quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cine 2012


Em 2012 adquiri um novo hábito, assistir filmes antigos clássicos. Não que eu não curtisse esse tipo de filme antes, mas minha curiosidade por eles se tornou mais aguçada neste ano. Assim conferi um monte de velharia, principalmente produções dos anos 50, 60 e 70. Também procurei terminar de conhecer filmografias de grandes diretores, como David Cronenberg e Stanley Kubrick. Tirei o atraso de muita coisa. Tanto que nem sei dizer muito sobre produções lançadas (no Brasil) neste ano. Mas destaco aqui três filmes que vi no cinema e curti muito neste ano que recém terminou.

Looper - Taí a grande surpresa do ano. Até o filme entrar em cartaz eu não tinha ouvido falar nada sobre ele. E nem ia assisti-lo, mas as excelentes críticas acabaram me levando para o cinema. E que ótimo filme! Ficção científica, ação e aventura de primeira. Acho que é o melhor filme neste gênero desde o primeiro Matrix. A história é uma mistura de Exterminador do Futuro com De Volta para o Futuro, com alguma pitada de X-Men ou Scanners, se preferir.
Claro, como toda a história envolvendo viagens no tempo o roteiro mostra algumas incongruências lógicas. Na verdade este filme tem uma das cronologias mais bagunçadas em filmes do gênero. Entretanto, descontando-se a "ciência" da coisa, o roteiro é ótimo. O anti-herói Joe, vivido por Joseph Gordon-Levitt e por Bruce Willis é pouco comum nos filmes atuais. Drogado, egoísta e sem nenhuma moral, Joe é um assassino por natureza e tem atitudes totalmente reprováveis durante a história. Ainda assim o filme é tão intrigante que é impossível não torcer por ele. 
Ainda falando do personagem, a maquiagem que tenta transformar Joseph Gordon-Levitt em uma versão jovem de Bruce Willis é ótima, mas é a interpretação do ator que faz com que você acredite nisso. Joseph trás para o personagem olhares e trejeitos típicos do ator veterano e mesmo sabendo como era o astro de Duro de Matar a 30 anos atrás não fica tão difícil relacionar os dois atores ao mesmo personagem.
O terceiro ato do filme trás uma adição inesperada e muito eficiente à trama, fazendo com que o enredo ganhe um colorido a mais, sem ser apenas uma história de caçada.
Um filme que não é adaptação de nada, continuação e nem remake, com um personagem principal mau caráter e uma história original e corajosa. Espero que seja um caminho que Hollywood volte a trilhar em 2013.

Os Homens que não amavam as mulheres - sobre esse eu já havia falado AQUI. Adorei esse filme! Re-assisti no Cine Torrent esses dias e continuo mantendo minhas impressões sobre ele. Filmaço!

Ted - Quando ouvi as primeiras notícias sobre esse filme já me interessei. Tudo por causa de um nome, Seth MacFarlane, o criador dos desenhos Family Guy, The Cleveland Show e American Dad. Considero esse cara um gênio da comédia. Enquanto no Brasil temos imbecis como Rafinha Bastos e Danilo Gentilli que acham que humor politicamente incorreto é simplesmente agredir alguém, MacFarlane constrói piadas e situações incorretas de forma genial, mostrando através do absurdo que os zoados são as próprias maiorias que estão fazendo a piada. 
O filme é uma coleção de situações incrivelmente hilárias, misturando vários tipos de humor, do físico ao non-sense, costurados por uma boa história. Fazia uns bons anos que eu não gostava tanto de uma comédia como esta. 


Sim, também assisti e curti O Cavaleiro das Trevas Ressurge, O Hobbit e Os Vingadores. Bons filmes, mas em todos achei algumas ressalvas, defeitinhos, que me fizeram não coloca-los no Hall dos grandes filmes da minha vida. Foram ótimos passatempos, gostei muito de te-los visto, mas em todos houveram detalhes que me incomodaram bastante. O plano sem sentido do Bane no filme do Batman, a direção confusa e os exageros de Peter Jackson no Hobbit e o roteiro mal amarrado (e até meio bobo) d'Os Vingadores, são exemplos dos problemas destes filmes.

Pra fechar, não posso deixar de falar da maior decepção de todas, Prometheus. Era o filme mais aguardado do ano para mim. Ridley Scott fazendo ficção científica já tinha gerado dois dos maiores clássicos da história do gênero, Blade Runner e Alien. E era justamente ao universo do Alien para onde o diretor estava voltando. Teoricamente ele ia contar a história do Space Jocker que a tripulação da Nostromo havia encontrado no filme de 1979. Ansiei pelo filme desde que foi dada a primeira notícia sobre ele. Quando soltaram o primeiro TEASER minha mente praticamente explodiu! Devo ter assistido a ele pelo menos umas 20 vezes. E pra quê? Filme sem pé nem cabeça, com os personagens mais rasos possíveis, situações absurdas e roteiro furreca e confuso. Acho que até as porcarias dos Alien Vs Predador são melhores do que esse troço. Triste demais.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Duas vezes Asimov


Isaac Asimov é muito provavelmente o nome mais famoso da literatura de Ficção Científica. Não é a toa. Este russo naturalizado estadunidense escreveu e editou mais de 500 livros dentre ficção e não ficção, tendo obras lançadas em praticamente todos os campos do conhecimento humano. Entretanto, o "bom doutor" é mais conhecido mesmo por suas histórias sobre robôs (especialmente o clássico Eu, Robô) e a premiada trilogia Fundação. Gosto muito destes livros, mas meus preferidos até agora, dentre tudo que li dele, são Os Próprios Deuses e O Fim da Eternidade.
Isaac Asimov: ótimas ideias e costeletas
Ficção científica é um termo para descrever qualquer livro ou filme que inclua em seu enredo o fator ciência como componente essencial. Há assim certa discussão sobre determinadas obras. Por exemplo, toda a saga Star Wars se passa em mundos estranhos, há a presença de elementos futuristas como naves e robôs (ou melhor, Droids), mas a história está mais para uma aventura ou fantasia do que para a ficção científica em si. Pode-se discutir sobre a essência de muitas obras, mas se há um livro que é ficção científica pura, este é Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov.
Os Próprios Deuses é uma história dividida em três grandes atos. No primeiro acompanhamos a descoberta do elemento Plutônio 186, um elemento impossível de existir em nosso universo, e suas aplicações e implicações na sociedade. Ok, você já viu inúmeros personagens de sci-fi pegando espantados algum objeto e dizendo  "este material não existe na Terra!". Asimov levou este conceito anos-luz a frente de seus colegas. É detalhada toda a descoberta do elemento. Se você tiver algum conhecimento de química e física, em especial sobre química analítica, leis da termodinâmica e interações nucleares, vai se extasiar com as longas explicações científicas e debates entre os personagens do livro.
Através do estranho isótopo é descoberta a existência de um universo paralelo ao nosso, onde as leis da física são ligeiramente diferentes. Lá vive outra civilização que tem muito interesse na troca de metais entre os universos como forma de obter energia. O cientista Dr. Frederick Hallam é aclamado como o descobridor do Plutônio 186 e vira uma grande celebridade mundial devido a construção da "bomba de eletróns", responsável pela transmissão de energia entre os mundos paralelos. Entretanto há quem desconfie que ele não seja este grande gênio e que a energia não é tão segura quanto se pensa.
O segundo ato traz a mais genial descrição de alienígenas que já li ou vi. Passado inteiramente no Para-Universo, esta parte da história descreve a vida de seres completamente diferentes de tudo que você conhece. Nada de humanóides ou seres baseados em insetos ou répteis. Os para-homens são seres de uma dimensão onde as leis da física são ligeiramente distintas das nossas, assim seus corpos e sua organização social são também distintas. 
Os para-homens são divididos em dois grupos, os Suaves, com suas tríades formadas por três "sexos", e os misteriosos e mais avançados Durões. No livro acompanhamos a tríade formada pelo Paternal Tritt, pelo Racional Odeen e pela Emocional Dua. Em cada tríade cada um tem suas características bem definidas, entretanto nesta, Dua é considerada uma aberração, uma "emo-esquerdista", ou seja, um ser do grupo Emocional, porém com características de Racional. É Dua quem acaba descobrindo os perigos da "bomba de posítrons" deste universo e tenta acabar com a mesma.
O terceiro ato volta pra o nosso Universo, mais especificamente para a Lua, onde um antigo rival de Hallam, o também cientista Dr. Benjamin Allan Denison tenta restabelecer sua carreira arruinada pelo famoso "pai da bomba de elétrons" enquanto tenta achar uma solução para os perigos da mesma.
O livro, tido pelo próprio autor como seu preferido, é uma das obras de ficção científica mais criativas e bem escritas que já tive em mãos. Indicado para quem se interessa por ciência real.
O Fim da Eternidade é uma história sobre viagens no tempo. O personagem principal, Andrew Harlan, é um Técnico da Eternidade, uma organização que existe "fora do tempo", empenhada em fazer ajustes de realidade em determinados momentos para que a humanidade evolua sem maiores conflitos e sofrimentos. Porém os Técnicos não andam livremente pelos séculos. Idas ao Primitivo, como são chamadas as Eras antes da criação da viagem do tempo, são proibidas. E de alguma forma inexplicável eles não conseguem adentrar entre os séculos LXX e CL. Viagens após o século CL encontram um mundo sem nenhuma civilização.
A vida de Harlan se complica quando se apaixona por Noÿs Lambent, uma mulher que será apagada da existência por uma intervenção em seu século natal. Ao mesmo tempo o Técnico se descobre responsável por um paradoxo temporal que dará a origem à própria Eternidade. 
O livro traz uma das melhores e mais originais histórias sobre viagem que já li, levando mais em conta a viagem em si do que os próprios tempos para quais os viajantes vão. Ao contrário d'Os Próprios Deuses, O Fim da Eternidade é uma obra que acredito que poderia funcionar de forma excepcional nas telas, se conduzida por um bom diretor. Aventura, romance e conspirações numa sólida história de sci-fi com um final surpreendente. Recomendo fortemente não só para amantes do estilo, mas para todos os leitores em busca de uma grande história.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Os caminhos para o fim do mundo

Marlon Villas

Sempre gostei muito de histórias pós-apocalípticas (o termo não é o mais correto, mas é o que vou usar aqui), aquela coisa de que tudo o que conhecemos como civilização foi destruído, um clima de fim dos tempos. Desde pequeno achei curiosa a ideia de me imaginar sozinho no mundo, percorrendo estradas e cidades e não encontrando pessoa alguma para conversar, saber as novidades, jogar um dominó (a gente se presta a qualquer coisa em meio ao desespero), dividir uma pizza, sei lá. Existe um caráter até filosófico nesse assunto, como em toda boa estória futurista e possível de acontecer, que deixa meu cérebro intrigado.


Aqui vão algumas considerações sobre alguns filmes e livros que li sobre o tema:

BLECAUTE - provavelmente este tenha sido o primeiro livro que me levou a indagar sobre o fim do mundo e o da raça humana. E foi escrito por um brasileiro, o Marcelo Rubens Paiva, mesmo autor de Feliz Ano Velho, uma autobiografia sobre o acidente que o deixou numa cadeira de rodas, até hoje, quando ainda um jovem estudante da Unicamp, misturando memórias e indagações sobre seu pai, que sumiu durante a ditadura militar (aliás, não sei por que isso virou um livro tão famoso - eu li e achei uma grande bobagem literária, coisa de moleque que só queria desabafar suas angústias, mesmo). Marcelo disse que escreveu Blecaute ouvindo muita coisa das antigas (Tom Waits, King Crimson e Duke Ellington), além de ter sido influenciado pela antiga série Twilight Zone (Além da Imaginação, no Brasil). Três amigos, dois rapazes e uma garota, depois de ficarem presos por dias dentro de uma caverna devido a um desabamento de pedras durante uma expedição de espeleologia, percebem que são as únicas pessoas vivas na cidade de São Paulo. Todas as outras viraram algum tipo de estátuas, e eles não sabem o motivo disso ter ocorrido. Entre a solidão numa metrópole e a possibilidade de usufruir de absolutamente tudo a seu bel-prazer, o trio vai tentando levar uma vida normal. Existem cenas fantásticas no livro, como o momento em que explodem a torre de transmissão da Rede Globo na Avenida Paulista, e como pintam a mesma avenida de vermelho, de uma ponta a outra, simplesmente porque o tédio tomava conta deles. Não à toa, já li este romance duas vezes, de tão interessante que achei. E fica aqui meu apelo: quando algum cineasta vai ter a coragem de transformar Blecaute em filme, hein? Hein?

A ESTRADA - Cormac McCarthy é um nome que eu não conhecia até então. Mesmo tendo assistido ao filme Onde Os Fracos Não Têm Vez, baseado em um de seus romances, eu não tinha a menor ideia de quem era o sujeito. Até que ouvi falar de um filme chamado A Estrada. Como era com o Viggo Mortensen no papel principal, não fiquei muito entusiasmado para conferir o trabalho, mas por algum motivo totalmente estranho (sério, não sei bem a razão disso ter acontecido), acabei por comprar o livro homônimo. Mesmo com o Mortensen na capa, uma foto tirada de um pôster de divulgação da película. O enredo do romance é basicamente o seguinte: um pai segue com seu filho pequeno em direção à costa oeste dos Estados Unidos, em meio a um mundo destruído por algum tipo de guerra mundial, pois acredita que lá terão mais chances de sobreviver ao inverno que se aproxima. Ambos estão desnutridos, vestem farrapos que encontram pelo caminho e possuem uma arma com algumas poucas balas para se protegerem de outros humanos que se tornaram canibais pela escassez de alimentos. Existem algumas cenas fortes e emocionantes, mas não consegui gostar do livro como um todo. Principalmente pelo estilo de escrita de McCarthy, que acredito não ter combinado tão bem com a própria estória. Alguns meses depois resolvi assistir ao filme, e pensei que foi uma das raríssimas vezes em que uma adaptação cinematográfica ficou melhor que o original em texto. Mesmo assim, não é um grande trabalho, na minha opinião. Ou talvez seja apenas a minha mente que já tenha ficado desconfiada com o romance desde o início, só isso.

EU SOU A LENDA - taí um filme que gostei desde as primeiras cenas. Will Smith é um ator que admiro por ter feito vários trabalhos dignos de nota, embora já tenha escorregado um pouco em sua carreira com atuações e projetos mequetrefes. Entretanto, em Eu Sou A Lenda ele está muito bem na pele do virologista militar Robert Neville, que procura uma cura para um vírus que sofreu mutação genética, e que havia sido utilizado alguns anos antes como veículo para a cura do câncer. A mutação do vírus causou uma epidemia na cidade de Nova York, e que depois se espalhou mundo afora, transformando as pessoas infectadas em criaturas violentas, sem resquícios visíveis de inteligência, com o metabolismo muito acelerado, e que só saem às ruas à noite, pois são extremamente sensíveis à luz do dia (nisso eles se parecem com vampiros, mas a comparação começa e termina por aí). Neville descobriu ser imune ao vírus em qualquer forma de transmissão, ao contrário de sua cadela Sam, sua única companhia, que só é imune pela infecção por ar. A sequência de cenas em que a cadela é infectada e Neville precisa matá-la, e depois ele aparece em uma locadora de vídeos e procura conversar com um manequim são as partes mais tristes de todo o filme. Assim como a cena em que, depois de ser salvo por Anna, personagem da brasileira Alice Braga, Neville conta uma história vivida por Bob Marley, seu cantor preferido, também é tocante. O roteiro é baseado no livro I Am Legend, de Richard Matheson, da década de 1950 (que ainda não li), e há outras adaptações anteriores para o cinema, uma dos meados dos anos 60, outra do início dos 70 (e que ainda não assisti a nenhuma delas). Só sei que esta versão com Will Smith é uma das melhores do gênero.

O LIVRO DE ELI - típico filme em que você pode pensar: "É bom, mas podia ter sido bem melhor". Denzel Washington está excelente como Eli, o andarilho de um planeta destroçado por uma guerra nuclear que tenta, há cerca de 30 anos, chegar à costa oeste norte-americana. Ele acaba se metendo em confusão com arruaceiros de uma pequena cidade comandada por Carnegie, interpretado pelo grande Gary Oldman, que deseja encontrar um certo livro que lhe daria poder para comandar todas as pessoas. Eli carrega esse livro, que é a Bíblia Sagrada, mas não quer se desfazer do mesmo, pois acredita que precisa levá-lo ao oeste em segurança. Dá-se início a uma caçada desesperada por Eli e pelo livro por terras que viraram verdadeiros desertos, e uma moça (a belíssima atriz Mila Kunis) acaba se envolvendo com o andarilho em sua fuga dos capangas de Carnegie. As cenas de luta são incríveis, os efeitos visuais são ótimos. Mas você percebeu alguma semelhança deste enredo com o do livro A Estrada? O fato de o protagonista querer alcançar o oeste dos EUA? Pois vou dar outra dica: em uma rápida sequência de cenas, em que Eli e a moça encontram um casal de velhos morando sozinhos numa casa no meio do nada, há uma insinuação de que o casal seja canibal, como no livro de McCarthy. Ou seja, na minha opinião, houve alguma espécie de cópia de ideias, e acredito que isso tenha sido feito pelo roteirista Gary Whitta, já que o romance de McCarthy havia sido lançado cerca de um ano antes dele assinar contrato com os estúdios que produziram O Livro De Eli. Basicamente por essas "coincidências" tão coincidentes é que digo que o filme podia ter sido melhor, se houvesse um pouco mais de criatividade no enredo.

E então? Você aí, tem outras dicas pós-apocalípticas pra discutirmos/compararmos aqui? Puxe um banco e sinta-se à vontade.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Trilogia da Escuridão

Marlon Villas


Olha, vou dizer uma coisa que já deve ser batida: essa onda de vampiros já surgiu detonando com a paciência de muita gente.

Não me entenda mal. Quero dizer que os vampiros podem ser criaturas do imaginário humano bastante interessantes, mas tem escritores por aí (né, dona Stephenie?) que avacalham com os sugadores de sangue de tal maneira, e tem tanta moçada que ainda diz que vampiros purpurinados e outros afins são legais, que fico me perguntando se o fim dos tempos não teria sido uma boa ideia, afinal, neste ano que acabou de findar.

Aliás, desejo um feliz ano novo pra todos. Menos pra Stephenie.

Só que tem escritores que ainda procuram salvar a boa reputação dos vampiros, como monstros sem alma e  cheios de crueldade e insensibilidade. Foi por isso que resolvi ler até o fim a Trilogia da Escuridão. Confesso que, no início, fiquei com o pé atrás, mas depois relaxei, vendo que a dupla de autores da Trilogia levou seu trabalho bem mais a sério do que vejo em todo canto ultimamente.

Estes livros - Noturno, A Queda e Noite Eterna - foram criados a quatro mãos por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan. Del Toro é bem conhecido por ser diretor de alguns bons filmes de ação, sendo talvez mais famosos os dois que contam aventuras loucas do filho do demônio, Hell Boy, além de entrar como participante no roteiro de O Hobbit, recentemente estreado nas grandes telas e dirigido por Peter Jackson, o mesmo que dirigiu a saga de O Senhor Dos Aneis. Hogan é um escritor premiado, com alguns de seus romances também adaptados para o cinema, mas ainda sem a mesma fama que a de Del Toro.
(Fonte: diversas.)

Noturno inicia a saga vampiresca com a cena de um avião vindo da Europa e que pousa em Nova York, mas não há uma única comunicação via rádio, assim como também ninguém desce da aeronave. Logo percebe-se que algo de muito estranho aconteceu com todos os tripulantes, e pensando se tratar de um possível ataque terrorista ou de algum tipo de infecção por um vírus poderoso, polícia, forças armadas e um grupo do Controle de Doenças da cidade é chamado para acompanhar a situação. Os corpos encontrados são enviados para autópsia, mas nem todos estão mortos. Logo uma epidemia começa a se espalhar rapidamente, pois aqueles considerados defuntos são vistos caminhando, com algum tipo de mutação física e com uma vontade assassina e sem limites, o que dá mais vazão à suspeita de infecção por algum vírus desconhecido. Basicamente todo o enredo do primeiro volume é sobre os especialistas procurando descobrir a causa da epidemia que vai tomando conta de toda Nova York.

Em A Queda, algumas pessoas já estão totalmente cientes de que uma invasão de vampiros tomou conta da cidade e começou a contaminar todo o resto do planeta a uma grande velocidade. Um velho estudioso e matador de vampiros ajuda um grupo de resistência formado por uma epdiemiologista e sua colega e namorada, um exterminador de ratos de origem russa e um ex-líder de gangue mexicano. Vem a necessidade deles se apoderarem de um livro perdido que conta a história do surgimento da praga vampiresca, onde esperam buscar respostas para eliminar o Mestre, como é chamado o senhor dos sugadores de sangue, e com ele, toda a raça de monstros que são controlados por ele por alguma forma de poder psíquico.

No último volume, Noite Eterna, a humanidade já virou escrava para trabalhar a serviço dos vampiros, além de servir de alimento e de produzir novos seres humanos para manutenção do gado humano, como são chamados todos os que se curvaram ao Mestre. O livro perdido, Occido Lumen, é achado e o esforço do grupo de resistência para decifrá-lo e descobrir o ponto fraco do senhor dos vampiros, além de se manterem vivos toma conta das páginas. E acho que já falei demais sobre toda a história.

Agora o interessante sobre a construção dos vampiros pelos autores: eles usam de argumentos científicos para explicar a praga vampiresca, mostrando que o vampirismo é literalmente uma doença transmitida por vermes que contaminam o corpo do hospedeiro. A transmissão é feita por um ferrão desenvolvido na garganta, e não por dentes pontiagudos. Devido ao ferrão, um vampiro não possui o dom da fala, mas se comunica por telepatia. Entretanto, Del Toro e Hogan mantiveram algumas características clássicas, desde a primeira descrição de uma criatura sugadora de sangue no livro Drácula, de Bram Stoker, como o fato de que tal criatura só pode atravessar uma massa de água com a ajuda de um humano, ou que não suporta o contato com a luz do sol. Além disso tudo, misturaram aspectos bíblicos e históricos aos científicos já citados. Acredito que a trilogia se torna interessante por tratar os vampiros como verdadeiros predadores brutais, porém com certa verossimilhança ao conhecimento humano, e não apenas como uma criatura mágica, sem origem definida e fruto de superstições.

Antes de surgir o primeiro filme, caso você tenha ficado curioso, é bom conferir os livros. Porque, com toda a certeza, já está havendo algum movimento em Hollywood para transpor a trilogia para o cinema. Aliás, você já pode ter um gostinho do que fizeram como book-trailer por aqui.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

1991: a Revolução (I)

Marlon Villas

Sabe quando você de repente lembra de algo que há muito tempo não apreciava? Foi assim comigo. Passando um dia tomando uma cerveja de leve na casa de uma de minhas irmãs, conversando sobre a vida, recordei de coisas de mais de quinze anos atrás, e eis que bateu a vontade de ouvir mais uma vez um disco que marcou muito meu início no mundo do rock pesado.

Recordo também que, aos 14 anos, comprei o tal CD, um dos primeiros da minha lista do gênero, e que várias primaveras mais tarde, acabei o emprestando a um sujeito na faculdade que nunca teve a decência de me devolver de volta. Um amiguinho do Danilo Altman, que por sinal aqui também escreve. Cadê o Sérgio, Danilão?

E a capa, como o álbum, é magnífica.
(Fonte: http://sequelacoletiva.wordpress.com)
Tive de baixar Arise, do Sepultura, lançado em 1991, na internet para voltar às minhas sensações de estupefação e assombro com o recém-conhecido thrash metal brasileiro naquela minha época. E me peguei sozinho no quarto dos meus sobrinhos, enquanto eles jogavam video game na sala, ouvindo no fone de ouvido do celular, deitado na cama, toda aquela porradaria muito bem concertada, gritando em silêncio (?) junto com Max Cavalera as letras do álbum.

Você, que é nostálgico, sabe bem do que estou falando.

Foi com esse trabalho que a banda de Belo Horizonte conseguiu finalmente reconhecimento dos headbangers do próprio país, pois até então os quatro músicos eram mais bem sucedidos em terras estrangeiras, principalmente nos Estados Unidos. Com a participação do Sepultura no Hollywood Rock, de 1992, no Rio de Janeiro, a consagração foi total.

A faixa-título abre com tal peso, cadência e clareza de sonoridade, que são poucas as músicas do estilo thrash que me fazem sentir tão bem com o fato de curtir o gênero quanto essa. A voz gultural do vocalista ajuda a arrepiar os pelos no refrão: "Under a pale gray sky we shall arise!". Em seguida, entra Dead Embrionic Cells, com uma guitarra um pouco mais ritmada, mas a construção bem feita da melodia e dos solos, além da bateria profunda dando o ar sinistro do som, principalmente na parte em que há uma espécie de parada sintomática prenunciando outro corpo musical, é fantástica (é a famosa parada em que hoje, nos shows, com o atual vocalista Derrick Green, e antes, com Max, há o inevitável "Um, dois, três, quatro!" berrado no microfone). Logo vem Desperate Cry, que para mim, é uma pequena obra-prima de mais de 6 minutos do metal brasileiro, com um riff inicialmente simples, e que depois descamba para uma espécie de sinfonia apocalíptica. Não vou me estender detalhando todas as faixas de Arise, porque, acredito, seria muito maçante para você, mas quero que também preste atenção à décima e última música, um cover da mítica banda Motörhead, Orgasmatron; esta versão ficou conhecida em todos os meios de metal, sem exceção (isso, é claro, caso você não saiba do que estou falando).

Dito isso, logo resolvi voltar mais uma vez (de dezenas e dezenas de vezes) a outro álbum lançado em 1991, Metallica, ou o grande Álbum Preto, do Metallica. Foi então que resolvi escrever esta homenagem às duas bandas, estas que, cada uma a seu modo, marcaram história no thrash metal mundial.

Para bom entendedor, Metallica foi o grupo que oficialmente inaugurou este gênero mais pesado (violento, destilando fúria?) do metal, no início dos anos 80. Hoje os fãs sabem que a banda investiu em outros estilos de som misturados ao original, ou mesmo fugindo do que os mais conservadores chamam de "tradição". Porém ninguém nega que este quarteto da Bay Area da Califórnia (EUA) contribuiu demais para o rock como um todo.

A capa simples e sem muitas firulas.
(Fonte: http://redutodorock.com.br)
Metallica é o álbum mais popular (entenda-se por popular aquilo de que quase todo mundo, mesmo não sendo roqueiro, já ouviu algo a respeito, pelo menos uma ou duas músicas) de toda a carreira destes músicos. Enter Sandman abre o trabalho de estúdio, com uma levada bem cadenciada, guitarras mais limpas do que os discos anteriores e melodia idem. Aliás, todas as doze faixas do trabalho soam desta forma, com uma equalização de todos os instrumentos tocados que soa agradável aos ouvidos, sem perder o peso que marcou a fama de Hetfiled, Ulrich & Cia. Sad But True é uma espécia de balada às avessas, pois é carregada de um clima estranho para um otimista (aliás, penso que a letra é sobre os abusos de álcool de Hetfield - se você prestar atenção, percebe que o alcoolismo se encaixa muito bem nas metáforas utilizadas). Nothing Else Matters é a única música romântica feita pelo grupo, e que virou o hit em toda e qualquer rádio no mundo, mesmo aquelas que não costumam tocar nada de rock. Of Wolf And Man remete a algo visceral de toda pessoa, dos seus instintos básicos. My Friend of Misery é uma pérola, entre tantas outras contidas no álbum.

Duas bandas de origens distintas, mas com algo em comum: o amor pelo som pesado e consagrado por dois discos lançados no mesmo ano, um ano em que muitos consideravam o início do fim do metal, já que muitas bandas começavam a surgir copiando umas às outras indiscriminadamente. Essa afirmação, que depois se mostrou totalmente errada e feita às pressas por pessoas que estavam desgostosas com os rumos da música na época, teve como motivo uma outra coisa que surgiu em outro canto dos EUA: o movimento grunge, com algumas bandas que, duas décadas depois, já ganharam seus devidos espaços no Olimpo do rock. Depois farei uma comparação entre outros discos destas "novas" bandas, que também tiveram destaque neste mesmo ano de 1991.

Parece que 1991 foi algo abençoado para os roqueiros de todos os gêneros. De lá para cá, ainda não percebi nada tão devastador - no bom sentido - quanto o que aconteceu naquele ano tão longínquo. Eu e muitos outros ainda aguardamos por outra revolução como aquela.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Meus shows em 2012


Sobre isso não dá pra fazer uma lista de melhores, já que fui em apenas quatro, mas não custa comentar um pouquinho sobre eles, certo?

Morrissey (7 de março, Chevrolet Hall, Belo Horizonte)

Não conheço tanto da carreira solo dele, sou mais fã do The Smiths mesmo, mas essa era uma apresentação imperdível. O inglês é um símbolo do post punk oitentista, ultra carismático e um dos melhores letristas da história do rock. O público, mais eclético impossível, vibrou o tempo inteiro, dando coro às 18 canções apresentadas pelo vocalista, em especial nas do The Smiths, é claro.
A banda injetou bastante peso às músicas, em especial na Meat is Murder, que virou praticamente um heavy metal.
Belíssimo show.

Meschiya Lake and The Little Big Horns (5 de agosto, Festival I Love Jazz - Praça do Papa, Belo Horizonte)

É muito provável que você nunca tenha ouvido falar da Meschiya Lake, então aproveito para apresenta-la a você agora. Meschiya Lake é uma cantora de jazz de New Orleans que começou a cantar aos 9 anos, inclusive ganhando prêmios em competições onde concorria com adultos. Com mais alguma idade passou a integrar bandas e a se apresentar nas ruas de sua cidade com intuito de juntar algum dinheiro para gravar seu primeiro cd. Em 2009 fundou a banda The Little Big Horns com quem gravou o excelente álbum de estreia, The Lucky Devil, em 2010.
A cantora faz um estilo pin up from hell, com suas tatuagens e atitude rock'n'roll em cima do palco, mas seu maravilhoso vocal é utilizado no mais puro jazz tradicional de New Orleans. Apesar de ser uma desconhecida para provavelmente uns 99% das 10 mil pessoas que estiveram no festival (gratuito, diga-se), a empolgação e encantamento que ela e sua virtuosa banda provocaram em toda a plateia eram palpáveis.
Espero ansioso por seu segundo cd e, quem sabe, por mais algum show aqui no Brasil. Recomendadíssima!

Alanis Morrissete (9 de setembro, Chevrolet Hall, Belo Horizonte)

O público mineiro tem uma particularidade. Todo mundo chega ao local do show faltando pouquíssimo para ele começar, ou mesmo após o início da apresentação. Eu, como bom paulista apressado, acho isso estranho. Até dois minutos antes da luz se apagar estava parecendo que ia ser um fracasso de público, mas então brotou gente por tudo quanto é lado e o Chevrolet Hall ficou bem cheio, principalmente de casais (como era o meu caso) ou de mulheres na faixa dos 25 a 35 anos.O bom é que com essa particularidade do público sempre consigo chegar perto do palco. Neste show não foi diferente, como cheguei 30 minutos antes do início da apresentação praticamente encostei na grade. 
Alanis é a simpatia em pessoa. Se apresenta sorrindo o tempo todo, enquanto anda freneticamente de um lado para o outro do palco. Isso quando não usa seu lindo cabelão em brutais headbangings. Sim, você leu isso mesmo. Tenho uns quase 20 anos de experiência em shows de heavy metal e posso afirmar, Alanis faz bonito em matéria de agitar a cabeça. Divertido era olhar em redor e ver algumas meninas, que alguns classificariam como patricinhas, bangueando ferozmente, como se estivessem em um show do Slayer.
A canadense veio promover seu mais recente álbum, Havoc and Bright Lights, que teve suas músicas bem aceitas pelo público, mas foi nas músicas mais antigas, em especial as do Jagged Little Pill em que ela colocou o Chevrolet Hall abaixo. Ótima apresentação.

Robert Plant (20 de outubro, Expominas, Belo Horizonte)

Ah, Robert Plant! Na minha opinião, o Led Zeppelin foi a melhor banda de rock do sistema solar e a carreira solo do seu ex-vocalista é também maravilhosa. Pense em como eu estava ansioso por este show. 
O Expominas foi um lugar que, na minha avaliação, foi de 8 à 80 durante o show. Ou melhor, de 80 à 8. Ao chegar lá achei muito bacana. Estacionamento próprio com um preço não abusivo, lugar grande e espaçoso, bons bares e banheiros, palco grande, iluminação legal... E então, os problemas: som ruim, tudo saia muito abafado das caixas e, principalmente, a saida do local. Existia apenas uma escada para o estacionamento, e as (sei lá) 10 mil pessoas tinham que passar duas a duas por ela. Foram duas horas de show e depois mais duas para eu conseguir sair do Expominas, literalmente.
Bom, mas vamos falar de Robert Plant e da banda que o acompanhava, a Sensational Space Shifters. Foi realmente sensacional! Claro que Robert não tem mais a potência vocal de quando tinha seus 20 anos, mas ele ainda canta muito e vê-lo em cima de um palco, para quem gosta de rock, é uma coisa emocionante. 
A banda é excelente e consegue acompanhar todas as nuances das diversas facetas musicais de Plant. Do blues de raiz às modernices eletrônicas, passando pelo folk e pelo rock. A inclusão do africano Juldeh Camara tocando exóticos instrumentos daquele continente só acrescentou à apresentação, dando um toque de world music ao show.
Claro que o público se empolgou mais durante as 8 músicas do Led que o cantor colocou em seu setlist (em versões, na maioria das vezes, bem diferentes das originais), mas quem foi de cabeça aberta pode se deliciar com uma apresentação irrepreensível de um dos maiores músicos da história do rock'n'roll. Duas horas épicas que nunca sairão da minha mente.

Os shows que mais me chatearam não ter comparecido foram o do Paradise Lost e o do Mark Lanegan. Uma pena, ficam pra outra oportunidade.
Além disso, achei inacreditável não haver o Festival Maquinária no Brasil. O festival ocorreu por toda a América Latina, menos por aqui. Eu estava empolgadíssimo com a possibilidade de ver o Mastodon, mas também ficou pra depois.

Que 2013 traga mais ótimos shows como esses!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

TOP 10 musical de 2012


Ah, fim de ano. Festas, peru, presentes, tiozões perguntando se “é pavê ou pra cumê?”... e listas! Aqui vai a minha com os cds lançados em 2012 que mais me agradaram. 


10. Lacrimosa - Revolution
Eu não ouvia Lacrimosa há algum tempo. Já fui bastante viciado na banda e considero o vocalista/líder da banda, Tilo Wolf, um gênio, um dos poucos que conseguem realmente inserir música erudita no metal sem soar forçado ou piegas. Revolution não tem a força de um Elodia, é claro, mas é um belíssimo cd.




9. Van Halen – A Different Kind of Truth
Não sou fã de Van Halen. Quero dizer, eu curto muito algumas músicas que conheço, mas nunca tinha ido atrás de conhecer o som dos caras mais profundamente. Esse deve ser o primeiro álbum completo deles que ouço, então nem tenho condições de comparar com trabalhos mais antigos da banda, mas o fato é que fora o primeiro single Tattoo, todas as músicas desse cd me cativaram bastante. Em especial as pesadonas Chinatown (uma das melhores introduções de música que já ouvi na vida!), As is e Honeybabysweetiedoll. 


8. Down - IV - Part I: Purple EP
Pra ser sincero eu esperava mais. Pensava que uma hora dessas estaria tecendo odes de glória ao EP, mas a verdade é que, mesmo muito longe de ser ruim, ele também não empolga como faziam os dois primeiros álbuns da banda. É muito legal sim, como sempre a banda faz aquele som pesado, lento e malvado, calcado em riffs Iommicos, mas as músicas aqui apresentadas não ganharam minha afeição como fizeram anteriormente uma Temptations Wings, uma Stone the Crow ou uma Beautifully Depressed, por exemplo. 




7. Graveyard - Lights Out
Bela surpresa vinda da Suécia. Lights Out é o terceiro album da banda, mas o primeiro que escuto. Hard rock de primeira, cheio de psicodelia e peso, não devendo em nada pra gigantes setentistas do estilo. Vocal forte e ótimos riffs vindos de guitarras sujonas em músicas incrivelmente empolgantes. Rock sem frescura.




6. Joey Ramone - Ya know?
Pois é, o cara morreu faz mais de 10 anos e mesmo sendo uma raspa do tacho de sobras de sua carreira, esse álbum ainda é poderoso. Claro, é inconstante, tem muita música que entrou só pra encher linguiça mesmo, mas as boas compensam, e muito! 
E mesmo que 14 das 15 músicas fossem ruins, esse cd mereceria destaque. Tudo por causa do hino Rock'n'roll is the Answer. Uma pena que essa música, devido às circunstâncias em que o cd foi lançado, vai passar despercebida. Esse musicão que soa uma mistura de Ramones com AC/DC teria tudo pra se tornar um grande clássico do rock, caso tivesse sido lançada em algum antigo LP dos Ramones.



5. Paradise Lost - Tragic Idol
Fazia tempo que a banda não lançava um álbum tão consistente quanto este Tragic Idol. Em todos os seus trabalhos sempre houve faixas ótimas, porém, em seus últimos cds, estas eram diluídas em meio a músicas medianas. Aqui não, dá pra curtir o álbum todo do começo ao fim sem pular faixa nenhuma.




4. Alabama Shakes - Boys & Girls 
Pare tudo que estiver fazendo e escute a vocalista Brittany Howard cantar. Que voz! Se ela lançasse um álbum à capela já seria muito bom, com o acompanhamento de sua excelente banda então nem se fala. A primeira referência que me vem à cabeça é Janis Joplin, tanto pela vocal quanto pelo instrumental com sua levada blues/soul/rock.





3. Killing Joke - MMXII
Até esse ano não tinha ouvido nada tocado pela própria banda, apenas o excelente cover de The Wait, em sua versão feita pelo Metallica. Posso dizer que foi uma das grandes descobertas de 2012 e logo devo correr atrás de trabalhos mais antigos dos caras. O que se ouve aqui é um post-punk metal, se é que isso existe. As músicas tem aquela pegada típica de bandas post-punk dos anos 80, aliadas à riffs e elementos mais pesados de metal e industrial.


2. Mark Lanegan Band - Blues Funeral
Nunca ouvi os outros álbuns dele. Nem solo, nem com a Isobel Campbel e nem com o Screaming Trees. Conhecia apenas os (excelentes) trabalhos do cara junto com o Queens of the Stone Age. Isso foi o suficiente pra fazer com que eu me interessa-se em descolar o Blues Funeral ao ler sobre um show que faria em SP no começo do ano (que infelizmente perdi). E que ótima decisão foi esta! Mark usa sua voz de trovão em um álbum que é basicamente composto por blues e rock alternativo, mas com influências que vão até a disco music!!! Uma das melhores faixas, a Ode to a Sad Disco, não poderia ter um nome melhor. É bem isso mesmo, uma sonoridade disco, mas longe da alegria e festividade que tal tipo de música evoca, o negócio aqui é soturno e deprê. Coisa linda!
  

1. Baroness - Yellow & Green
O top 1 é tão bom, mas tão bom, que já ganhou uma resenha própria AQUI. Mas não custa enfatizar: Yellow & Green é fantástico! Rock progressivo, stoner metal, psicodelia, folk... um amálgama de estilos, mas a classificação que importa e que cabe aqui é: música ótima.





P.S.: Não posso colocar na lista porque são lançamentos de 2012, mas quero fazer uma menção honrosa a dois álbuns que ouvi pela primeira vez este ano e que estariam facilmente dividindo o primeiro lugar com o Baroness: Dreamland (2002) e Mighty Rearranger (2005), ambos da carreira solo do Robert Plant. Também já escrevi sobre eles AQUI.

P.S.2: Top 3 chatices do ano: Born Villain - Marilyn Manson: Porque esse cara não se aposenta? The 2th Law - Muse: Essa banda até começou bacana, mas essa pretensão de querer ser o "novo-Queen" estragou tudo. Muita pompa pra pouca música. Oceania - Smashing Pumpkins: Ok, faz tempo que não fazem nada digno de nota, mas acho que essa foi minha broxada do ano. CD absurdamente sem sal.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

As realidades de Philip K. Dick

Danilo Altman

Philip K.
(Fonte: http://www.radiotimes.com/)
Você acha que não sabe quem é Philip K. Dick, mas assim como nas tramas de suas histórias, a realidade não é exatamente o que parece e as ideias desse escritor se encontram em algum lugar dentro de sua mente.

Nascido em Chicago, em 1928, Philip K Dick escreveu 44 livros e mais de 120 contos, muitos deles organizados em coletâneas. Ao contrário do estilo elegante e calcado em ciência real de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, Dick não tinha problemas em inventar a pseudociência absurda que fosse necessária para contar suas histórias. No meio de seus textos você encontra todo tipo de coisa bizarra, como lesmas lunares e afins. Outra diferença dele é sua visão pessimista de mundo. Não raro, suas histórias se passam em realidades devastadas pela guerra, pobreza e decadência, tendo como protagonistas personagens desajustados e paranóicos.

Em vida, o escritor não fez grande sucesso, ficando bem atrás, em termos de popularidade, quando comparado com os peixes grandes da ficção científica, como Robert Heinlein, Ray Bradbury e os já citados Clarke e Asimov, mas no início da década de 80 o cineasta Ridley Scott viria a dirigir o filme Blade Runner, baseado em um de seus livros, Do the androids dream of electric sheep?, que abriu as portas de Hollywood para Philip K Dick. Desde então muito de seu trabalho já foi adaptado para as telonas, sendo os maiores destaques, sem contar, obviamente, Blade Runner, Minority Report - A Nova Lei (2001) e O Vingador do Futuro (1990).
A soturna Los Angeles futurista de Blade Runner.
(Fonte: http://blu.stb.s-msn.com/)
O filme de Ridley Scott é um filmaço! Um noir futurista sobre um caçador de androides fugitivos. Com diálogos e atuações incríveis, direção segura, efeitos especiais de primeira e um roteiro irretocável, o filme, apesar de não triunfar nas críticas e bilheterias na época de seu lançamento, tornou-se um clássico cult ao sair em VHS. Além de ter sido o primeiro, este é, sem sombra de dúvidas, o melhor filme baseado nas ideias do escritor. Ficção profunda, mais voltada para o aspecto intelectual do que para a correria e ação, Blade Runner é um filme impressionante, que até agora não ficou datado e merece ser sempre revisto, pensado e analisado.

O diretor holandês Paul Verhoeven não era um novato na ficção científica quando resolveu fazer seu Vingador do Futuro, ele já tinha dirigido um dos grandes clássicos do gênero, Robocop (1987). Inspirado no conto “Lembramos para você a preço de atacado”, o diretor criou um filme de ação com inúmeras cenas e passagens memoráveis.
O grande trunfo do diretor foi não se levar tão a sério. O filme tem um tom escrachado que faz com que inverossimilhanças e a violência gráfica não incomodem o espectador. O roteiro expande a história imaginada por Dick de maneira bastante satisfatória e costura toda a ação com uma história intrigante.

Minority Report adapta um dos melhores contos de Dick, “Relatório Minoritário”. Trazendo o astro Tom Cruise no papel principal, o filme parece mesmo com um “Missão Impossível do Futuro”. O design de produção é fantástico e o filme funciona muito bem como um thriller de ação futurista. Sequências empolgantes de fugas e lutas são amarradas por um belo roteiro. Entretanto, o roteiro retira da trama o final mais bombástico e até, porque não?, racional do conto, adquirindo um tom mais moralista e, eu diria, até sem sentido do que o do desfecho originalmente pensado de Dick, quando o personagem principal é obrigado a tomar uma decisão cruel, porém sensata dentro das situações e possíveis desenrolares de suas decisões.
No universo de Dick nada nunca é o que parece.
(Fonte: http://mundodomanolo.com.br/)
Muitos outros filmes foram baseados em histórias de Dick, alguns utilizando apenas uma ou outra ideia do autor, como O Vidente (2007), com Nicholas Cage, que é vagamente inspirado pelo conto “O Homem dourado”, ou até mais fiéis, como O Pagamento (2003), mas todos de qualidade duvidosa, sendo de medianos a ruins.

Aproveitando o lançamento do (desnecessário) remake de O Vingador do Futuro, a editora Aleph resolveu lançar uma coletânea com todos os contos do autor que deram origem a filmes. O remake em si não é ruim, mas pouco agrega ao cinema sci-fi, sendo uma mistura da versão original da história com uma correria mais estilo "Minority Report" e até alguma influência visual de Blade Runner e de Eu, Robô. O grande trunfo do filme foi trazer às bancas este livro, uma edição inédita no mundo, excelente para quem quer começar a tomar contato com o surtado mundo de Philip Dick.

Curiosamente, as ideias deste americano geraram muito mais filmes do que as de Asimov, Clarke e Heinlein e, se estes ficaram conhecidos como o Big 3 da literatura de ficção, Philip Dick é, sem dúvida, o rei do cinema do gênero.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Contato

Danilo Altman

Carl.
(Fonte: http://devaneiostolos.com/)

Sempre tive a tendência para o nerdismo. Quando criança acordava cedo no sábado para assistir documentários da National Geographic que passavam na Globo. Tinha interesse principalmente naqueles sobre inseto e os sobre Egito antigo. E de domingo adorava ver o Globo Ciência. Mesmo o Globo Rural eu não perdia, sempre tinha algo interessante em meio as notícias sobre a cotação da arroba do boi zebu. Mas nenhum desses exerceu tamanho fascínio sobre mim quanto a série Cosmos, produzida e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan. Desde então posso dizer que Carl Edward Sagan é uma das minhas pessoas preferidas em toda a existência humana. 

Olha o currículo do sujeito: Doutor em astronomia e astrofísica pela Universidade de Chicago, ele trabalhou nos projetos da NASA Apollo, Mariner, Viking, Voyager e Galilleu. Além disso ele foi professor de astronomia e ciências espaciais, publicou inúmeros livros e artigos e é tido como um dos grandes divulgadores da ciência em todos os tempos. Além de tudo isso, Sagan era um poeta. Quem já assistiu Cosmos, leu alguma coisa  ou viu alguma entrevista dele já sabe. Seu amor pela ciência, pela cultura e pela busca do conhecimento eram impressionantes e foram destiladas em cada palavra dele.

Dito tudo isso, não sei por que demorei tanto para ler Contato. 

O livro, lançado em 1985, conta a história da astrônoma Eleanor Arroway e sua participação no projeto SETI. Pra quem não sabe este é um projeto real, que busca evidências de vida inteligente fora da Terra através do monitoramento de radiofreqüência. A ideia básica do projeto é apontar um radiotelescópio para uma estrela e, através da análise da radiação eletro-magnética captada, determinar se esta é natural (emissões da própria estrela) ou se  possui alguma lógica, como sinais com repetições ou sequencias bem estabelecidas, o que a configuraria como uma transmissão de alguma civilização inteligente.

Contato.
(Fonte: http://imagens.pontofrio.com.br/)
Na história acompanhamos a Dra Arroway desde sua infância e formação (tanto de caráter quanto científica) até o momento em que ela finalmente consegue captar sinais que possivelmente são provenientes de seres extra-terrestres habitando algum planeta em órbita da estrela Vega, assim como as consequências desse contato. Esse deve ter sido um dos livros mais bem escritos que já li em toda minha vida. A história engloba todos os aspectos de um possível contato com seres extra-terrestres e mostra como isso se refletiria na sociedade, na ciência, nas religiões e na política. Além disso, Sagan dá vida a personagens complexos, multidimensionais e plausíveis. A construção da personagem principal se dá de uma forma completa e esta poderia ser a biografia de uma pessoa real. A obra foi pensada em cada um de seus pormenores, sendo profunda, completa e sem falhas.
 
O livro é bem mais do que uma ficção científica. É um debate sobre ciência e fé, sobre política, sobre relações humanas, sobre astronomia. Tudo isso sem nunca deixar de prender a atenção dos leitores sobre seus personagens ou sua história. Para quem já leu ou viu qualquer outra coisa de Sagan, dá pra perceber que Eleanor é o próprio autor dentro da história. Sua paixão pela ciência e seus argumentos fortes e inteligentes sempre me soavam com a própria voz de Carl. E este passeio pelo cosmos dessa mente privilegiada é um dos maiores prazeres que já tive desde que fui alfabetizado.
Dra. Arroway na pele de Jodie Foster.
(Fonte: http://arquivoufo.com.br/)

Terminada a leitura, fui atrás do filme baseado no livro, lançado em 1997, o qual também curti muito. O diretor Robert Zemeckis conseguiu enxugar o texto e transpor a história de forma competente para as telas. Ter a excelente Jodie Foster no papel principal também foi de grande valia. Entretanto, recomendo que, mesmo quem já assistiu à película, que leia o livro, já que este se aprofunda bem mais em alguns pontos da história, trazendo a tona muito mais detalhes em todos os aspectos da história do que seu irmão da sétima arte.

Contato é uma obra única. Uma prova de que ao menos na Terra existe vida inteligente.