quarta-feira, 15 de maio de 2013

Homem Máquina - Max Barry


Certa vez parei para pensar e notei que praticamente todos os meus autores preferidos já estão mortos. Isso me deu desespero porque torna minhas opções de leitura finitas. O que vou ler na área da ficção científica quando acabar com toda bibliografia do Asimov, do Dick e do Clarke? Assim resolvi que me daria a chance de conhecer autores mais jovens, que estivessem vivos ou ao menos que eu nunca havia lido antes. Foi assim que acabei lendo este Homem Máquina, do australiano Max Barry.
Vou ser sincero, nunca tinha ouvido falar do autor ou do livro. Mas eu tenho vício de passear em livrarias e num desses passeios bati o olho na belíssima capa do livro. Peguei o livro, folheei, li a orelha, paquerei a capa. Como não era muito caro resolvi levar. Decisão mais do que acertada. Comecei a ler num sábado de manhã e só consegui largar o livro no domingo à noite, quando o terminei.
Em Homem Máquina somos apresentados ao Dr Charles Neumann, engenheiro muito habilidoso em criar as mais diversas coisas no super moderno laboratório da empresa Futuro Melhor e nada habilidoso no que se refere à relações pessoais. Em uma série de eventos (engraçadíssimos) ligados à procura de seu celular, Charles sofre um acidente e acaba perdendo umas das pernas. Em sua recuperação ele conhece a especialista em próteses Lola Shanks, por quem se apaixona, e recebe sua primeira perna mecânica. Intrigado pelo funcionamento da perna o engenheiro acaba criando uma prótese melhor. Tão melhor que ele acredita que sua perna natural também deveria ser substituída.
À partir deste ponto acompanhamos as transformações do personagem em uma interessante mistura de Sci-Fi e humor negro, com muitos toques de crítica social. Grandes livros de ficção científica são justamente aqueles que trazem inseridas em suas histórias fantásticas questionamentos sobre algum aspecto real da condição humana e Homem Máquina não desaponta nesse quesito. É possível encontrar no texto metáforas para as mais diversas questões, como consumismo (principalmente no que se refere à tecnologia), intervenções cirúrgicas cosméticas e interesses das grandes empresas, tudo costurado por um texto ágil e divertido, que prende o leitor que nunca deixa de se perguntar “até onde esse cara vai?”.
Max
Barry, que é engenheiro e já até trabalhou na HP, escreveu o livro de uma forma bastante moderna, publicando uma página por dia em seu site, deixando que seus leitores deixassem registradas correções e sugestões para a história. A edição final foi bastante modificada da versão do blog, mas a ideia não deixa de ser curiosa.
Devido a sua formação o autor traz muita bagagem à história, sabendo muito bem onde cutucar o mundo das grandes empresas e o dos engenheiros, fazendo com muito mais propriedade e talento o que o Big Bang Theory tenta fazer.
Ao terminar o livro senti um alívio. A ficção científica ainda tem muita lenha para queimar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Panela velha é que faz comida boa


Este parece ser o ano dos veteranos da música. Estão todos com novos trabalhos na praça e mandando super. Destaco abaixo alguns dos cds que mais me chamaram a atenção até agora.

Jimi Hendrix - People, Hell and Angels: O cara morreu faz mais de 40 anos e um cd seu com sobras de estúdio é mais relevante do que a maioria da produção atual. Se você não sabe porque Hendrix é considerado o melhor e mais influente guitarrista da história escute People, Hell and Angels e não tenha mais dúvida nenhuma. 
O trabalho é um passeio por diversas emoções. O solo da Hear my train a comin' é sobrenatural, me arrepia toda vez que ouço, já em Let me move you e Mojo Man a vontade é de sair dançando por aí. O álbum é um curso intensivo de blues, rock'n'roll e soul em 12 lições. Estude!

Seasick Steve - Hubcap Music: Seasick é um cara com uma história bem peculiar. Nascido em 1941, ele fugiu de casa aos 13 anos. Vagou pelo Tennessee e Mississipi, vivendo de pequenos bicos. Nos anos 1960 passou a excursionar com bandas de blues e a trabalhar como engenheiro de som e produtor. Também morou em Paris, nos anos 1990, onde se apresentava sozinho pelas estações de metro da cidade. Lançou seu primeiro álbum, Cheap, em 2004, aos 63 anos.
Hubcap Music apresenta uma sonoridade bem próxima do álbum anterior, You can't teach an old dog new trick, calcada em rock cru e blues eletrificado, com algum toquezinho de country music aqui e ali. Neste trabalho Seasick é acompanhado por uma banda formada pelo baterista Dan Magnusson e por ninguém menos do que John Paul Jones, ex-Led Zeppelin, no baixo, além da participação de Jack White na guitarra na faixa The Way I Do. 
O cd tem esse nome porque o instrumento que Seasick toca é caseiro, feito provavelmente por ele mesmo usando, entre outras coisas, duas calotas de roda (hubcaps). É pra ouvir no talo.

Dr John - Locked Down: Na verdade esse é do ano passado. 
Sabe pra que servem premiações e listas de melhores do ano? Para nos indicar coisas bacanas. Por exemplo, depois de ver a lista de indicados na categoria "melhor filme" no Oscar resolvi assistir um monte de filmes que, talvez, de outra forma eu não teria assistido. E no Grammy vi que este Locked Down do Dr John ganhou como melhor álbum de blues de 2012. Como já tinha visto esse álbum figurar  em várias listas de "melhores" de gente bacana no final do ano passado resolvi arriscar. E agora não consigo parar de ouvir! 
Com a produção e a guitarra de Dan Auerbach do The Black Keys o álbum tem uma sonoridade muito própria. Algo entre o rock'n'roll, soul e rythm and blues, mas o que mais me vem a cabeça ao ouvir esse trabalho são as trilhas sonoras dos filmes do Tarantino. Sabe aquele som sacana, dançante e malicioso que te faz lembrar de bares de strip tease enfumaçados? É mais ou menos isso. Imperdível. 


Deep Purple - Now What?! Eu via as notícias sobre esse cd e não dava muita bola. Veja bem, sou um grande fã dos caras. Os álbuns clássicos dos caras furaram de tanto que os ouvi e já fui em uns 3 ou 4 shows da banda. Mas sei lá, as músicas mais novas (leia-se dos 80s pra cá) nunca me apeteceram muito. Mas me deparei com o trabalho a dois cliques de distância, então porque não dar uma conferida, certo? A surpresa foi incrível! A banda está soando tão pesada e técnica quanto nos bons tempos de Machine Head. A interação entre o super guitarrista Steve Morse e o tecladista Don Ayrey (que aqui deixa pouco a dever ao grande mestre Jon Lord) é impressionante e confere lindos momentos instrumentais.
As quatro primeiras músicas são um um rolo compressor, só pedrada! Já na segunda metade do cd se ouvem mais baladas e momentos mais jazzy, mas tudo com o selo Deep Purple de qualidade. E ainda sobra tempo para a fantástica homenagem à um dos mestres do terror, o sr Vincent Price. Uma grata surpresa. 

Iggy Pop and The Stooges - Ready to Die: Que paulada! Nada de inovação, o que se ouve aqui é o massacre punk costumeiro da banda. E isso não é demérito nenhum! Poucos conseguem manter a qualidade depois de tanto tempo de estrada. Mas enquanto a grande maioria das bandas se torna cover de si mesmo, o Iggy Pop e seus Stooges tocam com a mesma pegada e atitude que tinham 40 anos atrás. Não vai mudar a história, mas a diversão é certa.

Veteranos fazendo bonito. Será que o Black Sabbath vai segurar a onda? 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Vikings (2013)

Karina Pimenta


Quando pensamos em History Channel, nos é familiar lembrar de documentários puramente baseados em fatos legítimos, recheado de detalhes e fatos históricos, com uma terceira pessoa narrando a linha do tempo. Tudo bem, também tem aquele programa absurdo dos Aliens, não lembro o nome, é super engraçado, mesmo não querendo ser. Mas o canal apostou diferente desta vez ao produzir um novo show com estrutura de seriado, com diversos episódios construindo temporadas. O mais relevante foi o tema, a propósito, uma bela escolha da produtora: "Vikings" estreou em abril desse ano e, com apenas alguns episódios lançados, já teve sua segunda temporada (dez episódios) confirmada para o próximo ano.


Ao contrário do que algumas pessoas comentam, eu não sou do time que acredita que o seriado só vem fazendo sucesso por conta da fama de Game of Thrones. Eu concordo que Vikings seja épico, tenha muitas cenas de luta, de guerras, tenha cenários e caracterizações de época mas, ao contrário de GoT, é baseado na história de um personagem que existiu, o lendário Ragnar Lodbrock (ou Lothbrock, depende da referência). A cultura da civilização viking é ícone de fascinação e/ou curiosidade para muitas pessoas, como pode ser constatado pelo sucesso do escritor Bernard Cornwell, que consegue escrever tantos livros épicos que se tornam best seller, como os da coleção Crônicas Saxônicas. Além disso existem diversos games inspirados no líder Ragnar, como Civilization III e IV e Medieval Total War.


A produção do programa é excelente, mesmo sendo o primeiro ficcional do History Channel. Eu não estava esperando muita qualidade, mas o seriado fala por si. Uma boa história, simples, mas bem construída, com atores desconhecidos que cumprem muito bem o seu papel. Ragnar Lodbrock é interpretado por Travis Fimmel (modelo australiano) e, na trama, Ragnar mora com sua família em um sítio e também é um audacioso guerreiro. Decide ir contra o senso comum ao explorar o desconhecido Oeste, na direção da Inglaterra. Ele é casado com Lagertha (Katheryn Winnick, canadense conhecida por Bones), e tem um irmão, Rollo, (Clive Standen, ator inglês, fez o irmão de Robin Hood) ambos com papéis muito importantes na história viking. O ator mais conhecido do seriado com certeza é Gabriel Byrne (Usual Suspects, Stigmata), que faz o papel de Earl Haraldson, líder viking inimigo das proezas e Ragnar.


Como era de se esperar de um seriado que já iniciou com a premissa ficcional, muitos fatos históricos são apresentados de forma ilegítima. Entretanto, existe também muita informação interessante sobre os costumes da civilização, como a religião e sacrifícios humanos, a navegação e seus barcos velozes que são fortes o suficiente para cruzar o mar, a violência dos atentados, os massacres, etc. Vale muito a pena se você estiver disposto a encarar como entretenimento! Domingo que vem é o último episódio da primeira temporada e, só para desabafar, estou esperando ansiosamente, muito mais do que GoT.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Ghost - Infestissumam (2013)


Do nada começaram a pipocar notícias e reviews sobre o Ghost. Não dei muita bola. Demorei a ter curiosidade sobre os caras. Mas depois de ver que até figurões como Phil Anselmo (Down, Pantera) e James Hetfield (Metallica) se declararam fãs e andavam por aí com camisetas do grupo deixei a preguiça de lado e fiz o download. Verdade seja dita, de cara não curti a banda. Achei leve demais e o timbre do vocal Papa Emeritus I não me desceu. Mas de repente me vi cantarolando algum riff ou melodia dos caras. E ouvi mais uma vez o álbum, só pra tirar teima. E mais uma. E outra. Logo já estava cantando todas as letras por aí. Não teve jeito,  também fui pego pela praga do Opus Eponymous, debut dos suecos. Já se passaram uns 2 anos desde meu primeiro contato e continuo ouvindo o cd sem parar.
O Papa e seus seguidores
Pra quem não sabe, o Ghost é uma banda que faz um resgate do heavy metal setentista, com influências de Blue Oister Cult e Uriah Heep e alguma pitada de Mercyful Fate. Desta última trouxeram principalmente o aspecto visual e teatral e as temáticas demoníacas. Para reforçar o aspecto sombrio a banda decidiu manter em sigilo as identidades de seus músicos. Alias, fora o vocalista Papa Emeritus I (agora Papa Emeritus II), que a imprensa acredita ser Tobias Forge, vocalista das bandas de death metal Repugnant e Subdivision, todos os outros outros cinco instrumentistas encapuzados são conhecidos apenas como Nameless Ghouls.
Dá para entender o rebuliço que o debut da banda causou. O contraste dos vocais suaves aliadas às belas melodias do hard rock/heavy metal setentista com as letras e visual obscuro e enigmático conferiram uma aura cult ao grupo. Aliás, não consigo parar de pensar que a banda é, além de uma grande homenagem as bandas clássicas, uma certa sátira à alguns clichés do metal. As letras de tão absurdamente satânicas (e até meio juvenis) passam a ser  engraçadas. Veja bem, isso não é uma crítica. Muito pelo contrário, acredito que a cada detalhe da banda foi pensado e repensado em cada pormenor e o Ghost é entretenimento puro. Desde as especulações sobre as identidades dos músicos até o que mais importa mesmo, o som.
Phil Anselmo, Dave Grohl e James Hetfield, fã club do Ghost
Com tudo isso veio a ansiedade pelo segundo álbum. O primeiro single liberado foi a "valsa" Secular Haze, que ganhou um clip no melhor estilo Black Sabbath. A música já mostrava o que seria ouvido no álbum, uma produção mais caprichada e uma atenção redobrada aos teclados. 
A banda fez excelentes escolhas na composição de Infestissumam. O primeiro aspecto é que não fizeram uma mera cópia do cd anterior. O grupo evoluiu e se aprofundou ainda mais em seu resgate da sonoridade setentista.  Seu som está até mais leve e melódico do que em Opus Eponymous, porém não menos carismático. Como já dito, a presença do teclado é bem mais forte e a adição de alguns corais gregorianos em certas faixas só acrescenta dramaticidade e consistência ao som do grupo.
O trabalho abre com a excelente instrumental que dá nome ao álbum, com bateria rápida e corais, já deixando o ouvinte em estado de alerta e preparando o clima para Per Asperi Ad Inferi, uma das mais pesadas do cd, com seu riff cortante e bateria militar em seu refrão. Esta é provavelmente uma das faixas que mais se parece com as do registro anterior.
Uma das diferenças entre este cd e o debut é a presença de "baladas". A primeira metade do épico Ghuleh/Zombie Queen é um exemplo, com seus teclados, piano e clima triste. A segunda metade da faixa começa com um efeito "tecnobrega" (o Ghost se inspirou em The Strokes?) e ela se torna uma das faixas mais agitadas e divertidas do álbum. Outra balada é Body and Blood, que poderia ter saído de qualquer cd da Mark III do Deep Purple.
Jigolo Har Megiddo, Idolatrine e Depth of Satan's Eyes são ótimos hard rocks. Todas com andamentos moderados em termos de velocidade, as faixas apresentam muita melodia e um clima até dançante, meio post-punk. Mostre essas músicas pra aquele seu amigo que acha que música boa é só aquela produzida nos anos 70 e pode apostar que ele vai amar.
A grande música do álbum (e da banda, ao menos até agora) é Year Zero. O coral cantando nomes de demônios dá espaço à riffs e andamentos que são ao mesmo tempo vintage e modernos. Impossível não se empolgar com esta faixa. Ela até já ganhou um clip bacaníssimo e bem sacado, cheio de subtextos, brincando com rituais católicos e pagãos, além da óbvia piada a respeito da identidade dos músicos. 
O trabalho fecha com Monstrance Clock. Imagino o King Diamond ouvindo esta e pensando "meus garotos" com um sorriso no rosto. Piano e um riff sabbatico dão o tom aqui. Só tome cuidado para não sair cantando em alto e bom som por aí "come together, together as one, come together, for Lucifer's son".
O desafio do segundo álbum está mais do que superado. O Ghost veio para ficar.


Álbum: Infestissumam
Artista: Ghost
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Loma Vista

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Da Natureza das Coisas - o poema que mudou o mundo para sempre

Marlon Villas

(Fonte: http://www.adrigomes.com)

Você já pensou alguma vez em como a nossa visão atual de mundo, a respeito de ciência, filosofia, até mesmo de política e de economia, foi moldada? Será que foi simplesmente uma evolução natural das variáveis do comportamento e do conhecimento humanos ao longo dos séculos e milênios? Ou essa visão terá sido impulsionada — melhor dizendo, rápida e radicalmente modificada — por conta de um poema antes dado como perdido para sempre?

A última hipótese parece, nesses termos, ser a mais improvável, porém é o que o livro A Virada — O Nascimento do Mundo Moderno, de Stephen Greenblatt, busca demonstrar, de acordo com uma pesquisa imensa feita pelo autor em cima de fatos históricos.

Stephen Greenblatt.
(Fonte: http://radioboston.wbur.org)

Poggio Bracciolini era um sujeito de família de pouca renda, que nasceu na Itália no ano de 1380. Com o passar do tempo foi se especializando em algo que, para quem não possuía um título de nobreza na família, como era o seu caso, poderia ser a saída, embora não garantida, para um futuro melhor: tornou-se um escriba, aquele que copia manuscritos e livros, já que ainda naquela época a imprensa de Gutenberg não havia sido inventada. Poggio acabou sendo aluno de alguns humanistas (homens que buscavam o conhecimento em obras clássicas da humanidade),  e adquiriu uma vasta cultura sobre textos antigos latinos e gregos, principalmente.

Quando havia alcançado a vida adulta, conseguiu um lugar como escriba ao lado de alguns bispos, até que finalmente, para um homem de sua posição social, alcançou o máximo posto de sua carreira como secretário apostólico no Vaticano, trabalhando bem próximo de alguns papas.

Até que, no início do século XV, com a queda do papa João XXIII (cujo nome de batismo era
Retrato de Poggio com quase 70 anos.
(Fonte: http://mhoefert.blogspot.com.br)
Baldassare Costa, um homem que terminou sendo acusado por dezenas de crimes — após sua destituição do mais alto cargo da igreja católica, o nome João XXIII ficou novamente disponível, e somente foi reutilizado no século XX por Giuseppe Roncalli, ao ser eleito em 1958), Poggio se viu de repente sem trabalho que lhe garantisse uma renda. Entretanto, já era obcecado por algo que muitos humanistas praticavam, que era a busca e descoberta de textos antigos e raros, como poemas, tratados filosóficos, cartas, qualquer escrito que demonstrasse algo que pudesse ser visto como relevante para a história humana.

Segundo fontes de pesquisa de Greenblatt, Poggio provavelmente (isso até hoje nunca foi muito bem esclarecido) adentrou o mosteiro de Fulda, no sul da Alemanha, em 1417, e lá encontrou o que seria um pergaminho de um antigo poeta chamado Tito Lucrécio Caro, que viveu algumas décadas antes do nascimento de Cristo. Hoje tal obra, intitulada em latim De Rerum Natura, ou traduzida como Da Natureza das Coisas, é considerada uma obra-prima do pensamento ocidental, e várias pistas indicam que foi a partir da disseminação deste poema (em parte) que a Idade Média foi dando lugar à Renascença, com sua influência sendo plantada por diversas áreas da criatividade humana, como ciência, filosofia e literatura, até mesmo pintura e escultura. Alguns nomes famosos da História ocidental teriam claramente tido contato com De Rerum Natura de Lucrécio, como Giordano Bruno, Nicolau Maquiavel, Galileu Galilei, Thomas Jefferson, Isaac Newton, Pierre Gassendi, Molière, Thomas More, William Shakespeare, Montaigne, entre muitos outros que, atualmente, são referências como grandes pensadores e realizadores do conhecimento.

A seguir, você tem listados (como está no livro A Virada) os pensamentos fundamentais da obra de Lucrécio, dispersos por 7400 versos :


  •         Tudo é composto de partículas invisíveis.
  •         As partículas elementares da matéria — “as sementes das coisas” — são eternas.
  •      As partículas elementares são de número infinito, mas limitadas em forma e tamanho.
  •         Todas as partículas estão em movimento num vazio infinito.
  •         O universo não tem um criador ou um projetista.
  •         Tudo vem a ser por resultado de uma virada.
  •         A virada é a fonte do livre-arbírtrio.
  •         A natureza experimenta incessantemente.
  •         O universo não foi criado para os ou em torno dos humanos.
  •         Os seres humanos não são únicos.
  •     A sociedade humana começou não com uma era dourada de tranquilidade e abundância, mas com uma batalha primitiva pela sobrevivência.
  •         A alma morre.
  •         Não há vida após a morte.
  •         A morte não é nada para nós.
  •         Todas as religiões organizadas são ilusões supersticiosas.
  •         As religiões são invariavelmente cruéis.
  •         Não existem anjos, demônios nem fantasmas.
  •        O objetivo mais elevado da vida humana é a ampliação do prazer e a redução da dor.
  •         O maior obstáculo ao prazer não é a dor; é a ilusão.
  •         Compreender a natureza das coisas gera um profundo embevecimento.

Uma das primeiras cópias impressas de Lucrécio.
(Fonte: http://blogs.law.harvard.edu)
Reconhece algo familiar em tudo isso? Não parece que muitas dessas afirmações são bastante comuns a nós hoje em dia? Percebe como muitas dessas mesmas afirmações eram extremamente radicais, consideradas inclusive heréticas pela Igreja, que controlava boa parte das sociedades naquele tempo, constituindo uma ameaça seriíssima a seus dogmas? Galileu, por exemplo, foi condenado por heresia, mas escapou da morte pela Inquisição por influência de alguns colegas. Giordano Bruno era um monge que não teve tanta sorte: acabou queimado perto da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Hoje existe uma estátua em sua homenagem exatamente no lugar onde ele foi executado.

Será tão estranho que um poeta grego vivido antes da era cristã tivesse tamanho discernimento acerca de todas as coisas? Na verdade, se você pensar que ele próprio, Lucrécio, foi influenciado por Epicuro e por Demócrito, dois filósofos que, segundo fontes históricas, deram origem ao atomismo e a como conhecemos hoje a estrutura da matéria, ao menos em termos gerais, não parece algo tão incomum.

Um manuscrito de Lucrécio.
(Fonte: http://commons.wikimedia.org)
A lista acima é bem explicada durante a leitura de A Virada, mais precisamente no capítulo 8, com o título Como As Coisas São. Só sei que hoje não consigo mais pensar na história moderna como pensava antes. Preciso achar este poema de Lucrécio, senão não vou conseguir dormir em paz outra vez algum dia. É algo que diz respeito basicamente a todos nós, cada pessoa que vive neste planetinha azul e que segue sua vida de acordo com certos preceitos de vida, sejam eles científicos, religiosos ou qualquer outra definição que você queira. 

Ou talvez seja só empolgação da minha parte.

Título: A Virada – O nascimento do mundo moderno (tradução brasileira) / 
The Swerve: How the world became modern (original)
Autor: Stephen Greenblatt
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 294

sexta-feira, 5 de abril de 2013

John Fante: os sonhos devastados e reconstruídos

Marlon Villas

John.
(Fonte: mail-attachment.googleusercontent.com)

Até poucos dias atrás eu não tinha tido a oportunidade de pegar um livro de John Fante em minhas mãos. Muito ouvi falar dele, de que era um escritor marginal ou coisa parecida, que não se importava em ter um estilo rebuscado como outros famosos escritores de sua época (aliás, estilo rebuscado seria algo que não faria o menor sentido em seus escritos) etc. Muitos outros escritores admiram ou admiraram sua obra. Um deles foi Charles Bukowski, de quem você já me viu falando aqui pelo menos duas vezes. Outro é Marcelo Mirisola, um paulistano da geração 90 de novos escritores brasileiros, irônico, crítico ao extremo e escatológico por excelência, com diversos livros lançados por diferentes editoras (quem sabe eu fale mais sobre ele num outro momento).

A primeira vez que descobri o nome de Fante foi quando avistei um pôster do filme Pergunte Ao Pó em uma locadora de vídeos anos atrás. Demorou mais um tempo para que eu assistisse à obra, protagonizado por Colin Farrell e Salma Hayek. A história me pareceu um pouco estranha, talvez porque eu não estivesse preparado para o que iria presenciar na tela da minha televisão. Depois fui entendendo melhor o enredo e, por fim, achei bem interessante.

Logo após isso esqueci John. Não me lembrava de procurar saber mais sobre o autor de Pergunte Ao Pó, livro que deu origem ao filme, com tantas outras coisas acontecendo, como por exemplo o fato de que eu tentava sair vivo, pelo menos respirando, da universidade onde me enfiei, ou então de arranjar um trabalho razoável com um diploma de nível superior debaixo do braço.

Até que outro dia entrei em uma livraria que não possuía um acervo muito grande de livros, e encontrei uma dessas edições de bolso de Sonhos de Bunker Hill, da editora LP&M.  Sonhos... é o último romance de Fante antes de sua morte, e que foi ditado à sua esposa pois o escritor estava cego e aleijado ao final de sua vida, por conta do diabetes do qual sofreu por anos até 1983, quando faleceu. Claro, soube disso apenas porque estava na contracapa. Eu ainda me perguntava: quem diabos é John Fante?

Capa da edição.
(Fonte: mail-attachment.googleusercontent.com)
Da mesma forma que em Pergunte Ao Pó, em Sonhos de Bunker Hill John usou mais uma vez seu personagem (e espécie de alter ego) Arturo Bandini como protagonista, um típico, clássico anti-herói, um sujeito meio ressentido que, entre empregos mal pagos, tenta se tornar um escritor de renome após o que sobrou da América com a grande crise de 1929. Neste livro ele chega perto da fama, quando consegue um lugar ao sol entre os roteiristas de Hollywood da década de 1930. Porém, por mais que desejasse escrever algo, qualquer coisa para se sentir útil, o seu chefe sempre diz que é para ele esperar o momento certo, e que “está fazendo um bom trabalho”. Mesmo sem atividade, Bandini ganha cheques polpudos um atrás do outro.

O aspirante a escritor ainda se mete em confusão com uma mulher, também escritora e rica, quando praticamente a ataca na praia durante o que deveria ser uma tarde relaxante para os dois. Envolve-se com a sua senhoria do prédio onde mora, uma mulher bem mais velha que ele, que no início julgava ser uma pessoa ruim, e que termina por gostar bastante dela.  Recusa-se a ter seu nome creditado a um roteiro de faroeste por princípios morais, roteiro este que foi totalmente modificado por outra escritora, e que havia sido o único que ele tinha escrito durante toda a sua estada em Hollywood. Arturo também dá a impressão, às vezes, de ser um tipo que, embora reclame de muita coisa e de muita gente, não possui uma certa coragem para enfrentamentos, pois em pelo menos duas ocasiões deixa bilhetes com palavras duras a pessoas que o aborreceram ou o decepcionaram. Como no caso em que, num jantar em um restaurante com um amigo, encontra o escritor Sinclair Lewis (pessoa real, o primeiro norte-americano laureado com o prêmio Nobel de Literatura, transformado aqui em personagem) e este o despreza publicamente. Enfim, um homem que busca um lugar no mundo e que ainda busca descobrir que lugar é esse.

Sonhos de Bunker Hill é um livro fácil e rápido de ser lido, e que me fez ter vontade de conhecer mais John Fante pela riqueza e simplicidade de suas palavras. Um escritor que não se preocupava em trabalhar e expor emoções, que abria feridas morais e sentimentais, sem regalias. É isso, sem dúvidas, o que John foi.

Título: Sonhos de Bunker Hill (original: Dreams of Bunker Hill)
Autor: John Fante
Editora: LP&M
Número de páginas: 166

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Lollapalooza - 30 de março de 2013


Este sábado fui ao festival Lollapalooza. Em primeiro lugar, achei o festival extremamente bem organizado. Quanto a estrutura dele não tenho nenhum ponto negativo para comentar, então vamos pro que interessa mesmo, os shows (só os que eu vi, obviamente)!



Tomahawk. Depois do Faith no More é a banda do Mike Patton que eu mais gosto.  Eu vinha acompanhando o setlist de shows anteriores dos caras e me surpreendi muito positivamente com o que apresentaram no Lolla. Começaram com a ótima Mayday e misturaram de forma bastante coerente músicas dos dois primeiros álbuns com algumas (muito bem escolhidas) do mais recente. Mas para mim o momento alto da apresentação foi a Totem, única representante do maravilhoso álbum Anonymous, apresentada por Patton como "música de macumba".

Quem já viu o vocalista a frente de qualquer uma de suas bandas já sabe o que esperar. Apesar de mais contido em relação às suas maluquices quando está com sua banda mais famosa, o cara é um frontman sem paralelos. O restante do Tomahawk também não fica pra trás, afinal o grupo é praticamente um dream team do rock/metal alternativo com Duane Denison (Jesus Lizard) na guitarra, Trevor Dunn (Mr Bungle) no baixo e John Stainer (Helmet) na bateria.
Em relação a banda não tenho dúvidas que foi um showzaço, porém, com pouca gente que conhecia/gostava dos caras na platéia acabou não sendo tão empolgante. Fico na expectativa de ver um show só deles, com mais tempo e mais fãs enlouquecendo ao meu lado.

Alabama Shakes. Me surpreendeu o número de gente esperando ansiosamente em frente ao palco. E todo mundo conhecendo e cantando as músicas! Nem parecia que estávamos diante de um grupo formado recentemente e que possui apenas um cd na bagagem. Quem disse que downloads ilegais são apenas prejudiciais para as bandas, hein?
O show foi excelente. É impressionante o quanto canta a vocalista Britanny Howard! 
Torço muito para que o Alabama Shakes continue evoluindo.

Queens of the Stone Age. Vou a shows faz 19 anos. Já vi de Alanis Morrissete à Brujeria e posso afirmar que poucas bandas são tão legais em cima de um palco como o QotSA. É muito peso, muita energia. Para mim, foi não só o grande show da noite como também um dos grandes shows que já presenciei na vida.
A banda se calcou no seu disco mais famoso, Songs for the Deaf, mas deu tempo de tocarem algumas surpresas como a inédita (e ótima) My God is the sun e a lisérgica Better living through chemistry.
Além disso foi a primeira apresentação do grupo com seu novo baterista, John Theodore, que é um monstro. A técnica e a brutalidade com que ele espanca sua bateria são impressionantes.
Claro que cada um tem suas preferências e outras pessoas podem ter gostado mais de outro show, mas a plateia mais empolgada e o show mais comentado do dia foi com certeza o do QotSA. 

A Perfect Circle. A difícil tarefa de tocar depois do QotSA. Apesar de adorar a banda e estar ansioso para vê-los reconheço que demorei umas 3 músicas pra entrar no clima da apresentação. Foi como sair de um jogo de Hóquei no gelo e ir ver um balé. 
Entretanto, passada essa minha fase de adaptação o que presenciei foi show lindíssimo. O segundo cd da banda, o Thirteenth Step, é um dos meus prediletos dentre os lançados no século XXI e ver aquelas músicas ao vivo foi uma emoção muito grande. Claro que faltou uma ou outra que eu gostaria muito de ter visto, mas o setlist dos caras foi incrível e a execução das músicas idem.

The Black Keys. O guitarrista/vocalista Dan Auerbach e o baterista Patrick Carney mostraram boa presença de palco, muita simpatia e tinham um setlist matador em mãos. Mas alguma coisa não estava certa. Faltou um pouco de pegada ao show. 
Atribuo isso a dois motivos em especial. O primeiro foi o som. Como o headliner do dia pode ter o pior som? Desregulado e baixíssimo, só consegui ouvir alguma guitarra depois de umas 4 ou 5 músicas. O que eu mais ouvi durante a apresentação da banda foi o cara do meu lado contando pra uma amiga que tinham roubado o celular dele. Isso por si só já era motivo para estragar a minha experiência. 
O segundo motivo: talvez o The Black Keys não seja uma banda para tocar para multidões. Acompanho os caras faz alguns anos e até pouquíssimo tempo atrás eles eram uma banda que devia tocar em lugares para 1000 ou 2000 pessoas. Não estou tendo síndrome de underground aqui, acho ótimo que mais gente esteja conhecendo e apreciando o competentíssimo blues rock da dupla, era uma banda que estava faltando no mainstream, mas acredito que o tipo de som que eles fazem ficaria melhor num ambiente menor e mais intimista, com um público que conhecesse mais da história deles e não apenas Lonely Boy. 
Em resumo, o show foi bom, mas poderia ter sido melhor.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pulp - a última grande tacada de Buk

Marlon Villas

Capa de edição de bolso.
(Fonte: farm6.staticflickr.com)
Foi uma boa opção para mim, que estava sem muitas opções (leia-se “disposição”) para sair de casa no último domingo. Eu já havia comprado o livro há alguns meses, porém o mesmo ficou esquecido junto a um pequeno monte de papéis sobre o balcão da cozinha. Vou procurar me vigiar de agora em diante que para que isso não volte a se repetir.

Segundo diz na contracapa, foi o último livro escrito por Bukowski antes dele falecer em 1994, alguns meses depois. E segundo diz na dedicatória, a novela é dedicada à subliteratura. Buk parecia, como sempre, estar pouco se lixando se os críticos literários apreciariam ou não seu trabalho intitulado Pulp, ao estilo das velhas histórias policiais, cheias de exageros e detetives de moral duvidosa, mulheres fatais, mistérios em cima de mistérios, enfim aquela miscelânea na qual se consagrou o estilo noir no cinema, a partir dos anos 1940.

Li todas as 176 páginas no mesmo dia. Acredito que tenha sido a leitura mais rápida que já fiz até hoje de um volume, mesmo se levar em conta a quantidade relativamente pouca de páginas. O estilo sem muitas preocupações estilísticas, marca bem conhecida de Charles Bukowski, me ajudou a devorar em poucas horas a história do detetive Nick Belane, um sujeito com poucas posses, que cobra barato por seus trabalhos de investigação (“Quanto é?” “Seis dólares a hora.” “Não me parece muito.” “Para mim, é.”), mete-se em brigas em quase todo bar que frequenta e que é contratado por Dona Morte, a própria, encarnada em uma mulher linda e extremamente atraente, que não deixa de ser alvo dos desejos sexuais do protagonista. Aliás, mulheres exuberantes e que despertam a atenção de Belane não faltam no livro.

O velho Buk mandando ver.
(Fonte: f.i.uol.com.br)
Dona Morte contrata o detetive para encontrar Celine, um escritor francês (que realmente existiu, e morreu em 1961, quase no mesmo dia que Ernest Hemingway) que ela acredita estar vivo. Com esta história a ser desvendada inicialmente, Nick Belane acaba se metendo em várias confusões, incluindo uma mulher que demostra ser uma alienígena, um certo Pardal Vermelho que é preciso encontrar, agiotas da máfia e muito mais.

É claro que, por se tratar de uma obra escrita pelo velho Buk, não faltam situações absurdas, um humor corrosivo e personagens que fogem completamente ao senso comum. Mas tudo, como dito antes, criado a partir das características noir de antigos escritores de mistério policial, como Dashiell Hamett, Raymond Chandler e David Goodis, dentre vários outros.

Aliás, isso me faz lembrar que estou devendo (ao menos para mim) um texto sobre filmes noir. Tentarei fazer isso, só não vou estabelecer um prazo pra você. Aí seria demais.

Pulp é o tipo de história excelente para quem gosta de uma mistura de mistérios, personagens sem-noção e situações hilárias, além de palavrões, bebidas e sexo. Sem contar o fato de que é uma novela com a assinatura de Charles “Hank” Bukowski, um mestre na arte de chocar e surpreender, por favor.

Título: Pulp
Autor: Charles Bukowski
Editora: LP&M
Número de páginas: 176

domingo, 24 de março de 2013

Cosmos, Carl Sagan (1980)

Karina Pimenta

Na faculdade eu tive o prazer de ter um professor maravilhoso, tanto como pessoa quanto como profissional. Em uma oportunidade, estive presente em uma palestra de química para um grupo de alunos do ensino médio. O Dr. Edvaldo Sabadini discursou sobre a dimensão microscópica do universo dos átomos, dos elétrons, dentre outras partículas, que são basicamente o material de estudo dos alunos de química. Também ressaltou a árdua tarefa de tentar compreender esse mundo tão pequeno em tamanho e, de uma maneira muito inteligente, o professor equiparou o grau de dificuldade do mundo infinitesimal com medidas imensas como o universo. Para finalizar, apresentou um episódio do DVD Cosmos (1980), de Carl Sagan que foi tido como inédito para o conjunto dos alunos, nascidos por volta do ano de 95. Foi assim que eu relembrei daquela série antiga, quando eu era criança demais para entender o que se passava no programa.

Acho que é válido eu esclarecer que eu não entendo praticamente nada de astronomia. Eu gosto do assunto, mas não sei explicar detalhadamente absolutamente nada. Às vezes eu tento, mas sempre fico com uma dúvida aqui ou ali. A título de curiosidade, comecei a assistir alguns episódios da série Mistérios do Universo, com Morgan Freeman, também um ou outro da série Wonders of Universe, ambos da BBC e, é claro, os episódios de Cosmos.
Carl Sagan
Cosmos é um livro da autoria de Carl Sagan (1943-1996), e foi lançado em 1980. Recheado de ilustrações, aborda em 13 capítulos diversos assuntos relacionados à ciência e civilizações. Carl Sagan transmite tópicos científicos de elevada complexidade na forma de uma agradável leitura, como se ele estivesse conversando com o leitor. O livro fala de curiosidades históricas sobre filósofos, e introduz suas contribuições relacionando-as com a ciência moderna.

O sucesso rendeu ao autor o prêmio Hugo Award for Best Non-Fiction Book. A série de televisão Cosmos, que conta com a participação do autor, contribuiu para a sua divulgação e transformou a obra em um best seller, sendo o primeiro livro de ciências a vender mais de meio milhão de exemplares antes de ter sido traduzido para outros idiomas. No final daquela década, Stephen Hawking bateu o recorde de vendas de Carl Sagan ao lançar o livro Uma Breve História no Tempo.

Box de DVD's Cosmos
Eu assisti aos episódios da TV recentemente e notei que, na série Cosmos, temos uma outra noção de tempo, bem diferente dos documentários que vemos passando hoje em dia. A informação é a mesma, entretanto, sem aquele monte de imagens e fotos rápidas, música acelerada. Esse ponto de vista é bem interessante porque pode ser uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que os conceitos são apresentados de uma forma mais lenta e não são vomitados no telespectador, algumas pessoas podem se entediar. Não é cansativo de jeito nenhum, é calmo, devagar.

A começar pela música, em Cosmos temos uma bem escolhida seleção de clássicos! E podemos chamar cada episódio de aula, porque Carl Sagan segue um modelo para seu show que se inicia com um exemplo prático, um assunto palpável e relacionado com o dia-a-dia. Em seguida, entra com a matéria propriamente dita, emprega vídeos e animações para auxiliar na explicação (mas não esperem muito das animações da década de 80). E, para finalizar, volta aos exemplos e encerra o assunto. 

A didática é tamanha que Carl Sagan consegue explicar de forma muito simples como descobriram que a Terra é redonda em poucos minutos. Um outro exemplo é o calendário cósmico, onde a idade do Universo, 13.7 bilhões de anos, é dividida em 12 meses, começando em janeiro, com o Big Bang, terminando nos últimos segundo de dezembro, com o aparecimento do homem. A revista Superinteressante, dentre diversas fontes online, adoram usar essa figura. Já viram? É batido, mas funciona! E Carl Sagan é tido como aquele que popularizou o calendário cósmico, buscando contextualizar a vasta idade do universo.

Calendário cósmico (Fonte: Wikipedia)
Gostei muito, principalmente porque o conteúdo não fica preso somente em astronomia, mas relaciona-se também com biologia, por exemplo. E dá para sentir, a cada palavra, a paixão que Carl Sagan sente pelo seu trabalho, dentro de cada episódio. Posso dizer, orgulhosa, que aprendi com ele como somos ao mesmo tempo insignificantes em massa mas, ao mesmo tempo, muito importantes para a nossa própria compreensão. Deixo a dica para vocês!

terça-feira, 19 de março de 2013

David Bowie - The Next Day (2013)


Não tem como deixar passar em branco um super lançamento como este, né? Como você já deve estar sabendo, o cantor/ator/produtor/alienígena/camaleão/etc David Bowie apareceu depois de muito tempo sem dar qualquer notícia para lançar um novo álbum intitulado The Next Day, seu primeiro registro em dez anos. Após deixar o álbum no repeat por uma semana acho que já estou apto a falar sobre ele.
O cd abre de forma bastante forte com a faixa que dá seu nome. Um rock'n'roll energético e dançante com uma certa pegada Rolling Stonica, principalmente nas guitarras. Ouvindo a faixa me vem a cabeça a imagem de um show lotado, com o publico pulando e cantando enlouquecidamente. Uma música simples, mas grudenta e eficiente.
A sequência com Dirty Boys, The Stars (are out tonight) e Love is Lost é minha parte preferida do trabalho. Uma música melhor do que a outra. Enquanto a Dirty Boys transita entre o rock e o jazz, com seu acompanhamento de metais e seus tempos quebrados, The Stars... volta ao rock básico.  A música já ganhou um fantástico clip e é fácil de entender o porquê de ter sido escolhida como single. A guitarra sempre presente e sua estrutura em crescendo que explode no refrão tem tudo pra se tornar um dos grandes hits da carreira de Bowie. Já me peguei cantando ela alto no busão algumas vezes. Love is Lost fecha esse primeiro terço do cd de forma soberba com seu baixo pulsante, teclado altíssimo dando um aspecto sombrio para a música e guitarras distorcidas que surgem em ótimos fraseados e riffs. A linha vocal criada por Bowie confere um tom de urgência para a faixa.
Então vem o único ponto fraco do trabalho. Where are we now? é uma baladinha pra tocar em baile da terceira idade. Chata que só. E por falar em baladas, o cd tem mais algumas (felizmente bem melhores), como Valentine's Day, que poderia ter aparecido em algum LP antigo do inglês. Seu andamento e sonoridade remetem à um amalgama de músicas romanticas dos anos 60 e 80. Entretanto, a melhor balada do cd é a épica You feel so lonely you could die. Corais, pianos, cordas... a faixa podia ter descambado para a breguice, mas o cantor consegue fazer de tudo isso um momento genuinamente emocionante. 
Uma das músicas mais interessantes é a agitada If you can see me. A bateria dela parece ter sido inspirada pela fase drum and bass do camaleão (do álbum Earthling, de 1997), entretanto sendo tocada "organicamente". Extremamente trabalhada e criativa é sem dúvida uma de minhas preferidas do álbum.
I'd rather be high tem um andamento militar (mais ou menos como a Sunday Bloody Sunday do U2) e um bonito refrão. Boss of me reúne um monte de elementos de forma elegante. Guitarras, metais, partes mais paradas, outras mais agitadas, corais... tudo de forma orgânica e bem equilibrada. Já uma das mais alegres e dançantes é a Dancing out in space
How does the grass grow é uma das grande pérolas. Com um "quêzinho" de hard rock, a faixa traz linhas de teclado bacanas, bateria bem trampada e uma das onomatopéias mais divertidas dos últimos tempos. Te desafio a escutar a música e não ficar com esculaxados La la la las na cabeça. O solo de guitarra é outra coisa linda. E por falar em solo de guitarra, um dos melhores é da post-punk (You will) Set the world on fire, faixa que evoca Bauhaus todo o tempo.
A densa Heat fecha o trabalho. Se a faixa de abertura foi a escolha certa, a de fechamento também não poderia ser melhor. Lenta, depressiva e épica, Heat é hipnotizante. Coloque-a no fone de ouvido, feche os olhos e boa viagem pelas sensações e sentimentos que a música vai te trazer.
No alto dos seus 66 anos David Bowie ainda mostra como se faz. Dá um banho em um monte de bandinhas que se acham modernas e lançou um cd digno não só de sua própria discografia como também das famosas listinhas de melhores do ano. Na minha com certeza The Next Day vai estar.
Álbum: The Next Day
Artista: David Bowie
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Columbia

segunda-feira, 18 de março de 2013

The Sunset Limited

Marlon Villas



Pros mais chegados, não é novidade que eu goste de temas pesados para discussão. E a filosofia vem bem a calhar em muitos desses momentos de exercitar o raciocínio.

Então o que posso dizer quando vejo duas coisas que adoro, o cinema e a filosofia, unidos numa coisa só? É um prato suculento, com bastante tempero e cheiroso só esperando por mim. E ele estava esperando, bem quietinho, na prateleira de uma locadora de vídeos no ano passado.

Cheguei como quem não tá nem aí, o DVD olhou pra mim, eu fiz que não era comigo, mas me aproximei e o encarei. Li a sinopse na contracapa e fiquei intrigado: que diabos é isso? Um filme de 1 hora e meia em que, pelo jeito, só aparecem dois atores? Fiquei ruminando e, quando dei por mim, já pedia para a atendente registrar a locação no meu nome.

Não fui eu: foi ele que me obrigou a carregá-lo para casa.

Liguei o home theater, coloquei o disco lá dentro, preparei um lanche rápido e sentei no sofá. Ainda não tinha entendido direito sobre o que se tratava a história do filme, de início a tal sinopse me pareceu rasa demais. Depois compreendi o porquê: é o tipo de obra que você precisa descobrir sozinho e tirar suas conclusões. Botar a cabeça para funcionar mesmo. Mas é claro que essa compreensão só veio nos créditos finais.

Mal sabia eu.

Primeira cena: um trem passando em uma estação. Há um barulho alto dos trilhos sendo arranhados, e a impressão de que algo muito grave acontece com alguém naquele momento, na estação.

Na cena seguinte, me encontrei dentro de uma quitinete bem pobre, enquanto Tommy Lee Jones se encontra ali dentro, ainda tentando entender por que tinha ido parar naquele lugar, enquanto Samuel L. Jackson procura deixá-lo à vontade. E logo noto que ambos estavam antes na estação, sendo que Jackson havia acabado de salvar Jones de se atirar na frente do trem. É aí que começa uma das conversas mais longas e sensacionais que eu já presenciei na minha vida.

Jones, um professor de filosofia ateu, desgostoso com a vida e com o mundo, decidira se suicidar se lançando na frente do Sunset Limited, nome do comboio que passava àquela hora, início de madrugada. Jackson, um ex-presidiário e funcionário de subemprego em alguma fábrica e cheio de convicções religiosas, não permitiu que o outro fizesse aquilo, por uma questão de humanidade. E por isso leva o professor para seu humilde lar e busca compreender os seus motivos para aquilo que ele considera um ato de desespero ou de falta de perspectiva. Tommy Lee tenta sempre buscar uma forma de ir embora, mas Samuel o convence diversas vezes de que ele não deveria partir, que ficasse um pouco mais. A discussão entre os dois vara as primeiras horas do dia que ainda não amanheceu.

E essa discussão se estende por vários assuntos. É impressionante como os dois discorrem sobre verdades, incertezas, vida, morte, amor, religião, felicidade, conhecimento e mais e mais e mais, com tamanha naturalidade, enquanto tomam café, enquanto tomam uma sopa, ou quando Jackson põe água em sua planta no vaso perto da janela. Por diversos instantes você pode ter a sensação de que é simplesmente uma conversa entre dois conhecidos e que nada de mais acontecera algumas horas atrás. Mas nenhum jamais tinha visto o outro antes, e tudo aquilo teve seu início a partir de um ato: o suicídio, ou ao menos a tentativa de um.

Jackson pergunta, Tommy Lee responde, Jackson provoca, Tommy Lee ironiza, Jackson procura uma brecha na argumentação do outro, Tommy Lee se mantém firme. Tudo isso sem saírem da quitinete, mais especificamente da sala. Não existe uma dica muito clara/explícita sobre o que concluir de todo o diálogo entre o professor ateu e o ex-condenado religioso. Arrisco a dizer que você possivelmente fica com uma sensação de que é você mesmo, o espectador, quem deve botar os pingos nos is da história.

Decididamente não é um filme para quem é fissurado em efeitos especiais, ou para quem detesta debates. Vi alguns comentários internet adentro de pessoas que não gostaram, e entendo bem porquê. Claro que uma história dessa não vai agradar a maioria, que só quer saber de filmes facilmente digeríveis, de preferência pré-mastigados para não comprometer o funcionamento cerebral. Mas o que vou dizer agora não é exagero: ao final, fiquei uns bons minutos sem me tocar que estava de boca aberta. A primeira coisa que disse foi um palavrão bem alto, logo a seguir concluí que precisava urgentemente de uma cerveja.

The Sunset Limited é baseado em uma peça de teatro de mesmo título do escritor Cormac McCarthy, mesmo autor dos livros A Estrada e Onde Os Fracos Não Têm Vez, que também viraram obras de cinema. A direção ficou a cargo do próprio Tommy Lee Jones, que mostrou, além de uma ótima interpretação, um poder de saber conduzir o roteiro com muito pouco em termos físicos.

E olha: precisei de mais do que somente uma cerveja naquela noite.

Título: The sunset Limited (original)
Lançamento: 2011
Direção: Tommy Lee Jones
Duração: 91 minutos