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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Homem Máquina - Max Barry


Certa vez parei para pensar e notei que praticamente todos os meus autores preferidos já estão mortos. Isso me deu desespero porque torna minhas opções de leitura finitas. O que vou ler na área da ficção científica quando acabar com toda bibliografia do Asimov, do Dick e do Clarke? Assim resolvi que me daria a chance de conhecer autores mais jovens, que estivessem vivos ou ao menos que eu nunca havia lido antes. Foi assim que acabei lendo este Homem Máquina, do australiano Max Barry.
Vou ser sincero, nunca tinha ouvido falar do autor ou do livro. Mas eu tenho vício de passear em livrarias e num desses passeios bati o olho na belíssima capa do livro. Peguei o livro, folheei, li a orelha, paquerei a capa. Como não era muito caro resolvi levar. Decisão mais do que acertada. Comecei a ler num sábado de manhã e só consegui largar o livro no domingo à noite, quando o terminei.
Em Homem Máquina somos apresentados ao Dr Charles Neumann, engenheiro muito habilidoso em criar as mais diversas coisas no super moderno laboratório da empresa Futuro Melhor e nada habilidoso no que se refere à relações pessoais. Em uma série de eventos (engraçadíssimos) ligados à procura de seu celular, Charles sofre um acidente e acaba perdendo umas das pernas. Em sua recuperação ele conhece a especialista em próteses Lola Shanks, por quem se apaixona, e recebe sua primeira perna mecânica. Intrigado pelo funcionamento da perna o engenheiro acaba criando uma prótese melhor. Tão melhor que ele acredita que sua perna natural também deveria ser substituída.
À partir deste ponto acompanhamos as transformações do personagem em uma interessante mistura de Sci-Fi e humor negro, com muitos toques de crítica social. Grandes livros de ficção científica são justamente aqueles que trazem inseridas em suas histórias fantásticas questionamentos sobre algum aspecto real da condição humana e Homem Máquina não desaponta nesse quesito. É possível encontrar no texto metáforas para as mais diversas questões, como consumismo (principalmente no que se refere à tecnologia), intervenções cirúrgicas cosméticas e interesses das grandes empresas, tudo costurado por um texto ágil e divertido, que prende o leitor que nunca deixa de se perguntar “até onde esse cara vai?”.
Max
Barry, que é engenheiro e já até trabalhou na HP, escreveu o livro de uma forma bastante moderna, publicando uma página por dia em seu site, deixando que seus leitores deixassem registradas correções e sugestões para a história. A edição final foi bastante modificada da versão do blog, mas a ideia não deixa de ser curiosa.
Devido a sua formação o autor traz muita bagagem à história, sabendo muito bem onde cutucar o mundo das grandes empresas e o dos engenheiros, fazendo com muito mais propriedade e talento o que o Big Bang Theory tenta fazer.
Ao terminar o livro senti um alívio. A ficção científica ainda tem muita lenha para queimar.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Da Natureza das Coisas - o poema que mudou o mundo para sempre

Marlon Villas

(Fonte: http://www.adrigomes.com)

Você já pensou alguma vez em como a nossa visão atual de mundo, a respeito de ciência, filosofia, até mesmo de política e de economia, foi moldada? Será que foi simplesmente uma evolução natural das variáveis do comportamento e do conhecimento humanos ao longo dos séculos e milênios? Ou essa visão terá sido impulsionada — melhor dizendo, rápida e radicalmente modificada — por conta de um poema antes dado como perdido para sempre?

A última hipótese parece, nesses termos, ser a mais improvável, porém é o que o livro A Virada — O Nascimento do Mundo Moderno, de Stephen Greenblatt, busca demonstrar, de acordo com uma pesquisa imensa feita pelo autor em cima de fatos históricos.

Stephen Greenblatt.
(Fonte: http://radioboston.wbur.org)

Poggio Bracciolini era um sujeito de família de pouca renda, que nasceu na Itália no ano de 1380. Com o passar do tempo foi se especializando em algo que, para quem não possuía um título de nobreza na família, como era o seu caso, poderia ser a saída, embora não garantida, para um futuro melhor: tornou-se um escriba, aquele que copia manuscritos e livros, já que ainda naquela época a imprensa de Gutenberg não havia sido inventada. Poggio acabou sendo aluno de alguns humanistas (homens que buscavam o conhecimento em obras clássicas da humanidade),  e adquiriu uma vasta cultura sobre textos antigos latinos e gregos, principalmente.

Quando havia alcançado a vida adulta, conseguiu um lugar como escriba ao lado de alguns bispos, até que finalmente, para um homem de sua posição social, alcançou o máximo posto de sua carreira como secretário apostólico no Vaticano, trabalhando bem próximo de alguns papas.

Até que, no início do século XV, com a queda do papa João XXIII (cujo nome de batismo era
Retrato de Poggio com quase 70 anos.
(Fonte: http://mhoefert.blogspot.com.br)
Baldassare Costa, um homem que terminou sendo acusado por dezenas de crimes — após sua destituição do mais alto cargo da igreja católica, o nome João XXIII ficou novamente disponível, e somente foi reutilizado no século XX por Giuseppe Roncalli, ao ser eleito em 1958), Poggio se viu de repente sem trabalho que lhe garantisse uma renda. Entretanto, já era obcecado por algo que muitos humanistas praticavam, que era a busca e descoberta de textos antigos e raros, como poemas, tratados filosóficos, cartas, qualquer escrito que demonstrasse algo que pudesse ser visto como relevante para a história humana.

Segundo fontes de pesquisa de Greenblatt, Poggio provavelmente (isso até hoje nunca foi muito bem esclarecido) adentrou o mosteiro de Fulda, no sul da Alemanha, em 1417, e lá encontrou o que seria um pergaminho de um antigo poeta chamado Tito Lucrécio Caro, que viveu algumas décadas antes do nascimento de Cristo. Hoje tal obra, intitulada em latim De Rerum Natura, ou traduzida como Da Natureza das Coisas, é considerada uma obra-prima do pensamento ocidental, e várias pistas indicam que foi a partir da disseminação deste poema (em parte) que a Idade Média foi dando lugar à Renascença, com sua influência sendo plantada por diversas áreas da criatividade humana, como ciência, filosofia e literatura, até mesmo pintura e escultura. Alguns nomes famosos da História ocidental teriam claramente tido contato com De Rerum Natura de Lucrécio, como Giordano Bruno, Nicolau Maquiavel, Galileu Galilei, Thomas Jefferson, Isaac Newton, Pierre Gassendi, Molière, Thomas More, William Shakespeare, Montaigne, entre muitos outros que, atualmente, são referências como grandes pensadores e realizadores do conhecimento.

A seguir, você tem listados (como está no livro A Virada) os pensamentos fundamentais da obra de Lucrécio, dispersos por 7400 versos :


  •         Tudo é composto de partículas invisíveis.
  •         As partículas elementares da matéria — “as sementes das coisas” — são eternas.
  •      As partículas elementares são de número infinito, mas limitadas em forma e tamanho.
  •         Todas as partículas estão em movimento num vazio infinito.
  •         O universo não tem um criador ou um projetista.
  •         Tudo vem a ser por resultado de uma virada.
  •         A virada é a fonte do livre-arbírtrio.
  •         A natureza experimenta incessantemente.
  •         O universo não foi criado para os ou em torno dos humanos.
  •         Os seres humanos não são únicos.
  •     A sociedade humana começou não com uma era dourada de tranquilidade e abundância, mas com uma batalha primitiva pela sobrevivência.
  •         A alma morre.
  •         Não há vida após a morte.
  •         A morte não é nada para nós.
  •         Todas as religiões organizadas são ilusões supersticiosas.
  •         As religiões são invariavelmente cruéis.
  •         Não existem anjos, demônios nem fantasmas.
  •        O objetivo mais elevado da vida humana é a ampliação do prazer e a redução da dor.
  •         O maior obstáculo ao prazer não é a dor; é a ilusão.
  •         Compreender a natureza das coisas gera um profundo embevecimento.

Uma das primeiras cópias impressas de Lucrécio.
(Fonte: http://blogs.law.harvard.edu)
Reconhece algo familiar em tudo isso? Não parece que muitas dessas afirmações são bastante comuns a nós hoje em dia? Percebe como muitas dessas mesmas afirmações eram extremamente radicais, consideradas inclusive heréticas pela Igreja, que controlava boa parte das sociedades naquele tempo, constituindo uma ameaça seriíssima a seus dogmas? Galileu, por exemplo, foi condenado por heresia, mas escapou da morte pela Inquisição por influência de alguns colegas. Giordano Bruno era um monge que não teve tanta sorte: acabou queimado perto da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Hoje existe uma estátua em sua homenagem exatamente no lugar onde ele foi executado.

Será tão estranho que um poeta grego vivido antes da era cristã tivesse tamanho discernimento acerca de todas as coisas? Na verdade, se você pensar que ele próprio, Lucrécio, foi influenciado por Epicuro e por Demócrito, dois filósofos que, segundo fontes históricas, deram origem ao atomismo e a como conhecemos hoje a estrutura da matéria, ao menos em termos gerais, não parece algo tão incomum.

Um manuscrito de Lucrécio.
(Fonte: http://commons.wikimedia.org)
A lista acima é bem explicada durante a leitura de A Virada, mais precisamente no capítulo 8, com o título Como As Coisas São. Só sei que hoje não consigo mais pensar na história moderna como pensava antes. Preciso achar este poema de Lucrécio, senão não vou conseguir dormir em paz outra vez algum dia. É algo que diz respeito basicamente a todos nós, cada pessoa que vive neste planetinha azul e que segue sua vida de acordo com certos preceitos de vida, sejam eles científicos, religiosos ou qualquer outra definição que você queira. 

Ou talvez seja só empolgação da minha parte.

Título: A Virada – O nascimento do mundo moderno (tradução brasileira) / 
The Swerve: How the world became modern (original)
Autor: Stephen Greenblatt
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 294

sexta-feira, 5 de abril de 2013

John Fante: os sonhos devastados e reconstruídos

Marlon Villas

John.
(Fonte: mail-attachment.googleusercontent.com)

Até poucos dias atrás eu não tinha tido a oportunidade de pegar um livro de John Fante em minhas mãos. Muito ouvi falar dele, de que era um escritor marginal ou coisa parecida, que não se importava em ter um estilo rebuscado como outros famosos escritores de sua época (aliás, estilo rebuscado seria algo que não faria o menor sentido em seus escritos) etc. Muitos outros escritores admiram ou admiraram sua obra. Um deles foi Charles Bukowski, de quem você já me viu falando aqui pelo menos duas vezes. Outro é Marcelo Mirisola, um paulistano da geração 90 de novos escritores brasileiros, irônico, crítico ao extremo e escatológico por excelência, com diversos livros lançados por diferentes editoras (quem sabe eu fale mais sobre ele num outro momento).

A primeira vez que descobri o nome de Fante foi quando avistei um pôster do filme Pergunte Ao Pó em uma locadora de vídeos anos atrás. Demorou mais um tempo para que eu assistisse à obra, protagonizado por Colin Farrell e Salma Hayek. A história me pareceu um pouco estranha, talvez porque eu não estivesse preparado para o que iria presenciar na tela da minha televisão. Depois fui entendendo melhor o enredo e, por fim, achei bem interessante.

Logo após isso esqueci John. Não me lembrava de procurar saber mais sobre o autor de Pergunte Ao Pó, livro que deu origem ao filme, com tantas outras coisas acontecendo, como por exemplo o fato de que eu tentava sair vivo, pelo menos respirando, da universidade onde me enfiei, ou então de arranjar um trabalho razoável com um diploma de nível superior debaixo do braço.

Até que outro dia entrei em uma livraria que não possuía um acervo muito grande de livros, e encontrei uma dessas edições de bolso de Sonhos de Bunker Hill, da editora LP&M.  Sonhos... é o último romance de Fante antes de sua morte, e que foi ditado à sua esposa pois o escritor estava cego e aleijado ao final de sua vida, por conta do diabetes do qual sofreu por anos até 1983, quando faleceu. Claro, soube disso apenas porque estava na contracapa. Eu ainda me perguntava: quem diabos é John Fante?

Capa da edição.
(Fonte: mail-attachment.googleusercontent.com)
Da mesma forma que em Pergunte Ao Pó, em Sonhos de Bunker Hill John usou mais uma vez seu personagem (e espécie de alter ego) Arturo Bandini como protagonista, um típico, clássico anti-herói, um sujeito meio ressentido que, entre empregos mal pagos, tenta se tornar um escritor de renome após o que sobrou da América com a grande crise de 1929. Neste livro ele chega perto da fama, quando consegue um lugar ao sol entre os roteiristas de Hollywood da década de 1930. Porém, por mais que desejasse escrever algo, qualquer coisa para se sentir útil, o seu chefe sempre diz que é para ele esperar o momento certo, e que “está fazendo um bom trabalho”. Mesmo sem atividade, Bandini ganha cheques polpudos um atrás do outro.

O aspirante a escritor ainda se mete em confusão com uma mulher, também escritora e rica, quando praticamente a ataca na praia durante o que deveria ser uma tarde relaxante para os dois. Envolve-se com a sua senhoria do prédio onde mora, uma mulher bem mais velha que ele, que no início julgava ser uma pessoa ruim, e que termina por gostar bastante dela.  Recusa-se a ter seu nome creditado a um roteiro de faroeste por princípios morais, roteiro este que foi totalmente modificado por outra escritora, e que havia sido o único que ele tinha escrito durante toda a sua estada em Hollywood. Arturo também dá a impressão, às vezes, de ser um tipo que, embora reclame de muita coisa e de muita gente, não possui uma certa coragem para enfrentamentos, pois em pelo menos duas ocasiões deixa bilhetes com palavras duras a pessoas que o aborreceram ou o decepcionaram. Como no caso em que, num jantar em um restaurante com um amigo, encontra o escritor Sinclair Lewis (pessoa real, o primeiro norte-americano laureado com o prêmio Nobel de Literatura, transformado aqui em personagem) e este o despreza publicamente. Enfim, um homem que busca um lugar no mundo e que ainda busca descobrir que lugar é esse.

Sonhos de Bunker Hill é um livro fácil e rápido de ser lido, e que me fez ter vontade de conhecer mais John Fante pela riqueza e simplicidade de suas palavras. Um escritor que não se preocupava em trabalhar e expor emoções, que abria feridas morais e sentimentais, sem regalias. É isso, sem dúvidas, o que John foi.

Título: Sonhos de Bunker Hill (original: Dreams of Bunker Hill)
Autor: John Fante
Editora: LP&M
Número de páginas: 166

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pulp - a última grande tacada de Buk

Marlon Villas

Capa de edição de bolso.
(Fonte: farm6.staticflickr.com)
Foi uma boa opção para mim, que estava sem muitas opções (leia-se “disposição”) para sair de casa no último domingo. Eu já havia comprado o livro há alguns meses, porém o mesmo ficou esquecido junto a um pequeno monte de papéis sobre o balcão da cozinha. Vou procurar me vigiar de agora em diante que para que isso não volte a se repetir.

Segundo diz na contracapa, foi o último livro escrito por Bukowski antes dele falecer em 1994, alguns meses depois. E segundo diz na dedicatória, a novela é dedicada à subliteratura. Buk parecia, como sempre, estar pouco se lixando se os críticos literários apreciariam ou não seu trabalho intitulado Pulp, ao estilo das velhas histórias policiais, cheias de exageros e detetives de moral duvidosa, mulheres fatais, mistérios em cima de mistérios, enfim aquela miscelânea na qual se consagrou o estilo noir no cinema, a partir dos anos 1940.

Li todas as 176 páginas no mesmo dia. Acredito que tenha sido a leitura mais rápida que já fiz até hoje de um volume, mesmo se levar em conta a quantidade relativamente pouca de páginas. O estilo sem muitas preocupações estilísticas, marca bem conhecida de Charles Bukowski, me ajudou a devorar em poucas horas a história do detetive Nick Belane, um sujeito com poucas posses, que cobra barato por seus trabalhos de investigação (“Quanto é?” “Seis dólares a hora.” “Não me parece muito.” “Para mim, é.”), mete-se em brigas em quase todo bar que frequenta e que é contratado por Dona Morte, a própria, encarnada em uma mulher linda e extremamente atraente, que não deixa de ser alvo dos desejos sexuais do protagonista. Aliás, mulheres exuberantes e que despertam a atenção de Belane não faltam no livro.

O velho Buk mandando ver.
(Fonte: f.i.uol.com.br)
Dona Morte contrata o detetive para encontrar Celine, um escritor francês (que realmente existiu, e morreu em 1961, quase no mesmo dia que Ernest Hemingway) que ela acredita estar vivo. Com esta história a ser desvendada inicialmente, Nick Belane acaba se metendo em várias confusões, incluindo uma mulher que demostra ser uma alienígena, um certo Pardal Vermelho que é preciso encontrar, agiotas da máfia e muito mais.

É claro que, por se tratar de uma obra escrita pelo velho Buk, não faltam situações absurdas, um humor corrosivo e personagens que fogem completamente ao senso comum. Mas tudo, como dito antes, criado a partir das características noir de antigos escritores de mistério policial, como Dashiell Hamett, Raymond Chandler e David Goodis, dentre vários outros.

Aliás, isso me faz lembrar que estou devendo (ao menos para mim) um texto sobre filmes noir. Tentarei fazer isso, só não vou estabelecer um prazo pra você. Aí seria demais.

Pulp é o tipo de história excelente para quem gosta de uma mistura de mistérios, personagens sem-noção e situações hilárias, além de palavrões, bebidas e sexo. Sem contar o fato de que é uma novela com a assinatura de Charles “Hank” Bukowski, um mestre na arte de chocar e surpreender, por favor.

Título: Pulp
Autor: Charles Bukowski
Editora: LP&M
Número de páginas: 176

domingo, 24 de março de 2013

Cosmos, Carl Sagan (1980)

Karina Pimenta

Na faculdade eu tive o prazer de ter um professor maravilhoso, tanto como pessoa quanto como profissional. Em uma oportunidade, estive presente em uma palestra de química para um grupo de alunos do ensino médio. O Dr. Edvaldo Sabadini discursou sobre a dimensão microscópica do universo dos átomos, dos elétrons, dentre outras partículas, que são basicamente o material de estudo dos alunos de química. Também ressaltou a árdua tarefa de tentar compreender esse mundo tão pequeno em tamanho e, de uma maneira muito inteligente, o professor equiparou o grau de dificuldade do mundo infinitesimal com medidas imensas como o universo. Para finalizar, apresentou um episódio do DVD Cosmos (1980), de Carl Sagan que foi tido como inédito para o conjunto dos alunos, nascidos por volta do ano de 95. Foi assim que eu relembrei daquela série antiga, quando eu era criança demais para entender o que se passava no programa.

Acho que é válido eu esclarecer que eu não entendo praticamente nada de astronomia. Eu gosto do assunto, mas não sei explicar detalhadamente absolutamente nada. Às vezes eu tento, mas sempre fico com uma dúvida aqui ou ali. A título de curiosidade, comecei a assistir alguns episódios da série Mistérios do Universo, com Morgan Freeman, também um ou outro da série Wonders of Universe, ambos da BBC e, é claro, os episódios de Cosmos.
Carl Sagan
Cosmos é um livro da autoria de Carl Sagan (1943-1996), e foi lançado em 1980. Recheado de ilustrações, aborda em 13 capítulos diversos assuntos relacionados à ciência e civilizações. Carl Sagan transmite tópicos científicos de elevada complexidade na forma de uma agradável leitura, como se ele estivesse conversando com o leitor. O livro fala de curiosidades históricas sobre filósofos, e introduz suas contribuições relacionando-as com a ciência moderna.

O sucesso rendeu ao autor o prêmio Hugo Award for Best Non-Fiction Book. A série de televisão Cosmos, que conta com a participação do autor, contribuiu para a sua divulgação e transformou a obra em um best seller, sendo o primeiro livro de ciências a vender mais de meio milhão de exemplares antes de ter sido traduzido para outros idiomas. No final daquela década, Stephen Hawking bateu o recorde de vendas de Carl Sagan ao lançar o livro Uma Breve História no Tempo.

Box de DVD's Cosmos
Eu assisti aos episódios da TV recentemente e notei que, na série Cosmos, temos uma outra noção de tempo, bem diferente dos documentários que vemos passando hoje em dia. A informação é a mesma, entretanto, sem aquele monte de imagens e fotos rápidas, música acelerada. Esse ponto de vista é bem interessante porque pode ser uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que os conceitos são apresentados de uma forma mais lenta e não são vomitados no telespectador, algumas pessoas podem se entediar. Não é cansativo de jeito nenhum, é calmo, devagar.

A começar pela música, em Cosmos temos uma bem escolhida seleção de clássicos! E podemos chamar cada episódio de aula, porque Carl Sagan segue um modelo para seu show que se inicia com um exemplo prático, um assunto palpável e relacionado com o dia-a-dia. Em seguida, entra com a matéria propriamente dita, emprega vídeos e animações para auxiliar na explicação (mas não esperem muito das animações da década de 80). E, para finalizar, volta aos exemplos e encerra o assunto. 

A didática é tamanha que Carl Sagan consegue explicar de forma muito simples como descobriram que a Terra é redonda em poucos minutos. Um outro exemplo é o calendário cósmico, onde a idade do Universo, 13.7 bilhões de anos, é dividida em 12 meses, começando em janeiro, com o Big Bang, terminando nos últimos segundo de dezembro, com o aparecimento do homem. A revista Superinteressante, dentre diversas fontes online, adoram usar essa figura. Já viram? É batido, mas funciona! E Carl Sagan é tido como aquele que popularizou o calendário cósmico, buscando contextualizar a vasta idade do universo.

Calendário cósmico (Fonte: Wikipedia)
Gostei muito, principalmente porque o conteúdo não fica preso somente em astronomia, mas relaciona-se também com biologia, por exemplo. E dá para sentir, a cada palavra, a paixão que Carl Sagan sente pelo seu trabalho, dentro de cada episódio. Posso dizer, orgulhosa, que aprendi com ele como somos ao mesmo tempo insignificantes em massa mas, ao mesmo tempo, muito importantes para a nossa própria compreensão. Deixo a dica para vocês!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Gravidade - Tess Gerritsen


 Dentre todas as pessoas que já conheci na vida, meu pai é a pessoa que mais lê. A mesa da sala dele vive lotada de livros, coisa linda de se ver. Em geral, ele comenta muito pouco comigo sobre os livros que está lendo, talvez por nossos gostos não serem tão parecidos, mas certa vez ele me mostrou este Gravidade, de Tess Gerritsen, e me garantiu "você gostaria bastante deste aqui". Passou algum tempo, mas finalmente li o volume. E não é que é adorei mesmo o dito cujo? O livro é uma ótima combinação de gêneros. A princípio é um thriller médico, mas com contornos de uma história policial e elementos de ficção científica, principalmente por se passar, em grande parte, na Estação Espacial Internacional, a ISS.
A autora norte-americana, filha de imigrantes chineses, é formada em medicina pela Universidade da Califórnia, por isso boa parte de seus livros é composta por thrillers médicos como este. Sua primeira publicação foi o conto "On Choosing the Right Crack Seed" que ganhou o primeiro prêmio em um concurso promovido por uma revista. Seu romance de estreia saiu em 1987 e desde que alcançou sucesso como escritora ela tem se dedicado apenas a isso, deixando a carreira como médica de lado.
 A primeira analogia que me veio a cabeça ao ler Gravidade foi "e se o Dr House estivesse em Alien, o oitavo passageiro?". Guardadas as devidas proporções é exatamente esta a proposta de Gravidade, mas ao invés do famoso ranzinza e sua equipe, o livro traz como personagens principais os médicos Jack McCullum e Emma Watson, um ex-casal. Ambos os personagens fizeram treinamento na NASA, mas apenas Emma conseguiu de fato se tornar uma astronauta, uma vez que Jack já teve pedra no rim, uma condição médica que o impossibilita de permanecer em microgravidade segundo as normas da agência espacial. A história começa com a ida da Dra Watson à ISS, onde ela logo enfrenta uma grande crise quando um de seus companheiros adoece gravemente e ela, como médica à bordo, deve, além de cuidar de seu paciente, tomar importantes e difíceis decisões.
A simpática Tess Gerritsen
Assim como os mestres Asimov e Clarke, Gerritsen tenta ancorar sua história em ciência real, tendo em sua vantagem o fato da mesma se passar nos dias atuais, não em um futuro distante, e em veículos e estações que existem de verdade. Cada capítulo é recheado de informações interessantíssimas sobre a vida dos astronautas e todo dia-a-dia da NASA, acredito até ter sido este o aspecto que mais me fascinou na obra. Mas diferentemente das histórias contemplativas e filosóficas destes autores clássicos da ficção científica, Tess conduz aqui uma história frenética, lotada de cenas empolgantes, desde o primeiro capítulo, que se passa em submarino, até sua conclusão. Assim, o livro não é indicado apenas para nerds aficcionados por ficção científica hard, mas também para quem gosta de aventuras com correrias contra o tempo, mistérios e desafios a serem superados pelos personagens.
A autora consegue transmitir todo o desenvolvimento da ação de forma clara e fácil e as imagens se formavam automaticamente na minha mente. O livro é um roteiro pronto para o cinema, lendo-o me sentia como vendo um filme durante todo o tempo. Acredito que o único motivo da publicação não ter sido levada às telas é o fato de que os ônibus espaciais, tão importantes no desenvolvimento da história, foram aposentados poucos anos após seu lançamento (1999). Ainda assim, se eu fosse produtor de Hollywood, apostaria fácil em uma adaptação para as telonas.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Duas vezes Asimov


Isaac Asimov é muito provavelmente o nome mais famoso da literatura de Ficção Científica. Não é a toa. Este russo naturalizado estadunidense escreveu e editou mais de 500 livros dentre ficção e não ficção, tendo obras lançadas em praticamente todos os campos do conhecimento humano. Entretanto, o "bom doutor" é mais conhecido mesmo por suas histórias sobre robôs (especialmente o clássico Eu, Robô) e a premiada trilogia Fundação. Gosto muito destes livros, mas meus preferidos até agora, dentre tudo que li dele, são Os Próprios Deuses e O Fim da Eternidade.
Isaac Asimov: ótimas ideias e costeletas
Ficção científica é um termo para descrever qualquer livro ou filme que inclua em seu enredo o fator ciência como componente essencial. Há assim certa discussão sobre determinadas obras. Por exemplo, toda a saga Star Wars se passa em mundos estranhos, há a presença de elementos futuristas como naves e robôs (ou melhor, Droids), mas a história está mais para uma aventura ou fantasia do que para a ficção científica em si. Pode-se discutir sobre a essência de muitas obras, mas se há um livro que é ficção científica pura, este é Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov.
Os Próprios Deuses é uma história dividida em três grandes atos. No primeiro acompanhamos a descoberta do elemento Plutônio 186, um elemento impossível de existir em nosso universo, e suas aplicações e implicações na sociedade. Ok, você já viu inúmeros personagens de sci-fi pegando espantados algum objeto e dizendo  "este material não existe na Terra!". Asimov levou este conceito anos-luz a frente de seus colegas. É detalhada toda a descoberta do elemento. Se você tiver algum conhecimento de química e física, em especial sobre química analítica, leis da termodinâmica e interações nucleares, vai se extasiar com as longas explicações científicas e debates entre os personagens do livro.
Através do estranho isótopo é descoberta a existência de um universo paralelo ao nosso, onde as leis da física são ligeiramente diferentes. Lá vive outra civilização que tem muito interesse na troca de metais entre os universos como forma de obter energia. O cientista Dr. Frederick Hallam é aclamado como o descobridor do Plutônio 186 e vira uma grande celebridade mundial devido a construção da "bomba de eletróns", responsável pela transmissão de energia entre os mundos paralelos. Entretanto há quem desconfie que ele não seja este grande gênio e que a energia não é tão segura quanto se pensa.
O segundo ato traz a mais genial descrição de alienígenas que já li ou vi. Passado inteiramente no Para-Universo, esta parte da história descreve a vida de seres completamente diferentes de tudo que você conhece. Nada de humanóides ou seres baseados em insetos ou répteis. Os para-homens são seres de uma dimensão onde as leis da física são ligeiramente distintas das nossas, assim seus corpos e sua organização social são também distintas. 
Os para-homens são divididos em dois grupos, os Suaves, com suas tríades formadas por três "sexos", e os misteriosos e mais avançados Durões. No livro acompanhamos a tríade formada pelo Paternal Tritt, pelo Racional Odeen e pela Emocional Dua. Em cada tríade cada um tem suas características bem definidas, entretanto nesta, Dua é considerada uma aberração, uma "emo-esquerdista", ou seja, um ser do grupo Emocional, porém com características de Racional. É Dua quem acaba descobrindo os perigos da "bomba de posítrons" deste universo e tenta acabar com a mesma.
O terceiro ato volta pra o nosso Universo, mais especificamente para a Lua, onde um antigo rival de Hallam, o também cientista Dr. Benjamin Allan Denison tenta restabelecer sua carreira arruinada pelo famoso "pai da bomba de elétrons" enquanto tenta achar uma solução para os perigos da mesma.
O livro, tido pelo próprio autor como seu preferido, é uma das obras de ficção científica mais criativas e bem escritas que já tive em mãos. Indicado para quem se interessa por ciência real.
O Fim da Eternidade é uma história sobre viagens no tempo. O personagem principal, Andrew Harlan, é um Técnico da Eternidade, uma organização que existe "fora do tempo", empenhada em fazer ajustes de realidade em determinados momentos para que a humanidade evolua sem maiores conflitos e sofrimentos. Porém os Técnicos não andam livremente pelos séculos. Idas ao Primitivo, como são chamadas as Eras antes da criação da viagem do tempo, são proibidas. E de alguma forma inexplicável eles não conseguem adentrar entre os séculos LXX e CL. Viagens após o século CL encontram um mundo sem nenhuma civilização.
A vida de Harlan se complica quando se apaixona por Noÿs Lambent, uma mulher que será apagada da existência por uma intervenção em seu século natal. Ao mesmo tempo o Técnico se descobre responsável por um paradoxo temporal que dará a origem à própria Eternidade. 
O livro traz uma das melhores e mais originais histórias sobre viagem que já li, levando mais em conta a viagem em si do que os próprios tempos para quais os viajantes vão. Ao contrário d'Os Próprios Deuses, O Fim da Eternidade é uma obra que acredito que poderia funcionar de forma excepcional nas telas, se conduzida por um bom diretor. Aventura, romance e conspirações numa sólida história de sci-fi com um final surpreendente. Recomendo fortemente não só para amantes do estilo, mas para todos os leitores em busca de uma grande história.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Os caminhos para o fim do mundo

Marlon Villas

Sempre gostei muito de histórias pós-apocalípticas (o termo não é o mais correto, mas é o que vou usar aqui), aquela coisa de que tudo o que conhecemos como civilização foi destruído, um clima de fim dos tempos. Desde pequeno achei curiosa a ideia de me imaginar sozinho no mundo, percorrendo estradas e cidades e não encontrando pessoa alguma para conversar, saber as novidades, jogar um dominó (a gente se presta a qualquer coisa em meio ao desespero), dividir uma pizza, sei lá. Existe um caráter até filosófico nesse assunto, como em toda boa estória futurista e possível de acontecer, que deixa meu cérebro intrigado.


Aqui vão algumas considerações sobre alguns filmes e livros que li sobre o tema:

BLECAUTE - provavelmente este tenha sido o primeiro livro que me levou a indagar sobre o fim do mundo e o da raça humana. E foi escrito por um brasileiro, o Marcelo Rubens Paiva, mesmo autor de Feliz Ano Velho, uma autobiografia sobre o acidente que o deixou numa cadeira de rodas, até hoje, quando ainda um jovem estudante da Unicamp, misturando memórias e indagações sobre seu pai, que sumiu durante a ditadura militar (aliás, não sei por que isso virou um livro tão famoso - eu li e achei uma grande bobagem literária, coisa de moleque que só queria desabafar suas angústias, mesmo). Marcelo disse que escreveu Blecaute ouvindo muita coisa das antigas (Tom Waits, King Crimson e Duke Ellington), além de ter sido influenciado pela antiga série Twilight Zone (Além da Imaginação, no Brasil). Três amigos, dois rapazes e uma garota, depois de ficarem presos por dias dentro de uma caverna devido a um desabamento de pedras durante uma expedição de espeleologia, percebem que são as únicas pessoas vivas na cidade de São Paulo. Todas as outras viraram algum tipo de estátuas, e eles não sabem o motivo disso ter ocorrido. Entre a solidão numa metrópole e a possibilidade de usufruir de absolutamente tudo a seu bel-prazer, o trio vai tentando levar uma vida normal. Existem cenas fantásticas no livro, como o momento em que explodem a torre de transmissão da Rede Globo na Avenida Paulista, e como pintam a mesma avenida de vermelho, de uma ponta a outra, simplesmente porque o tédio tomava conta deles. Não à toa, já li este romance duas vezes, de tão interessante que achei. E fica aqui meu apelo: quando algum cineasta vai ter a coragem de transformar Blecaute em filme, hein? Hein?

A ESTRADA - Cormac McCarthy é um nome que eu não conhecia até então. Mesmo tendo assistido ao filme Onde Os Fracos Não Têm Vez, baseado em um de seus romances, eu não tinha a menor ideia de quem era o sujeito. Até que ouvi falar de um filme chamado A Estrada. Como era com o Viggo Mortensen no papel principal, não fiquei muito entusiasmado para conferir o trabalho, mas por algum motivo totalmente estranho (sério, não sei bem a razão disso ter acontecido), acabei por comprar o livro homônimo. Mesmo com o Mortensen na capa, uma foto tirada de um pôster de divulgação da película. O enredo do romance é basicamente o seguinte: um pai segue com seu filho pequeno em direção à costa oeste dos Estados Unidos, em meio a um mundo destruído por algum tipo de guerra mundial, pois acredita que lá terão mais chances de sobreviver ao inverno que se aproxima. Ambos estão desnutridos, vestem farrapos que encontram pelo caminho e possuem uma arma com algumas poucas balas para se protegerem de outros humanos que se tornaram canibais pela escassez de alimentos. Existem algumas cenas fortes e emocionantes, mas não consegui gostar do livro como um todo. Principalmente pelo estilo de escrita de McCarthy, que acredito não ter combinado tão bem com a própria estória. Alguns meses depois resolvi assistir ao filme, e pensei que foi uma das raríssimas vezes em que uma adaptação cinematográfica ficou melhor que o original em texto. Mesmo assim, não é um grande trabalho, na minha opinião. Ou talvez seja apenas a minha mente que já tenha ficado desconfiada com o romance desde o início, só isso.

EU SOU A LENDA - taí um filme que gostei desde as primeiras cenas. Will Smith é um ator que admiro por ter feito vários trabalhos dignos de nota, embora já tenha escorregado um pouco em sua carreira com atuações e projetos mequetrefes. Entretanto, em Eu Sou A Lenda ele está muito bem na pele do virologista militar Robert Neville, que procura uma cura para um vírus que sofreu mutação genética, e que havia sido utilizado alguns anos antes como veículo para a cura do câncer. A mutação do vírus causou uma epidemia na cidade de Nova York, e que depois se espalhou mundo afora, transformando as pessoas infectadas em criaturas violentas, sem resquícios visíveis de inteligência, com o metabolismo muito acelerado, e que só saem às ruas à noite, pois são extremamente sensíveis à luz do dia (nisso eles se parecem com vampiros, mas a comparação começa e termina por aí). Neville descobriu ser imune ao vírus em qualquer forma de transmissão, ao contrário de sua cadela Sam, sua única companhia, que só é imune pela infecção por ar. A sequência de cenas em que a cadela é infectada e Neville precisa matá-la, e depois ele aparece em uma locadora de vídeos e procura conversar com um manequim são as partes mais tristes de todo o filme. Assim como a cena em que, depois de ser salvo por Anna, personagem da brasileira Alice Braga, Neville conta uma história vivida por Bob Marley, seu cantor preferido, também é tocante. O roteiro é baseado no livro I Am Legend, de Richard Matheson, da década de 1950 (que ainda não li), e há outras adaptações anteriores para o cinema, uma dos meados dos anos 60, outra do início dos 70 (e que ainda não assisti a nenhuma delas). Só sei que esta versão com Will Smith é uma das melhores do gênero.

O LIVRO DE ELI - típico filme em que você pode pensar: "É bom, mas podia ter sido bem melhor". Denzel Washington está excelente como Eli, o andarilho de um planeta destroçado por uma guerra nuclear que tenta, há cerca de 30 anos, chegar à costa oeste norte-americana. Ele acaba se metendo em confusão com arruaceiros de uma pequena cidade comandada por Carnegie, interpretado pelo grande Gary Oldman, que deseja encontrar um certo livro que lhe daria poder para comandar todas as pessoas. Eli carrega esse livro, que é a Bíblia Sagrada, mas não quer se desfazer do mesmo, pois acredita que precisa levá-lo ao oeste em segurança. Dá-se início a uma caçada desesperada por Eli e pelo livro por terras que viraram verdadeiros desertos, e uma moça (a belíssima atriz Mila Kunis) acaba se envolvendo com o andarilho em sua fuga dos capangas de Carnegie. As cenas de luta são incríveis, os efeitos visuais são ótimos. Mas você percebeu alguma semelhança deste enredo com o do livro A Estrada? O fato de o protagonista querer alcançar o oeste dos EUA? Pois vou dar outra dica: em uma rápida sequência de cenas, em que Eli e a moça encontram um casal de velhos morando sozinhos numa casa no meio do nada, há uma insinuação de que o casal seja canibal, como no livro de McCarthy. Ou seja, na minha opinião, houve alguma espécie de cópia de ideias, e acredito que isso tenha sido feito pelo roteirista Gary Whitta, já que o romance de McCarthy havia sido lançado cerca de um ano antes dele assinar contrato com os estúdios que produziram O Livro De Eli. Basicamente por essas "coincidências" tão coincidentes é que digo que o filme podia ter sido melhor, se houvesse um pouco mais de criatividade no enredo.

E então? Você aí, tem outras dicas pós-apocalípticas pra discutirmos/compararmos aqui? Puxe um banco e sinta-se à vontade.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Trilogia da Escuridão

Marlon Villas


Olha, vou dizer uma coisa que já deve ser batida: essa onda de vampiros já surgiu detonando com a paciência de muita gente.

Não me entenda mal. Quero dizer que os vampiros podem ser criaturas do imaginário humano bastante interessantes, mas tem escritores por aí (né, dona Stephenie?) que avacalham com os sugadores de sangue de tal maneira, e tem tanta moçada que ainda diz que vampiros purpurinados e outros afins são legais, que fico me perguntando se o fim dos tempos não teria sido uma boa ideia, afinal, neste ano que acabou de findar.

Aliás, desejo um feliz ano novo pra todos. Menos pra Stephenie.

Só que tem escritores que ainda procuram salvar a boa reputação dos vampiros, como monstros sem alma e  cheios de crueldade e insensibilidade. Foi por isso que resolvi ler até o fim a Trilogia da Escuridão. Confesso que, no início, fiquei com o pé atrás, mas depois relaxei, vendo que a dupla de autores da Trilogia levou seu trabalho bem mais a sério do que vejo em todo canto ultimamente.

Estes livros - Noturno, A Queda e Noite Eterna - foram criados a quatro mãos por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan. Del Toro é bem conhecido por ser diretor de alguns bons filmes de ação, sendo talvez mais famosos os dois que contam aventuras loucas do filho do demônio, Hell Boy, além de entrar como participante no roteiro de O Hobbit, recentemente estreado nas grandes telas e dirigido por Peter Jackson, o mesmo que dirigiu a saga de O Senhor Dos Aneis. Hogan é um escritor premiado, com alguns de seus romances também adaptados para o cinema, mas ainda sem a mesma fama que a de Del Toro.
(Fonte: diversas.)

Noturno inicia a saga vampiresca com a cena de um avião vindo da Europa e que pousa em Nova York, mas não há uma única comunicação via rádio, assim como também ninguém desce da aeronave. Logo percebe-se que algo de muito estranho aconteceu com todos os tripulantes, e pensando se tratar de um possível ataque terrorista ou de algum tipo de infecção por um vírus poderoso, polícia, forças armadas e um grupo do Controle de Doenças da cidade é chamado para acompanhar a situação. Os corpos encontrados são enviados para autópsia, mas nem todos estão mortos. Logo uma epidemia começa a se espalhar rapidamente, pois aqueles considerados defuntos são vistos caminhando, com algum tipo de mutação física e com uma vontade assassina e sem limites, o que dá mais vazão à suspeita de infecção por algum vírus desconhecido. Basicamente todo o enredo do primeiro volume é sobre os especialistas procurando descobrir a causa da epidemia que vai tomando conta de toda Nova York.

Em A Queda, algumas pessoas já estão totalmente cientes de que uma invasão de vampiros tomou conta da cidade e começou a contaminar todo o resto do planeta a uma grande velocidade. Um velho estudioso e matador de vampiros ajuda um grupo de resistência formado por uma epdiemiologista e sua colega e namorada, um exterminador de ratos de origem russa e um ex-líder de gangue mexicano. Vem a necessidade deles se apoderarem de um livro perdido que conta a história do surgimento da praga vampiresca, onde esperam buscar respostas para eliminar o Mestre, como é chamado o senhor dos sugadores de sangue, e com ele, toda a raça de monstros que são controlados por ele por alguma forma de poder psíquico.

No último volume, Noite Eterna, a humanidade já virou escrava para trabalhar a serviço dos vampiros, além de servir de alimento e de produzir novos seres humanos para manutenção do gado humano, como são chamados todos os que se curvaram ao Mestre. O livro perdido, Occido Lumen, é achado e o esforço do grupo de resistência para decifrá-lo e descobrir o ponto fraco do senhor dos vampiros, além de se manterem vivos toma conta das páginas. E acho que já falei demais sobre toda a história.

Agora o interessante sobre a construção dos vampiros pelos autores: eles usam de argumentos científicos para explicar a praga vampiresca, mostrando que o vampirismo é literalmente uma doença transmitida por vermes que contaminam o corpo do hospedeiro. A transmissão é feita por um ferrão desenvolvido na garganta, e não por dentes pontiagudos. Devido ao ferrão, um vampiro não possui o dom da fala, mas se comunica por telepatia. Entretanto, Del Toro e Hogan mantiveram algumas características clássicas, desde a primeira descrição de uma criatura sugadora de sangue no livro Drácula, de Bram Stoker, como o fato de que tal criatura só pode atravessar uma massa de água com a ajuda de um humano, ou que não suporta o contato com a luz do sol. Além disso tudo, misturaram aspectos bíblicos e históricos aos científicos já citados. Acredito que a trilogia se torna interessante por tratar os vampiros como verdadeiros predadores brutais, porém com certa verossimilhança ao conhecimento humano, e não apenas como uma criatura mágica, sem origem definida e fruto de superstições.

Antes de surgir o primeiro filme, caso você tenha ficado curioso, é bom conferir os livros. Porque, com toda a certeza, já está havendo algum movimento em Hollywood para transpor a trilogia para o cinema. Aliás, você já pode ter um gostinho do que fizeram como book-trailer por aqui.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Contato

Danilo Altman

Carl.
(Fonte: http://devaneiostolos.com/)

Sempre tive a tendência para o nerdismo. Quando criança acordava cedo no sábado para assistir documentários da National Geographic que passavam na Globo. Tinha interesse principalmente naqueles sobre inseto e os sobre Egito antigo. E de domingo adorava ver o Globo Ciência. Mesmo o Globo Rural eu não perdia, sempre tinha algo interessante em meio as notícias sobre a cotação da arroba do boi zebu. Mas nenhum desses exerceu tamanho fascínio sobre mim quanto a série Cosmos, produzida e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan. Desde então posso dizer que Carl Edward Sagan é uma das minhas pessoas preferidas em toda a existência humana. 

Olha o currículo do sujeito: Doutor em astronomia e astrofísica pela Universidade de Chicago, ele trabalhou nos projetos da NASA Apollo, Mariner, Viking, Voyager e Galilleu. Além disso ele foi professor de astronomia e ciências espaciais, publicou inúmeros livros e artigos e é tido como um dos grandes divulgadores da ciência em todos os tempos. Além de tudo isso, Sagan era um poeta. Quem já assistiu Cosmos, leu alguma coisa  ou viu alguma entrevista dele já sabe. Seu amor pela ciência, pela cultura e pela busca do conhecimento eram impressionantes e foram destiladas em cada palavra dele.

Dito tudo isso, não sei por que demorei tanto para ler Contato. 

O livro, lançado em 1985, conta a história da astrônoma Eleanor Arroway e sua participação no projeto SETI. Pra quem não sabe este é um projeto real, que busca evidências de vida inteligente fora da Terra através do monitoramento de radiofreqüência. A ideia básica do projeto é apontar um radiotelescópio para uma estrela e, através da análise da radiação eletro-magnética captada, determinar se esta é natural (emissões da própria estrela) ou se  possui alguma lógica, como sinais com repetições ou sequencias bem estabelecidas, o que a configuraria como uma transmissão de alguma civilização inteligente.

Contato.
(Fonte: http://imagens.pontofrio.com.br/)
Na história acompanhamos a Dra Arroway desde sua infância e formação (tanto de caráter quanto científica) até o momento em que ela finalmente consegue captar sinais que possivelmente são provenientes de seres extra-terrestres habitando algum planeta em órbita da estrela Vega, assim como as consequências desse contato. Esse deve ter sido um dos livros mais bem escritos que já li em toda minha vida. A história engloba todos os aspectos de um possível contato com seres extra-terrestres e mostra como isso se refletiria na sociedade, na ciência, nas religiões e na política. Além disso, Sagan dá vida a personagens complexos, multidimensionais e plausíveis. A construção da personagem principal se dá de uma forma completa e esta poderia ser a biografia de uma pessoa real. A obra foi pensada em cada um de seus pormenores, sendo profunda, completa e sem falhas.
 
O livro é bem mais do que uma ficção científica. É um debate sobre ciência e fé, sobre política, sobre relações humanas, sobre astronomia. Tudo isso sem nunca deixar de prender a atenção dos leitores sobre seus personagens ou sua história. Para quem já leu ou viu qualquer outra coisa de Sagan, dá pra perceber que Eleanor é o próprio autor dentro da história. Sua paixão pela ciência e seus argumentos fortes e inteligentes sempre me soavam com a própria voz de Carl. E este passeio pelo cosmos dessa mente privilegiada é um dos maiores prazeres que já tive desde que fui alfabetizado.
Dra. Arroway na pele de Jodie Foster.
(Fonte: http://arquivoufo.com.br/)

Terminada a leitura, fui atrás do filme baseado no livro, lançado em 1997, o qual também curti muito. O diretor Robert Zemeckis conseguiu enxugar o texto e transpor a história de forma competente para as telas. Ter a excelente Jodie Foster no papel principal também foi de grande valia. Entretanto, recomendo que, mesmo quem já assistiu à película, que leia o livro, já que este se aprofunda bem mais em alguns pontos da história, trazendo a tona muito mais detalhes em todos os aspectos da história do que seu irmão da sétima arte.

Contato é uma obra única. Uma prova de que ao menos na Terra existe vida inteligente.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O Repouso do Guerreiro

Marlon Villas
 
Esta é a estória de amor mais intensa que já li, depois de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. E olha que Heathcliff e Catherine me fizeram pensar que eu tinha entrado em algum cenário de horror gótico, ou coisa parecida.
 
Capa da edição.
(Fonte: 3bp.blogspot.com/)
O Repouso do Guerreiro é o segundo romance da francesa Christiane Rochefort, e foi publicado originalmente em 1958. Marcos Salvatore, quando de uma visita minha a sua residência com direito a Brahmas, Almsteds e um Quinta do Morgado, me emprestou o livro dizendo que o sujeito era muito a minha cara. Conferi.
 
Não, Marcos, ainda bem que não sou, nem de longe, o sujeito do romance. Mas se você queria me assustar de certa maneira, acho que conseguiu. Vamos ao enredo.
 
Geneviève de Theil é uma jovem estudante que recebe a herança de uma tia, e vai averiguar toda a situação dos bens recém-adquiridos numa cidadezinha no interior da França. No hotel em que se hospeda, acaba salvando, por uma confusão de chaves de quartos, a vida de Renaud Sarti, um homem pouco mais velho do que ela, que tentava cometer suicídio logo ao chegar ao mesmo hotel, algumas horas antes dela.
 
A partir de então, os dois começam uma relação que, nem se vista do espaço sideral, pode ser classificada como normal, ou saudável: Renaud se mostra um alcoólatra niilista dos mais graves, um degenerado e um egocêntrico sem precedentes, que abusa moral e fisicamente de Geneviève, enquanto esta, gradativamente — o que é mais absurdo em toda a trama, do meu ponto de vista — está plenamente consciente do que lhe acontece, mas não consegue se desvencilhar do homem que a pisoteia como a um capacho na porta da entrada de casa. É como se ele se tornasse a sua droga particular, uma droga tão poderosa de que lhe era impossível abrir mão, sob qualquer circunstância.
 
No fundo, a obra não chega a ser precisamente um absurdo no contexto real das coisas. Afinal, infelizmente, sabemos todos disso, muitas mulheres, em maior ou menor grau, se submetem a este tipo de relacionamento que extrapola o bem estar e a sanidade mental, em alguns casos. Mas penso que, para muitos em geral, e especialmente para elas, a mesma obra é pesada de se aguentar.
 
A autora Rochefort.
(Fonte: 3bp.blogspot.com/)
No entanto, o romance fascina pela verossimilhança da realidade.
 
Humilhações em público, agressões físicas, litros e litros de álcool ingerido a toda hora do dia e da noite, indiferença e até um desprezo sem qualquer pudor por parte de Renaud ao amor de Geneviève encharcam as páginas deste romance de Rochefort, que era considerada uma escritora feminista. Fico imaginando que, se estivesse em seu lugar, eu teria muita dificuldade em fazer brotar esta estória no papel.
 
Um adendo: foi realizada uma versão cinematográfica do romance e lançado em 1962, onde a grande estrela foi Brigitte Bardot, a musa das telas francesas naquela década.
 
O título da obra, a meu ver, claramente se explica no final, mas isso eu não contarei: prefiro que você me diga depois.
 
 
Título: O Repouso do Guerreiro (original: Le Repos Du Guerrier)
 
Autora: Christiane Rochefort
 
Editora: Abril Cultural
 
Número de páginas: 250