo vem Desperate Cry, que para mim, é uma pequena obra-prima de mais de 6 minutos do metal brasileiro, com um riff inicialmente simples, e que depois descamba para uma espécie de sinfonia apocalíptica. Não vou me estender detalhando todas as faixas de Arise, porque, acredito, seria muito maçante para você, mas quero que também preste atenção à décima e última música, um cover da mítica banda Motörhead, Orgasmatron; esta versão ficou conhecida em todos os meios de metal, sem exceção (isso, é claro, caso você não saiba do que estou falando).

Dito isso, logo resolvi voltar mais uma vez (de dezenas e dezenas de vezes) a outro álbum lançado em 1991, Metallica, ou o grande Álbum Preto, do Metallica. Foi então que resolvi escrever esta homenagem às duas bandas, estas que, cada uma a seu modo, marcaram história no thrash metal mundial.

Para bom entendedor, Metallica foi o grupo que oficialmente inaugurou este gênero mais pesado (violento, destilando fúria?) do metal, no início dos anos 80. Hoje os fãs sabem que a banda investiu em outros estilos de som misturados ao original, ou mesmo fugindo do que os mais conservadores chamam de "tradição". Porém ninguém nega que este quarteto da Bay Area da Califórnia (EUA) contribuiu demais para o rock como um todo.

A capa simples e sem muitas firulas.
(Fonte: http://redutodorock.com.br)
Metallica é o álbum mais popular (entenda-se por popular aquilo de que quase todo mundo, mesmo não sendo roqueiro, já ouviu algo a respeito, pelo menos uma ou duas músicas) de toda a carreira destes músicos. Enter Sandman abre o trabalho de estúdio, com uma levada bem cadenciada, guitarras mais limpas do que os discos anteriores e melodia idem. Aliás, todas as doze faixas do trabalho soam desta forma, com uma equalização de todos os instrumentos tocados que soa agradável aos ouvidos, sem perder o peso que marcou a fama de Hetfiled, Ulrich & Cia. Sad But True é uma espécia de balada às avessas, pois é carregada de um clima estranho para um otimista (aliás, penso que a letra é sobre os abusos de álcool de Hetfield - se você prestar atenção, percebe que o alcoolismo se encaixa muito bem nas metáforas utilizadas). Nothing Else Matters é a única música romântica feita pelo grupo, e que virou o hit em toda e qualquer rádio no mundo, mesmo aquelas que não costumam tocar nada de rock. Of Wolf And Man remete a algo visceral de toda pessoa, dos seus instintos básicos. My Friend of Misery é uma pérola, entre tantas outras contidas no álbum.

Duas bandas de origens distintas, mas com algo em comum: o amor pelo som pesado e consagrado por dois discos lançados no mesmo ano, um ano em que muitos consideravam o início do fim do metal, já que muitas bandas começavam a surgir copiando umas às outras indiscriminadamente. Essa afirmação, que depois se mostrou totalmente errada e feita às pressas por pessoas que estavam desgostosas com os rumos da música na época, teve como motivo uma outra coisa que surgiu em outro canto dos EUA: o movimento grunge, com algumas bandas que, duas décadas depois, já ganharam seus devidos espaços no Olimpo do rock. Depois farei uma comparação entre outros discos destas "novas" bandas, que também tiveram destaque neste mesmo ano de 1991.

Parece que 1991 foi algo abençoado para os roqueiros de todos os gêneros. De lá para cá, ainda não percebi nada tão devastador - no bom sentido - quanto o que aconteceu naquele ano tão longínquo. Eu e muitos outros ainda aguardamos por outra revolução como aquela.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mike Patton, a delicada arte de fazer música

Danilo Altman


Mike Patton
(latim versatilis, -e) 
adj. 2 g.
1. [Figurado]  Propenso a mudar. = INCONSTANTE, VOLÁTIL, VOLÚVEL
2. Que tem várias qualidades ou utilidades ou que pode fazer ou aprender várias coisas.= POLIVALENTE. 
Mike Patton - 1000 vozes e 1000 talentos.
(Fonte: 
http://tenhomaisdiscosqueamigos.virgula.uol.com.br)

Se tem alguém que é sinônimo de versatilidade é Mike Patton. O cara tem uma infinidade de estilos de canto. Vai dos antigos vocais agudos que usava no über hit Epic até a vozes mais graves, sussuros, gritos, guturais e o que for mais necessário para fazer música. Não à toa ele é conhecido como "Mr. A Thousand Voices".

Mr. Bungle - Mr. Bungle.
(Fonte: http://upload.wikimedia.org)
Talvez consciente do seu próprio talento, o cara nunca parou quieto e vez basicamente todos os tipos de música possíveis. Rock, funk metal, bossa nova, pop italiano dos anos 60, jazz, grindcore, trip hop... díficil é dizer um estilo em que Patton não tenha colocado seus vocais. Tem projetos ou parcerias com gente que vai de Bebel Gilberto, Norah Jones e Bjork até Dave Lombardo (Slayer), Duene Denilson (The Jesus Lizard) e Buzz Osbourne (The Melvins), tendo uma discografia extensa e absurdamente variada. Neste artigo destaco e comento alguns de seus trabalhos extra-Faith No More que mais me prenderam a atenção e que são presenças frequentes no meu mp3 player.

Mr. Bungle - Mr Bungle (1991): Primeira banda de Patton. Um funk metal nervosíssimo com muitos toques de ska e experimentalismo. Se o Red Hot Chilli Peppers (da década de 80) se encontrasse com o Frank Zappa e resolvesse colocar suas distorções no máximo, talvez saísse algo parecido. Este é o único outro álbum da carreira do vocalista em que ele usa a voz mais aguda que conhecemos do Real Thing (Faith No More). Ouça: Quote Unquote e My Ass Is On Fire.

Fantômas - Director's Cut.
(Fonte: 
http://upload.wikimedia.org)
Fantômas - Director's Cut (2001). Fantômas foi a primeira banda não-FNM do Patton que tomei contato. Na época eu alugava CDs numa lojinha e me deparei com o primeiro álbum dos caras na estante. Imagina minha empolgação ao ver na capa o nome do músico ao lado do ultra-baterista Dave Lombardo! Imaginei que aquilo seria uma mistura de FNM com Slayer. Aluguei, fui correndo pra casa e... não entendi nada. Aliás, até hoje acho os trabalhos do grupo difíceis de serem digeridos. É com (quase) toda a certeza a banda mais noise do cara. A exceção é este Director's Cut, que traz versões pesadíssimas de trilhas sonoras de filmes, em sua maioria antigas produções de suspense e terror. Esse sim, soa como um híbrido entre a violência do Slayer e a esquizofrenia do FNM da época Angel Dust. Todas as faixas são absolutamente imperdíveis! Ouça:  Der Golen e Rosemary's Baby.

Lovage - Music To Make Love To Your Old Lady By
(Fonte: 
http://upload.wikimedia.org)
Lovage - Music To Make Love To Your Old Lady By (2001): Perfeito pra tocar em todos os cabarés da sua cidade. Neste álbum Patton se uniu à vocalista Jennifer Charles e ao DJ Kid Koala, sob produção de Dan the Automator, para produzir música altamente sexual. O negócio aqui é alguma coisa entre o trip hop e o lounge, com algum toque setentista, e letras safadas e sarcásticas. A primeira associação que vem à cabeça é com o Portishead, se a banda se enchesse de Caracu e ovo de codorna. É difícil ouvir este álbum sem se imaginar em um daqueles bares de strip que sempre aparecem em filmes norte-americanos. Ouça: Sex (I'm A) e Book Of The Month

Tomahawk - Mit Gas.
(Fonte: 
http://upload.wikimedia.org)
Tomahawk - Tomahawk (2001) e Mit Gas (2003): Neste grupo o vocalista está ao lado de Duane Denison, guitarrista do The Jesus Lizard, e do poderoso baterista John Stainer (Helmet, Battles). O baixista varia: nestes álbuns foi Kevin Rutmanis, que já tocou com o Melvins. Imagino que deva ser a banda que a maioria dos fãs do FNM deve preferir, já que é bem menos experimental e bem mais parecido com sua banda mais famosa do que os outros projetos do vocalista. Pra mim o Tomahawk, em seus dois primeiros trabalhos, soa mais ou menos como o FNM em seus tempos de King For A Day. Ouço Rape This Day e escuto ecos de Digging The Grave, por exemplo. Não à toa é a segunda banda dele que mais ouço (não preciso dizer a primeira, certo?). O que mais diferencia as duas bandas são interessantes inserções eletrônicas e batidas quebradas de bateria que parecem ter saído de um álbum do Prodigy (porém tocadas por bateria "de verdade"). Ouça: Laredo, Capt. Midnight e Mayday.

Peeping Tom - Peeping Tom.
(Fonte: 
http://upload.wikimedia.org)
Peeping Tom - Peeping Tom (2006): Na época do lançamento, eu li que Mike andava achando a música radiofônica uma porcaria e resolveu fazer seu próprio álbum pop. Com colaboradores como Norah Jones, o grupo Massive Attack e Bebel Gilberto, o vocalista gravou um CD de pop, rock, rap e trip hop. Você, fã de rock e metal, teve calafrios agora, né? Vou te dizer, o CD é incrível! Bem tocado, bem produzido, criativo... animal! O álbum está anos-luz à frente do que se ouve pelas rádios por aí. Os arranjos são de extremo bom gosto e todas as músicas têm bastante peso, provenientes de riffs de guitarra ou das intensas linhas de baixo e batidas de bateria. Esse trabalho prova que o pop não precisa ser bunda mole. Ouça: Sucker e Kill The DJ.

Tomahawk - Anonymous.
(Fonte: 
http://upload.wikimedia.org)
Tomahawk - Anonymous (2007): Não aguentei e coloquei outro àlbum do Tomahawk na lista! Este CD é completamente diferente dos dois anteriores. Nele a banda resolve finalmente assumir o lado índio que o nome da banda indica e faz um trabalho conceitual baseado em músicas nativo-americanas. O resultado não poderia ser melhor. Longe do metal alternativo das gravações anteriores (apesar de uma ou outra faixa ainda ser mais pesada e guitarrística), a banda cria aqui canções belíssimas, misturando cantigas rituais com música mais moderna. Ouça: Ghost Dance e Crow Dance.

O cara produz demais, nem ele próprio deve se lembrar de todos os projetos em que esteve envolvido. Seus companheiros de bandas e estilos musicais sempre mudam, a única constante em seus trabalhos é a qualidade. Onipresente e onipotente Mike Patton pode ser considerado de fato um deus da música, espalhando seu brilhantismo onde quer que se meta. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A longa viagem de Samsara


Marlon Villas

Capa do álbum The Long Distance Trip (2010).
(Fonte: http://stonerobixxx.blogspot.com.br/)
Tem algo de pegajoso, algo que mexe com as entranhas de um modo quase subliminar (se é que posso usar esse termo aqui), no som desses caras que, pra mim, se transforma em grato contentamento toda vez que escuto o álbum, ainda que já o tenha escutado várias vezes. Pode ser também que um tempero bom para acompanhar as músicas seja a cerveja gelada, como neste justo momento, junto de um cigarro bem tragado com sua fumaça atrapalhando minha vista enquanto escrevo esse texto.

Ou o motivo principal, quem sabe, seja apenas um lado melancólico-contemplativo-meditativo que pratico frequentemente com meu cérebro, que nessas horas dá a impressão de absorver a plenitude dos pequenos detalhes das coisas que me rodeiam. De vez em quando.

Descobri o Samsara Blues Experiment, que iniciou sua marcha em 2007, mexericando no site Whiplash (http://whiplash.net/), uma boa alternativa no Brasil para quem busca algumas ideias sobre o novo e o velho na música do gigantesco mundo do rock. E a surpresa foi total quando escutei o trabalho desse grupo alemão de quatro membros, muito provavelmente porque me sentia cansado há algum tempo da mesmice que andava escutando vasta rede mundial afora (vide Eram os deuses headbangers?).

Em princípio apenas me pareceu ser uma banda como tantas outras, que não deveria ter nada especial a acrescentar à minha experiência de apreciador de sons, confesso. Foi depois da primeira ou da segunda música que percebi que o que eu começava a receber em meus ouvidos saturados era algo a ser considerado com mais cuidado. E existia algum fundo de verdade nisso.

O quarteto alemão - Samsara Blues Experiment.
(Fonte: http://blues.gr/)
Se você gosta de uma experimentação sonora com base naquelas preciosidades que, para muitos que aprenderam o que é rock há pouco tempo, deve soar como uma velharia mofada e ultrapassada que o papai ou o titio escutavam quando tinham espinhas no rosto, o álbum  Long Distance Trip (2010) do Samsara pode causar nostalgia de um jeito diferente, de um jeito que parece-que-já-ouvi-isso-mas-é-como-se-tudo-recomeçasse-agora. Tudo bem, reconheço que essas palavras têm cara de exagero, mas é como me senti na primeira vez, e ainda me sinto.

O álbum possui apenas 06 faixas, porém totaliza um tempo de mais de uma hora de densa psicodelia (lembre de Pink Floyd), com certa agressividade contida nas passagens da guitarra (lembre de Blue Cheer e, talvez, MC5 e Dust, também), com toda uma criatividade de um dos melhores do gênero na história (lembre de um tal de Jimi, criador de pérolas como Little Wing e Voodoo Child). Agora misture tudo no liquidificador.

Em Long Distance Trip posso citar coisas que mereceram especialmente minha consideração (e vão continuar merecendo por um bom tempo, creio), como as compridas e bem lapidadas Singata Mystic Queen e Center Of The Sun – essa eu acho um belo trabalho alucinógeno através dos canais auditivos, vai por mim. Mas o conjunto todo é um presente bem-vindo para alguém disposto a encarar uma Viagem de Longa Distância musical e sem pré-julgamentos.
Álbum: Long Distance Trip
Artista: Samsara Blues Experiment
Lançamento: 2010
Gravadora/Distribuidora: World In Sounds Records