segunda-feira, 18 de março de 2013

The Sunset Limited

Marlon Villas



Pros mais chegados, não é novidade que eu goste de temas pesados para discussão. E a filosofia vem bem a calhar em muitos desses momentos de exercitar o raciocínio.

Então o que posso dizer quando vejo duas coisas que adoro, o cinema e a filosofia, unidos numa coisa só? É um prato suculento, com bastante tempero e cheiroso só esperando por mim. E ele estava esperando, bem quietinho, na prateleira de uma locadora de vídeos no ano passado.

Cheguei como quem não tá nem aí, o DVD olhou pra mim, eu fiz que não era comigo, mas me aproximei e o encarei. Li a sinopse na contracapa e fiquei intrigado: que diabos é isso? Um filme de 1 hora e meia em que, pelo jeito, só aparecem dois atores? Fiquei ruminando e, quando dei por mim, já pedia para a atendente registrar a locação no meu nome.

Não fui eu: foi ele que me obrigou a carregá-lo para casa.

Liguei o home theater, coloquei o disco lá dentro, preparei um lanche rápido e sentei no sofá. Ainda não tinha entendido direito sobre o que se tratava a história do filme, de início a tal sinopse me pareceu rasa demais. Depois compreendi o porquê: é o tipo de obra que você precisa descobrir sozinho e tirar suas conclusões. Botar a cabeça para funcionar mesmo. Mas é claro que essa compreensão só veio nos créditos finais.

Mal sabia eu.

Primeira cena: um trem passando em uma estação. Há um barulho alto dos trilhos sendo arranhados, e a impressão de que algo muito grave acontece com alguém naquele momento, na estação.

Na cena seguinte, me encontrei dentro de uma quitinete bem pobre, enquanto Tommy Lee Jones se encontra ali dentro, ainda tentando entender por que tinha ido parar naquele lugar, enquanto Samuel L. Jackson procura deixá-lo à vontade. E logo noto que ambos estavam antes na estação, sendo que Jackson havia acabado de salvar Jones de se atirar na frente do trem. É aí que começa uma das conversas mais longas e sensacionais que eu já presenciei na minha vida.

Jones, um professor de filosofia ateu, desgostoso com a vida e com o mundo, decidira se suicidar se lançando na frente do Sunset Limited, nome do comboio que passava àquela hora, início de madrugada. Jackson, um ex-presidiário e funcionário de subemprego em alguma fábrica e cheio de convicções religiosas, não permitiu que o outro fizesse aquilo, por uma questão de humanidade. E por isso leva o professor para seu humilde lar e busca compreender os seus motivos para aquilo que ele considera um ato de desespero ou de falta de perspectiva. Tommy Lee tenta sempre buscar uma forma de ir embora, mas Samuel o convence diversas vezes de que ele não deveria partir, que ficasse um pouco mais. A discussão entre os dois vara as primeiras horas do dia que ainda não amanheceu.

E essa discussão se estende por vários assuntos. É impressionante como os dois discorrem sobre verdades, incertezas, vida, morte, amor, religião, felicidade, conhecimento e mais e mais e mais, com tamanha naturalidade, enquanto tomam café, enquanto tomam uma sopa, ou quando Jackson põe água em sua planta no vaso perto da janela. Por diversos instantes você pode ter a sensação de que é simplesmente uma conversa entre dois conhecidos e que nada de mais acontecera algumas horas atrás. Mas nenhum jamais tinha visto o outro antes, e tudo aquilo teve seu início a partir de um ato: o suicídio, ou ao menos a tentativa de um.

Jackson pergunta, Tommy Lee responde, Jackson provoca, Tommy Lee ironiza, Jackson procura uma brecha na argumentação do outro, Tommy Lee se mantém firme. Tudo isso sem saírem da quitinete, mais especificamente da sala. Não existe uma dica muito clara/explícita sobre o que concluir de todo o diálogo entre o professor ateu e o ex-condenado religioso. Arrisco a dizer que você possivelmente fica com uma sensação de que é você mesmo, o espectador, quem deve botar os pingos nos is da história.

Decididamente não é um filme para quem é fissurado em efeitos especiais, ou para quem detesta debates. Vi alguns comentários internet adentro de pessoas que não gostaram, e entendo bem porquê. Claro que uma história dessa não vai agradar a maioria, que só quer saber de filmes facilmente digeríveis, de preferência pré-mastigados para não comprometer o funcionamento cerebral. Mas o que vou dizer agora não é exagero: ao final, fiquei uns bons minutos sem me tocar que estava de boca aberta. A primeira coisa que disse foi um palavrão bem alto, logo a seguir concluí que precisava urgentemente de uma cerveja.

The Sunset Limited é baseado em uma peça de teatro de mesmo título do escritor Cormac McCarthy, mesmo autor dos livros A Estrada e Onde Os Fracos Não Têm Vez, que também viraram obras de cinema. A direção ficou a cargo do próprio Tommy Lee Jones, que mostrou, além de uma ótima interpretação, um poder de saber conduzir o roteiro com muito pouco em termos físicos.

E olha: precisei de mais do que somente uma cerveja naquela noite.

Título: The sunset Limited (original)
Lançamento: 2011
Direção: Tommy Lee Jones
Duração: 91 minutos

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sound City: Real To Reel (2013)


Dave Grohl é a pessoa ligada à música que mais gosto. Longe da revolução punk dos tempos de Nirvana, no Foo Fighters Grohl desenvolveu uma boa fórmula, um rock de arena palatável para grandes multidões e para as rádios, mas sem cair na bunda-molice que geralmente se encontra nesse tipo de música atualmente. É uma das mais honestas e interessantes bandas de rock'n'roll mainstream da atualidade.  
Entretanto, eu gosto mesmo é quando Grohl assume as baquetas. Como baterista ele gravou alguns álbuns clássicos, como (obviamente) o Nevermind do Nirvana, o Songs for the Deaf do Queens of the Stone Age e o auto-intitulado cd do Them Crooked Vultures, além de participações e projetos diversos, como sua homenagem ao heavy metal, o Probot, e a recente participação na nova jóia do metal, o sueco Ghost.
Dave, o fã de Slaaaayeeeeer
Além de simpaticíssimo e carismático, o líder do Foo Fighters também é hiperativo. Ao decretar férias para sua banda principal ele não demorou à encontrar novos projetos. Dentre eles a gravação de um novo álbum com o Queens of the Stone Age e a produção de um documentário sobre o lendário estúdio Sound City. Foi lá que muita gente boa gravou. Como por exemplo, o próprio Nirvana, Neil Young, Greatfull Dead, Santana, Metallica, Kyuss, Queens of the Stone Age, Red Hot Chilli Peppers, Elton John, Tool, Black Crowes...
E claro que esse documentário geraria música também. Assim Dave juntou um time de músicos que em sua maioria (se nao todos) já utilizaram o Sound City em gravações e produziu uma excelente trilha sonora para o filme.
O trabalho abre com a guitarrenta Heaven and All que conta com Robert Levon Been e Peter Hayes, músicos do Black Rebel Motorcycle Club. A faixa lembra bastante a sonoridade da banda em seus melhores momentos. Agitada e barulhenta, a música foi uma excelente escolha para abertura do cd, com sua levada garage rock ao  estilo do clássico MC5.
Time Slowing Down trás nos vocais e guitarra Chis Goss da banda Stoner Rock Masters of Reality e a "cozinha" do Rage Against the Machine. A música entretanto soa como um ótimo hard rock. Chegamos então a uma das minhas faixas preferidas, You can't fix this que tem nos vocais a ex-Fleetwood Mac Stevie Nicks. Uma pseudo-balada meio sombria como se fazia nos anos 1980.
As duas próximas são as musicas "punk" do álbum. Na verdade The man that never was se parece bastante com as faixas mais barulhentas do Foo Fighters (talvez por contar com praticamente toda a banda de Grohl), enquanto You wife is calling é mais violenta, me lembrando até alguma coisa do The Stooges. Um inesperado solo de gaita dá um charme a mais pra faixa.

Alguns dos músicos que tocaram no álbum.
Corey Taylor é um dos grandes vocalistas da geração atual. Gosto muito quando ele canta de verdade, não ficando limitado apenas aos guturais que usa no Slipknot. Sei que tal banda tem uma legião de fãs, mas acho o cara um talento desperdiçado. Uma pena que não rolou a entrada dele no Velvet Revolver, adoraria ouvir o que ele produziria ao lado dos ex-Guns'n'Roses. From can to can't, a música que Corey canta, é uma balada metal, que começa com um dedilhadinho a la Scorpions e acaba ganhando os riffs de guitarra mais pesados do álbum.
Josh Homme é o principal convidado de Centipede. Uma das melhores do cd, a faixa, que poderia ser do Them Crooked Vultures, começa com um bonito dedilhado e descamba para uma destruição sonora lotada de riffs e bateria pesadas
A trick with no sleeve é a primeira a ganhar clip. Talvez como homenagem a Alain Johannes. Parceiro habitual de Grohl em diversos projetos, o ótimo multi-instrumentista acaba sempre sendo eclipsado por nomes mais conhecidos. Aqui entretanto ele assume os holofotes ao cantar esse ótimo rock de arena.
Sem dúvida nenhuma o convidado mais ilustre do cd é Sir Paul McCartney. Em Cut me some slack o ex-Beatle é acompanhado pelo "Nirvana". Ou seja, Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear (guitarrista que tocou com a banda em suas últimas turnês). A música é um rock'n'roll sem frescura, como deve ser.
Nas duas últimas faixas Grohl assume o microfone. If I Were Me é uma baladinha com violões e piano. Bonita música, mas não considero das melhores do cd. Já Mantra era o encontro que eu mais aguardava, juntando à Grohl os gênios Joshua Homme e Trent Reznor. A faixa é um épico de quase 7 minutos, uma mistura de Queens of the Stone Age com elementos eletrônicos do Nine Inch Nails. Coisa linda.
Apesar dos diferentes músicos envolvidos o cd não parece uma colcha de retalhos. Claro que cada convidado acabou levando sua música para o lado de sua banda de origem, mas Dave soube dar a "liga" necessária e, ao contrário do que poderia se esperar de um cd assim, Sound City: Real to Reel não é daqueles cds de grandes altos e baixos, com duas ou três faixas bacanas e as demais descartáveis. O cd é inteiro ótimo, pra se ouvir do início ao fim. Bem alto de preferência. 
Se a ideia era mostrar que o Sound City é um lugar inspirador, de onde saem ótimas músicas, então Dave foi bem sucedido. Fica agora a curiosidade para assistir ao documentário.

Álbum: Sound City: Real to Reel
Artista: Vários
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   RCA

segunda-feira, 11 de março de 2013

Powder Blue, ou o famigerado Ponto de Partida

Marlon Villas



Poderia resumir assim: Ponto de Partida (2009) é um bom filme; Ponto de Partida não chega a ser tudo isso. Mas não vou fazer uma coisa dessa, mesmo porque tenho que escrever um pouco mais do que um parágrafo aqui.

Poderia ser de outra forma: Ponto de Partida não chega a ser tudo isso, com exceção da fantástica e exuberante Jessica Biel, que ainda por cima faz o papel de uma stripper sensualíssima e com pitadas de masoquismo.

Aliás, que nomezinho mais fuleiro esse que arranjaram para o filme aqui no Brasil, hein. O original é muito melhor (Powder Blue), convenhamos.

Fiquei sabendo desse filme alguns meses atrás e resolvi assistir pensando que seria um daqueles filmes que deixa o espectador pensando e pensando no final. Infelizmente comigo não foi assim, mas acho que tem uma explicação pra isso.
Jessica B.

A trama toda é montada com aquele velho artifício de se contar várias histórias, cruzando as vidas das personagens entre si. Até aí nada de mais. O problema que eu vi no roteiro é que, por mais que a gente perceba o sofrimento de cada um no desenrolar da película (e olha que todo mundo ali sofre pra diabo, cada um à sua maneira com suas culpas e/ou desilusões), fiquei com a impressão de que já vi algo parecido.

Em todo caso, assista ao filme, não acho que você vá se arrepender, se gosta de dramas densos.

Uma moça (Jessica Biel), que acabou por se tornar stripper para pagar as contas médicas do filho que há muito tempo está em coma numa cama de hospital. Um homem por volta dos cinquenta anos (Ray Liotta) que saiu recentemente da prisão e que, para alcançar uma espécie de autorredenção, tenta ajudar a stripper de alguma forma. Um ex-religioso (Forest Whitaker) que saca todo o dinheiro que possui em uma conta bancária e busca pela cidade alguém que possa lhe matar com um tiro, pois não aguenta mais a vida. Um rapaz (Eddie Redmayne) que herda uma funerária do pai e não parece ter qualquer tipo de vida social.
Ray L.

Há também a participação do falecido Patrick Swayze, que morreu de câncer no pâncreas ainda no mesmo ano de lançamento da obra. Ele interpreta um dono da boate onde Jessica trabalha e é um sujeito intolerante e insensível. Ah, e Lisa Kudrow também, a eterna Phoebe Buffay, do seriado Friends, aparece como uma garçonete também sem muitas expectativas sobre seu próprio futuro.

Existem cenas pesadas, eu diria que quase beirando o surreal, porém perfeitamente plausíveis. Como as cenas de Whitaker interpelando um travesti e o rapaz da funerária em momentos diferentes, suplicando para ser morto, é chocante. Aliás, passagens magníficas, porque justamente são com Whitaker, um sujeito pra quem tiro o chapéu todas as vezes que o vejo atuando.
Forest W.

Também existem cenas belíssimas e muito comoventes, como o momento em que Jessica descobre que seu cachorro, que ela havia perdido, está com Redmayne e vai até o seu apartamento-quitinete recuperar o animal. Ele ainda não a conhece e pede para que ela não vá embora, então ela sugere que se deem um abraço. Depois disso, ambos desejam um novo abraço, pois percebem o quanto isso faz falta em suas vidas tão tristes.
Patrick S.

Mas acho que eu esperava mais, de certa forma. Acredito que algumas passagens ficaram a desejar em relação a diálogos ou exageros completamente desnecessários. O final eu nem vou comentar. Também me pareceu que algumas coisas em Ponto de Partida foram retiradas de outros filmes, não consegui ver o trabalho todo como algo tão criativo como imaginei que era. Talvez o problema principal seja esse: ter visto muitos filmes parecidos entre si. Isso não tira o mérito dos atores, que estão todos maravilhosos. Dá até vontade de confortar cada uma das personagens ali e dizer que tudo vai dar certo, mesmo que acabe não dando. Porque tudo nesse filme remete à esperança, por mais que ela, a esperança, humilhe e pisoteie e espanque e cuspa na sua cara.

PS.: nunca me apaixonei tanto pela Jessica Biel como nesse filme.

Título: Ponto de Partida (Brasil) / Powder Blue (original)
Lançamento: 2009
Direção: Timothy Linh Bui
Duração: 145 minutos

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pérolas perdidas dos anos 80


Se existe um tempo que ficou marcado com carinho nas memórias de quem o viveu (e, em muitos casos, mesmo de quem nasceu depois) foi a década de 80. A produção cultural daquela época foi intensa. Na música, o pós-punk e a new wave dominavam, mas além desses inúmeros outros gêneros e estilos se criaram e/ou se estabeleceram, como a NWOBHM, o Thrash  Metal e o Hip-Hop. Os quadrinhos acabaram por se tornar "coisa séria", principalmente por causa dos trabalhos de Alan Moore, Neil Gaiman e Frank Miller. E no cinema foi um festival de filmes que hoje consideramos clássicos. Os Indiana Jones, os De volta para o futuro, Os Goonies, dois filmes da série Star Wars, E.T., filmes do Stallone e do Scharzenneger, Curtindo a vida adoidado... se você parar para pensar em títulos de filmes que ama daquela década não vai conseguir mais parar, são dezenas. 
Assim, não é de se espantar que alguns bons títulos tenham caido no limbo do esquecimento. Resolvi destacar aqui alguns destes que acho que merecem ser lembrados ou conhecidos pelas gerações mais novas.

Viagem ao mundo do sonhos (Explorers, 1985). Desta lista acredito ser o mais "esquecido". Dirigido por Joe Dante, um dos maiores diretores do cinema infanto-juvenil/aventura light que Hollywood já teve (são dele, por exemplo, os dois Gremmlins, Loucademia de Polícia e Meus vizinhos são um Terror), o filme trás em seu elenco dois jovens que seriam grandes estrelas, Ethan Hawk e River Phoenix. É interessante que neste filme Phoenix faz papel de nerd-meio gordinho-esquisitão que fica muito longe dos papeis de galã bad boy que ele logo assumiria em sua carreira (curta, infelizmente).
A história gira em torno de três garotos que passam a ter sonhos recorrentes e à partir de um diagrama visto acabam por criar um campo de força controlável por computador. Com esse campo de força eles acabam por construir uma pequena nave e vão de encontro aos seres que lhes enviavam os sonhos. Sci-fi juvenil das melhores!

Viagem Insólita (Innerspace, 1987) Mais um filme de Joe Dante na lista. Este filme revisita conceitos do clássico Viagem Fantástica (Fantastic Voyage, 1966), porém adicionando novos e interessantes elementos. Neste filme Dennis Quaid é um piloto de caças envolvido em um projeto ultra-secreto de miniaturização. Seu personagem é colocado dentro de um submarino e diminuído para ser injetado em um coelho, como teste. Terroristas invadem o laboratório justo nessa hora e ele acaba indo parar no corpo de um neurótico caixa de supermercado.  Ao contrário do filme mais antigo, Viagem Insólita é mais voltado para a comédia e tem até alguma influência de filmes de espionagem como os do 007. Um dos bandidos, com sua mão mecânica, poderia muito bem ter saído da galeria de vilões do famoso agente britânico.
O filme dosa bem essas diversas facetas e é divertidíssimo do começo ao fim. 

O milagre veio do espaço (Batteries not Included, 1987). Uma pequena obra prima. Moradores de um prédio que resiste bravamente à especulação imobiliária recebem a visita de um casal de discos-voadores. Sim, isso mesmo, um casal. Tais discos-voadores são uma mistura de nave espacial com robôs. O filme transita entre o sci-fi e a comédia, fazendo um tipo de aventura light que não existe mais nos dias de hoje. Impossível não sentir uma empatia enorme por todos os moradores do prédio, do casal de velhinhos que tem uma lanchonete à um ex-boxeador aposentado, passando pela futura mãe solteira e pelo jovem pintor. E claro, pelos simpáticos visitantes alienígenas, que mudam completamente o destino de todos aqueles com quem interagem.





Uma noite de aventuras (Adventures in babysitting, 1987). Re-assisti esses dias. Na verdade é super inverossímil e bobo, mas sua inocência e despretensão fazem parte do charme. A história é super simples. Uma babá recebe um apelo desesperado de uma amiga para que a busque na rodoviária e, vendo-se sem outra opção, acaba levando as crianças junto com ela. Claro que o que era pra ser uma simples carona acaba dando errado e, parafraseando o locutor dos comerciais da Sessão da Tarde, essa "turminha se mete em altas confusões". 


Se lembra de mais alguma pérola dos anos 80? Compartilhe aqui nos comentários!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Ninguém Pode Saber (2005)

Karina Pimenta


Com o título original Dare mo Shiranai, este drama japonês relata a história real de quatro crianças abandonadas à sorte pela mãe. Em meados de 1980, a manchete foi amplamente divulgada em jornais de vários países. Um assunto polêmico, maus tratos com crianças pequenas em plena Tóquio. O assunto teve tamanha repercussão no Japão que foi criado então um filme a partir desse escândalo.

Ninguém Pode Saber, tradução para o português do título, traz o cerne do filme em si. Ninguém pode saber que, em um pequeno apartamento nos subúrbios de Tóquio, mora uma mãe solteira com quatro filhos, uma de cada pai. Ninguém pode saber que elas não têm estudo, e não frequentam a escola. Certa vez, quando questionada pela filha, a mãe diz que pelo fato de não ter pai, ela iria sofrer bullying. (Para quem não é familiarizado, bullying é um assunto realmente muito sério no país.) Nenhum vizinho os conhece, e as crianças nunca saíram de dentro do apartamento.

A mãe, jovem e infantil, frequentemente chega bêbada em casa. Ela precisa do filho mais velho para cuidar dela, uma cena que demonstra a necessidade de amadurecimento precoce do menino frente à imaturidade da própria mãe. Em inúmeras vezes, ela dorme fora de casa. Às vezes, passa semanas longe. Sem demais explicações, sem muitos diálogos. 

Em um esforço de tentar enganar a si mesma, ela envia envelopes de dinheiro para o filho, como se fosse ele o responsável por cuidar de todos os seus irmãos, tão crianças quanto ele. Faz o mercado, o almoço, e ainda estuda matemática sozinho. Após longos intervalos, a mãe retorna para casa. Como uma resposta à ferida causada pelo abandono, os filhos esquecem que foram esquecidos, e só querem um abraço apertado da mãe. Ela passa uns dias com eles, e depois some novamente.

A estrela do filme é, sem dúvida, o filho mais velho, Akira. Muitos jovem, com apenas 12 ele anos, ele se dá conta da situação à qual sua vida se encaminha. Meses seguidos sentindo a ausência da mãe, sem mais envelopes de dinheiro, as contas atrasadas, o corte de luz, o corte de água, os malabarismos para conseguir comida, deixando tanto os filhos quanto o telespectador presos na angústia da espera do retorno da mãe.

O receio a pedir ajuda de outras pessoas tem uma simples resposta: a fobia ao desmembramento dos irmãos pelo serviço social. Apesar disso, o desmoronamento da família se transforma em realidade, só não é físico. Estão juntos, mas arruinados em sua sorte. 

Você deve estar pensando "Mas que bela receita de filme dramalhão barato: história real + sofrimento + closes nos rostos de criançinhas, cheios de lágrimas". Mas, apesar de todos esses trágicos acontecimentos, não temos nada que remeta ao não-querido Fausto Silva em seu programa infame. O tema abandono é tão bem explorado neste filme que até a câmera mantém uma distância segura do telespectador. O sofrimento calado das crianças depende basicamente da atuação das próprias, e não de closes acompanhados de uma bela trilha sonora ao fundo. A bela atuação do ator mirim que interpreta o irmão mais velho, Yagira Yura, lhe rendeu uma premiação como melhor ator no Festival de Cannes com apenas 14 anos.

Deixo aqui uma recomendação de um filme estruturado, que retrata um triste acontecimento de forma inigualável, capaz de transmitir emoção sem utilizar diálogos. 

Bom filme a todos!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Into The White

Marlon Villas

Cartaz na Noruega.
(Fonte: http://all-artisans.com)

O garoto já é conhecido no mundo inteiro como o eterno Ronald Weasley, dos filmes da saga Harry Potter. Mas alguma coisa me dizia, há alguns anos, que ele tinha algo de especial como ator. E parece que tem mesmo, ao menos como um sujeito versátil naquilo que faz.

Into The White, sem título em português no Brasil até este instante, foi lançado recentemente, em agosto de 2012, na Noruega em Blu-ray e DVD, mas ninguém por enquanto confirmou se será lançado no Brasil da mesma forma, conforme alguns sites internéticos. O que posso dizer a respeito do filme é que se trata de uma história baseada em fatos reais. E que Rupert (falo mais no nome dele por ser o mais famoso do elenco, é claro, não que os outros atores não tenham atuações excelentes) mostrou algo bem diferente do que todos estão acostumados a ver em suas atuações como o melhor amigo do jovem e inseguro bruxo na série criada por J. K. Rowling.

Antes de continuar, devo acrescentar que Rupert Grint está demonstrando mais fôlego como ator de cinema fora da imagem de Weasley do que os outros famosos colegas de filmagem em Hogwarts, Emma Watson e Daniel Radcliffe.

O garoto Weasley, ou melhor, Grint interpreta um jovem soldado inglês que combateu na Noruega durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, em 1940. Ele e seu capitão, após serem abatidos em seu avião, acabam encontrando uma cabana no meio do deserto gélido do país, onde três soldados alemães, também derrubados em combate aéreo, já estavam alojados. No início, obviamente, há uma disputa entre rendição e controle de poder entre os inimigos, porém aos poucos todos percebem que precisam se unir não como militares, mas como homens para garantir a sobrevivência em um período inusitado, de privação e sofrimento.

O filme expõe aquilo que as forças armadas não podem admitir em momentos críticos (não que não possam reconhecer, o que é diferente): que um inimigo de guerra, no fundo, é apenas outro ser humano, como qualquer um. Não desejo entrar aqui em discussões sobre o que é certo e o que é errado na conduta de formação de militares de qualquer esfera, apenas que a obra, baseada em uma história verídica, aponta um fato bem claro. Tal fato é o de que, além de ideologias, políticas e regras institucionais rigidamente estabelecidas, existe algo mais profundo: a necessidade da humanidade enquanto um conjunto de seres sociais, que buscam alguns instintos primitivos de bando ou comunidade diante de adversidades.

Cena na cabana, onde se passa a maior parte do filme.
(Fonte: http://recantoadormecido.com.br)

Acredito que muitos de vocês já assistiram a outros filmes ambientados em conflitos armados com temáticas subjacentes similares a esta, mas escrevo sobre este em particular para que possam se interessar em conhecer uma parte da Segunda Grande Guerra do qual poucos, ao menos no Brasil, tenham ouvido falar alguma vez. E para verem que Rupert Grint, embora para sempre ficará em nossas memórias como aquele garoto ruivo e engraçado com uma varinha mágica nas mãos, pode ser também uma boa promessa como ator, que poderá nos deixar fascinados com suas atuações, por querer ser mais do que um ídolo jovem.

Título: Into The White
Lançamento: 2012
Direção: Petter Næss
Duração: 100 minutos

sábado, 16 de fevereiro de 2013

As aventuras de Tintim


A nona arte sempre esteve presente em minha vida. Como muitas crianças brasileiras eu lia muita Mônica, Cebolinha e toda a turma criada por Maurício de Souza. Uma coisa leva a outra, e logo fui apresentado aos quadrinhos do bárbaro gaulês Asterix e do repórter belga Tintim, colecionando vários volumes desses quadrinhos por volta dos meus 10-12 anos. Gostava de ambos personagens, mas meu fascínio maior era pelas aventuras do topetudo e seu cachorro Milú, com suas pitadas de mistério, intrigas internacionais, humor, ação e até ficção científica.
Tintim e seu fiel amigo Milu
O personagem foi criado pelo belga George Remi, que utilizava o pseudônimo Hergé, e teve sua primeira aparição em 10 de janeiro de 1929, no suplemento infantil do jornal Le Vingtième Siècle, sendo uma evolução de um personagem anterior de Hergé, o escoteiro Totor. Apesar de, ao menos à principio, a série ser direcionada à crianças, o autor sempre trouxe temas adultos aos seus quadrinhos. Assim, ao lado de situações cartunescas, personagens caricatos e com nomes como General Tapioca, podemos encontrar temas como tráfico de drogas, guerra, espionagem, assassinatos e máfias. Ao mesmo tempo que os Dupond escorregavam em cascas de bananas, o protagonista era capaz de pegar em armas e arriscar a vida em revoluções na América do Sul e no oriente.
A primeira fase do personagem é hoje vista de forma polêmica. Em álbuns como Tintim no país dos Sovietes, Tintim no Congo e Tintim na América, as histórias passam visões eurocêntricas e preconceituosas de seu criador. O mais discutido trabalho desta época é, sem dúvida, aquele em que o personagem vai para a então colônia belga. Retratando o povo local como ignorantes e usando traços estereotipados nos personagens negros, o álbum é hoje tema de discussão por seu suposto racismo. Anos mais tarde Hergé se desculpou, dizendo ser a história produto do ambiente e das informações que chegavam a ele em sua juventude.
Mais uma polêmica se deu quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha nazista. Impedido de publicar suas histórias no Le Vingtième Siècle, Hergé passa a ter seus personagens frequentando páginas de jornais nazistas. Entretanto, é possível perceber no álbum "O cetro de Ottokar", publicado durante esses anos, uma clara alegoria à posição anti-expansionista que o quadrinista imprime em sua história.
A grande virada do personagem se deu na história O Lótus Azul, de 1936. Durante a escrita, Hergé se tornou amigo do estudante chinês Zhang Chongren, que supervisionou toda a concepção da história e retratação de seu país natal. Considerada uma das obras primas do autor, O Lótus Azul marcou um imenso salto de qualidade nos trabalhos por ele produzidos. À partir deste ponto Hergé se livrou de preconceitos e passou a fazer um grande trabalho de pesquisa sobre cada lugar que utilizava em suas histórias. Sua habilidade como roteirista (passando a substituir histórias segmentadas e a tremenda sorte do protagonista por  argumentos mais intrincados) e sua técnica como desenhista também evoluíram enormemente. Seu traço limpo e a presença de ambientes altamente detalhados se tornaram uma marca registrada e foram influência para todas as gerações de desenhistas posteriores.
Alguns dos álbuns de Tintim
Nesta fase vieram as histórias que se tornaram verdadeiros clássicos dos quadrinhos. Aventuras a la Indiana Jones, O ídolo roubado, As 7 bolas de cristal e O Império do Sol, conspirações como em No país do Ouro Negro, A Ilha Negra e O Caso Girassol e ficção científica como em Rumo à Lua, Explorando a Lua e A Estrela Misteriosa.
Hergé e seus amigos
Caso você não tenha acesso às HQs e quiser conhecer o trabalho de Hergé, a melhor forma é através da série animada franco-canadense produzida pelas empresas Nelvana e Ellipse Animation no início dos anos 90. Dividindo as histórias em 39 episódios distribuídos por três temporadas, foram produzidas adaptações para todos as HQs, com exceção das duas primeiras, Tintim no país dos Sovietes e Tintim no Congo, além da inacabada história Tintim e a Alfa-arte. Acredito que esta série foi uma das mais bem sucedidas transições de mídia que já tomei contato. Utilizando as cores e traços (da fase mais desenvolvida) de Hergé, os desenhos traziam histórias praticamente Ipsis litteris daquelas encontradas nos álbuns  Mudanças aqui e ali, algumas pequenas adaptações e até melhoria o desenvolvimento de alguns pontos da trama (em uma história, por exemplo, Tintim escapa de um sequestro usando um serrote para sair de um carro, no desenho trocaram o serrote por um canivete, objeto infinitamente mais plausível de ser carregado no bolso por qualquer um) foram feitas de forma extremamente competente.
Hergé conseguiu dar vida a um universo único, entre o real e o cartunesco, entre o infantil e o adulto, fazendo de seus personagens ícones dos quadrinhos europeus. Não à toa, mesmo tantos anos após sua morte, Tintim, Milu, Capitão Haddock, Professor Girassol, os Dupond e tantos outros personagens se mantém vivos e queridos por legiões de fãns.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Fullmetal Alchemist (2003-2004)

Karina Pimenta


Para quem não é muito familizarizado dentro do vasto mundo dos animes, como eu, e gostaria de conhecer um muito intrigante, uma dica é Fullmetal Alchemist. Fullmetal Alchemist é um seriado/anime adaptado de uma série de mangás, com uma temporada de 51 episódios, cada um com aproximadamente 30 minutos de duração. Não se engane pensando que esse é mais um desenho japonês para crianças.

Imagine um mundo em que a alquimia é possível. Imagine pessoas que a estudam e a praticam. Neste universo, a alquimia é uma ciência, a mais avançada técnica científica, portanto, como toda ciência, tem regras que devem ser estritamente seguidas. Com a alquimia, é possível combinar uma variedade de materiais em estado bruto e transformá-los um objeto específico, colocando em prática o ideal que permeia toda a saga: o conceito da troca equivalente. De acordo com tais princípios, é possível obter qualquer objeto de desejo, contanto que seja pago o valor equivalente nessa troca. 

Alphonse e Edward são irmãos que, logo no início do anime, sofrem com a perda da mãe e se vêem órfãos. Sem pai, e totalmente sozinhos, buscam na alquimia uma alternativa para reavivá-la. Na teoria, como o corpo humano é formado por diversos elementos químicos, seria possível reconstituí-lo ao misturar os ingredientes nas devidas proporções. Entretanto, a transmutação em humanos é uma técnica proibida pelas leis que regem a alquimia. Como a graça de uma boa história é ver o circo pegar fogo, é claro que eles desconsideram esta informação e continuam o procedimento de trazê-la de volta à vida, e complementam o processo utilizando uma gota do próprio sangue para inserir informações genéticas à receita. 


Círculo de transmutação para realizar alquimia

Como esperado, eles falham, e o resultado é assombroso. Afinal, não é possível gerar uma vida utilizando matéria morta. Na troca equivalente pela vida da mãe, eles obtém um corpo sem alma, uma massa escura, medonha. O pior é que os ingredientes empregados não foram suficientes, e o preço a ser pago nesses casos é muito caro: a troca consumiu todo o corpo do irmão mais novo, enquanto o mais velho perdeu sua perna esquerda. No desespero, e assustado por ter perdido tanto seu irmão quanto sua mãe, Edward sacrifica o seu braço esquerdo para selar a alma do irmão pequeno em uma armadura, o primeiro objeto que viu em sua frente. E este é só o primeiro episódio!

Braço mecânico de Edward

Grandiosas cenas de explosões, muitas cenas de lutas, e a velha conhecida dualidade O Bem contra o Mal são parte da fórmula convencional, daquela receita que dá certo tanto para filmes como para animações. Neste caso, esta estrutura convive de forma harmoniosa ao lado de uma discussão intrigante sobre a ética dentro da ciência e, ao mesmo tempo, da religião. Qual o limite da sensatez na realização de experimentos com humanos? Ou mesmo: É possível um 'pastor' comandar toda uma cidade? Por que as pessoas se tornam tão vulneráveis e chegam ao ponto de obedecer, simplesmente? Qual teor de sofrimento deve ser atingido para cegar um indivíduo mentalmente?

Achei interessantíssima a crítica a estas entidades, sendo que os acontecimentos dão chance para o telespectador pensar a respeito. De uma maneira elegante, esse anime é capaz de passar uma mensagem madura empregando uma abordagem tranquila, com cenários bonitos e iluminados e ainda agrega tiradas bem-humoradas com personagens muito carismáticos. Super recomendado!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Luz . Câmera . CLIPE! (parte II)


videoclipe | s. m. : Curta-metragem que ilustra um tema musical ou apresenta o trabalho de um artista.  Sinônimos: clipe, teledisco.

         Para continuar a história dos videoclipes, decidi manter a definição presente no dicionário, para não perdermos o foco: no início os clipes eram apenas um modo de divulgar o novo trabalho de uma banda. Os Beatles ‘fizeram escola’ ao mostrar para seus fãs clipes com novas técnicas de filmagem, graças a acertada escolha de diretores como Michael Lindsay Hogg e Peter Goldman. Como o mundo reagiu após a tantas revoluções de som, imagens e vídeos?


1974 – 1982
         Os programas de TV australianos Countdown e Sounds, ambos iniciados em 1974, foram importantes para a popularização de videoclipes na Austrália e em outros países e, assim, estabelecer a sua importância como meio de promover lançamentos. Em 1974, o ex-radialista Graham Webb lançou um programa musical para adolescentes, o Sounds Unlimited­ – rebatizado em 1975 para Sounds - que passava nas manhãs de sábado. Como o programa necessitava de material, Webb conversou com Russel Mulcahy (funcionário de redação do canal sete) e lhe pediu para fazer algumas filmagens que acompanhassem músicas conhecidas, mas que não tivessem clipes. Usando este método, Webb e Mulcahy conseguiram cerca de 25 clipes para o show. O êxito dessa empreitada encorajou Mulcahy a pedir demissão do emprego que tinha e tornar-se um diretor em tempo integral, e assim ele fez clipes para várias bandas populares, como o AC/DC. Conforme os clipes iam ganhando popularidade, outros produtores também entenderam que os clipes estavam se tornando uma nova commodity no mercado musical. Embora com um orçamento muito baixo, o produtor de outro programa, Paul Drane (do Countdown), conseguiu criar vários vídeos memoráveis, como “It’s a long way to the top” e “Jailbreak”, ambas do AC/DC. Depois de ir para o Reino Unido em meados da década de 1970, Mulcahy fez videoclipes de sucesso para muitas bandas britânicas, como o ‘Video Killed the Radio Star’, do The Buggles (este clipe será importante em um post futuro, lembre-se dele). Lembram-se daquele clipe épico da Bonnie Tyler, o “Total Eclipse of the Heart”? Pois bem. Também é uma criação do Mulcahy.

Russel Mulcahy na década de 70 (acima, à esquerda ), nos anos 2010 (abaixo à esquerda), o vídeo produzido para o The Buggles (ao centro) e o famigerado/épico clipe de "Total eclipse of the Heart" da Bonnie Tyler (à direita)

         O programa Top of the Pops (do canal britânico BBC) começou a exibir vídeos musicais no fim da década de 1970, porém a emissora limitava o número de vídeos que poderiam ser exibidos diariamente. Eles perceberam que se um vídeo fosse interessante, as vendas de uma determinada música poderiam aumentar se os espectadores a vissem novamente na semana seguinte. Em 1975, a banda The Who lançou o filme Tommy, cuja trilha sonora era composta unicamente por músicas deles. O filme foi dirigido por Ken Russel e foi baseado no ‘rock-ópera’ homônimo. Ainda em 1975 foi lançado o mundialmente conhecido clipe de “Bohemian Rhapsody”, dirigido por Bruce Gowers , para que pudesse ser exibido no Top of the Pops. Alguns atribuem a esse clipe o início da ‘era MTV’.
 Em 1982, o lançamento do filme The Wall, dirigido por Alan Parker, transformou o duplo LP homônimo do Pink Floyd, de 1979, em um labirinto apocalíptico áudio-visual de letras, melodias, sons e imagens estilizados, sendo cultuado até os dias de hoje. Já o programa britânico, voltado ao rock, “The old Grey Whistle test” produziu um grande número de vídeos específicos para o programa durante as décadas de 70 e 80. Em 1980, David Bowie alcançou, pela primeira vez, a primeira colocação nas paradas britânicas em quase uma década, graças à perspicácia do diretor David Mallet com a direção do vídeo de “Ashes to ashes”.

Dois grandes musicais inspirados em álbuns musicais: Tommy (1975) e o aclamado  The Wall (1982)

         Enquanto isso, em terras americanas, o Video Concert Hall – com estreia em 1 de Novembro de 1979 – foi o primeiro programa de vídeos musicais exibido em todo o território yankee, quase 3 anos antes da MTV. Posteriormente, outro programa, também antecessor a MTV, também passou a exibir videoclipes. O Night Flight (com estreia em 5 de Junho de 1981) era um programa de variedades  do canal USA Network. Lá eram exibidos documentários, comédias stand up, filmes de baixa publicidade (ou filmes B), curtas e, claro, videoclipes, que passaram a ser exibidos como uma forma de arte e não como mera ferramenta de divulgação para artistas. Esse programa durou até 1988 e foi contemporâneo a MTV (que estreou em 1 de Agosto de 1981, quase 2 meses depois da estreia de Night Flight). Esse programa era uma espécie de MTV sem frescura: se a MTV censurava clipes, o Night Flight mostrava; se um clipe era banido da MTV, lá estaria o Night Flight pra salvar os mais curiosos. Para uma pequena lista de vídeos censurados pela MTV estadunidense podemos citar "Body language" do Queen (devido a supostas conotações homoeróticas), “Girls on Film”  do Duran Duran (que possui mulheres com seios à mostra durante uma luta) e “Girls, Girls, Girls”  do Mötley Crüe (por mostrar mulheres seminuas dançando). Alguns clipes eram exibidos apenas a madrugada, como If I could turn back time da Cher, em que ela usa uma roupa, digamos, reveladora.

Os canais de videoclipes dos Estados Unidos: Video Concert Hall (1979), Night Flight (1981) e MTV (1981)

A comédia musical de horror de 1975
Esse era um programa televisivo muito à frente de seu tempo. Se hoje há enxurradas de filmes-paródia, parte dessa história também está lá, nesse programa, que possuía quadros em que se produziam paródias de filmes do início do século passado. Além disso também exibia documentários Cult (como o “Ladies and Gentlemen, The Fabulous Stains”, que falava sobre 3 adolescentes que montaram uma banda punk feminina, só pra citar um bom exemplo) e filmes como o aclamado “The Rocky Horror Picture show”. O programa foi uma ótima opção para os espectadores daquela época, por oferecer uma programação diferenciada. Muito dizia-se que o diretor do programa, Stuart Samuels, possuía doutorado na história das ideias, ao querer compilar vídeos de maneira temática de maneira que eles pudessem se intercomunicar e que permitissem os espectadores tirar suas próprias conclusões sobre os vídeos. Talvez não à toa, Samuels merecesse a alcunha de ‘Doutor em História das ideias’, visto que ele foi professor de História na Universidade da Pensilvânia, deu aulas nos seminários anuais do Festival de Cannes e que tenha a autoria de um livro clássicos filmes Cult, entitulado Midnight Movies (que possui um documentário homônimo de 2005, que foi exibido no festival de Cannes daquele mesmo ano) que fala sobre filmes gore de baixo orçamento.
O Night Flight durou até 1988, sendo ressuscitado em 1990, até ter sua morte definitiva decretada em 1996. Eles nunca se consideraram rivais da MTV, ainda que eles passassem vídeos censurados pela mesma.

O grande Night Flight teve seu fim, mas não os videoclipes. A MTV continuou e prosperou na década de 80 ao consolidar os patamares dos videoclipes, e nos anos 90 ao espalhar seus tentáculos mundo afora. Mas isso ficará para o próximo post...


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Gravidade - Tess Gerritsen


 Dentre todas as pessoas que já conheci na vida, meu pai é a pessoa que mais lê. A mesa da sala dele vive lotada de livros, coisa linda de se ver. Em geral, ele comenta muito pouco comigo sobre os livros que está lendo, talvez por nossos gostos não serem tão parecidos, mas certa vez ele me mostrou este Gravidade, de Tess Gerritsen, e me garantiu "você gostaria bastante deste aqui". Passou algum tempo, mas finalmente li o volume. E não é que é adorei mesmo o dito cujo? O livro é uma ótima combinação de gêneros. A princípio é um thriller médico, mas com contornos de uma história policial e elementos de ficção científica, principalmente por se passar, em grande parte, na Estação Espacial Internacional, a ISS.
A autora norte-americana, filha de imigrantes chineses, é formada em medicina pela Universidade da Califórnia, por isso boa parte de seus livros é composta por thrillers médicos como este. Sua primeira publicação foi o conto "On Choosing the Right Crack Seed" que ganhou o primeiro prêmio em um concurso promovido por uma revista. Seu romance de estreia saiu em 1987 e desde que alcançou sucesso como escritora ela tem se dedicado apenas a isso, deixando a carreira como médica de lado.
 A primeira analogia que me veio a cabeça ao ler Gravidade foi "e se o Dr House estivesse em Alien, o oitavo passageiro?". Guardadas as devidas proporções é exatamente esta a proposta de Gravidade, mas ao invés do famoso ranzinza e sua equipe, o livro traz como personagens principais os médicos Jack McCullum e Emma Watson, um ex-casal. Ambos os personagens fizeram treinamento na NASA, mas apenas Emma conseguiu de fato se tornar uma astronauta, uma vez que Jack já teve pedra no rim, uma condição médica que o impossibilita de permanecer em microgravidade segundo as normas da agência espacial. A história começa com a ida da Dra Watson à ISS, onde ela logo enfrenta uma grande crise quando um de seus companheiros adoece gravemente e ela, como médica à bordo, deve, além de cuidar de seu paciente, tomar importantes e difíceis decisões.
A simpática Tess Gerritsen
Assim como os mestres Asimov e Clarke, Gerritsen tenta ancorar sua história em ciência real, tendo em sua vantagem o fato da mesma se passar nos dias atuais, não em um futuro distante, e em veículos e estações que existem de verdade. Cada capítulo é recheado de informações interessantíssimas sobre a vida dos astronautas e todo dia-a-dia da NASA, acredito até ter sido este o aspecto que mais me fascinou na obra. Mas diferentemente das histórias contemplativas e filosóficas destes autores clássicos da ficção científica, Tess conduz aqui uma história frenética, lotada de cenas empolgantes, desde o primeiro capítulo, que se passa em submarino, até sua conclusão. Assim, o livro não é indicado apenas para nerds aficcionados por ficção científica hard, mas também para quem gosta de aventuras com correrias contra o tempo, mistérios e desafios a serem superados pelos personagens.
A autora consegue transmitir todo o desenvolvimento da ação de forma clara e fácil e as imagens se formavam automaticamente na minha mente. O livro é um roteiro pronto para o cinema, lendo-o me sentia como vendo um filme durante todo o tempo. Acredito que o único motivo da publicação não ter sido levada às telas é o fato de que os ônibus espaciais, tão importantes no desenvolvimento da história, foram aposentados poucos anos após seu lançamento (1999). Ainda assim, se eu fosse produtor de Hollywood, apostaria fácil em uma adaptação para as telonas.