terça-feira, 24 de setembro de 2013

Rock in Rio 2013

Não vou ficar aqui esmiuçando cada show, cada setlist ou falar mais do mesmo. Muito já se comentou e ainda se comenta sobre cada show. Pretendo, com esse post, apenas fazer algumas observações quanto ao festival. 
Para mim esse Rock in Rio foi diferente e, até mesmo, especial. Não pude estar lá, fisicamente, para acompanhar as bandas que eu gostaria de ver, mas aproveitei cada instante e cada pedacinho pelo streaming, com direito a um chat via gtalk com meu amigo que está morando em Belo Horizonte e minha amiga que, até então, estava na Austrália, sendo que eu estava em Campinas (SP).


Do que vi no Rock in Rio (RiR), constatei algumas coisas: 

Slayer. Sofrendo com os engenheiros de som no Rock in Rio. 
1 - O RiR é um festival fantástico e com uma estrutura incrível, mas ainda precisa superar problemas como mixagem (como ocorreu com o Slayer) e em que palco colocar as bandas. Não só nós reclamamos de algumas coisas como colocarem o Kiara Rocks no palco mundo e o Rob Zombie no palco Sunset (que é bem menor, diga-se de passagem), mas teve até banda que reclamou disso. O Destruction, que tocou no último dia do festival, não gostou de ter que dividir o palco com o Krisiun ( e reclamou publicamente quanto a isso). Porém a banda brasuca soube dar uma 'amaciada' nos alemães e os chamaram pra tocar Total Desaster, do próprio Destruction

Offspring. No palco SUNSET !?

2 - As contradições dos próprios organizadores. O palco Sunset é, alegadamente, um palco para participações entre bandas. Contudo, como explicar o Offspring e o Rob Zombie, que tiveram shows solo?  
Verdade seja dita: ambos mereciam o palco Mundo. 


GHOST BÊ-CÊ ??


3 - Realmente o público brasileiro não está pronto para coisas novas. O Ghost que tem músicos bons e que tem todo um apelo teatral fez um bom show, que não foi apreciado pela enorme maioria do público presente (ainda que houvesse pessoas com camisetas da banda ou, até mesmo, um chapéu papal com o símbolo da banda sueca). Em contrapartida, o Kiara Rocks, um ilustre desconhecido para o público, conseguiu ter seu nome gritado ao fim do show depois de uma técnica eficiente de ganhar a multidão com um cover matador de 'Ace of Spades' e de ainda apelar chamando duas figuras importantes para alguns que estavam ali assistindo o show: o Marcão (ex-guitarrista do Charlei Brown Jr) e o Paul Dianno (ex-vocalista do Maiden). 
O Kiara Rocks pegou em dois pontos ao chamar as participações especiais: primeiro, mexeram com os sentimentos de quem, pela segunda vez em um mesmo ano, se sentiu órfão de uma banda que gostava; segundo, exaltaram as lembranças mais saudosistas de quem tem grande empatia pelo primeiro vocalista do Iron Maiden, que se apresentaria mais tarde, inclusive tocando Wrathchild, uma das músicas mais icônicas da donzela de ferro. Tudo para cativar o público. E deu certo. Cheat mode: On. 

Tenho até mesmo a ousadia de dizer que o visual do vocalista Cadu Pelegrini deu uma leve chupinhada no visual do vocalista do Motörhead, Lemmy Kilmister, que é a única pessoa que consegue usar um chapéu de cowboy sem ser crucificado por isso. Digo mais, até mesmo o vídeo de Criswell predicts parece ter sido tirado do chapéu, mimetizando a fala de Winston Churchill ao introduzir Aces High do Iron Maiden. Pra quem não sabe, o vídeo usado na introdução ao show do Kiara Rocks fazia parte de um programa do canal 13 de Los Angeles  em que um ex-estudante de história, com dons mediúnicos, voz marcante e smoking fazia previsões errôneas. Algo a ser pensado, não é mesmo? 


Particularmente, achei uma pena o Iron Maiden não ter chamado o Dianno pra cantar uma música durante seu show. Seria uma participação sem antecedentes: dois vocalistas do Iron Maiden presentes no mesmo show. Bem, eles devem ter tido fortes motivos para não fazê-lo. 
No fundo, a tática usada pela banda foi feita para evitar o efeito 'Carlinhos Brown' no dia do metal. Deu certo. 

Cade Pelegrini e seu Kiara rocks

4 - Ainda que algumas escalações tenham sido desastrosas e muitos erros tenham ocorrido, percebi que a organização do RiR está atenta às novidades do Rock, metal e afins. Chamar o Ghost foi uma aposta arriscada, e eu gostei disso. Chamar o Avenged Sevenfold, ainda que controverso, também foi uma aposta arriscada... mas, ironicamente, mais acertada do que comparada aos suecos, visto que o público vibrou muito mais ao som dos californianos do A7X. 
Apostar na performance dos alemães do Destruction e dos brasileiros do Krisiun foi pensar de uma forma mais metal e, parafraseando um post que vi tempos atrás, de 'injetar sangue nos olhos de dobermans raivosos'. Quem estava lá deve ter gostado (e pogado) muito. 

Papa Emeritus II e seus nameless ghouls: 'realizando o batismo das trevas' no Rock in Rio 

5 - Algumas misturas podem se sair muito melhor do que imaginamos. Quem diria que o show do Zépultura (uma protocooperação de Zé Ramalho e Sepultura) seria tão bom!!! Deixou gosto de quero mais. Não duvidaria se esse show gerar ainda mais frutos dessa parceria. 

Zépultura. A busca pelo ouro terminou. Nós o achamos. 


6 - Bruce Springsteen. Ainda não vi sua performance no RiR na íntegra. Mas só de saber que houve tamanha sensibilidade de tocar Sociedade alternativa para um público que está cada vez mais acostumado a ouvir músicas em inglês é, no mínimo, inspirador. É reconfortante. É lembrar que temos, sim, nossas jóias musicais, e quem está fora consegue reconhecer isso melhor do que nós mesmos. Sociedade alternativa foi único e lindo. Vi o vídeo da apresentação em São Paulo e fiquei extasiado. 

Bruce Springsteen: enlouquecendo a sociedade alternativa

MAIDEEEN, MAIDEEEN! .... ME-TALLICA! ME-TALLICA!

7 - Nós precisamos urgentemente aprender que gritar o nome de uma banda durante o show da(s) banda(s) anterior(es) em nada adianta. Isso não fará que a banda que está ali tocando pare de tocar e que, imediatamente, o público tenha seus desejos atendidos. Gritar "Maiden" durante o show do Slayer ou gritar "Metallica" durante o show do Ghost não é apenas inútil: é desrespeitoso. Por mais que o público estivesse ansioso, a impressão que isso passa é "Cai fora daí e coloca o 'Iron'/'Metallica' pra tocar". Pra uma banda não há nada pior do que não agradar ao público para o qual está tocando. É fato de que a maioria esmagadora estava ali para ver os headliners. Porém seria muito mais interessante gastar energia ouvindo e aproveitar o que está sendo ali oferecido ao invés de gastar saliva gritando o nome de uma banda que só vai tocar depois de horas, seguindo um cronograma que não mudará, independentemente do quanto o nome dessa banda seja urrado. 
Sim, somos apaixonados por nossas bandas do coração, mas é como diz aquele velho ditado "Se você não tem nada de bom para falar de alguém, melhor é não falar nada". Para shows vale também. Guarde esforços para a banda que você gosta e seja feliz. 

...

Algumas coisas poderiam ser repensadas no Rock in Rio. Ao invés de considerar apenas colocar bandas com participações especiais no palco Sunset, a organização do RiR poderia pensar no impacto que cada banda tem no público. Se o Ghost (ainda pouco conhecido no Brasil) tivesse tocado no palco Sunset, ao invés do palco Mundo, talvez o impacto teria sido outro. Quem realmente gosta dos suecos, teria ido ao Palco Sunset e ficaria até um pouco mais próximo da banda. 
Se a organização queria uma banda nacional para tocar antes do Slayer, por que não escalaram o Krisiun ao invés do Kiara Rocks? Faria muito mais sentido. 


Dentre erros e acertos, acho que o RiR teve um saldo positivo. Provavelmente o Medina vai continuar apanhando e continuar cometendo os mesmos erros para 2015. No próximo RiR vai continuar havendo MPB, Pop e coisas não-rock e não-metal. Mas, nesse sentido, pouco importa. Afinal, quem é que vai se importar com Ivete, Justin ou Alicia Keys? "Hoje dia de rock, bebê!". 


... e que venha o Rock in Rio 2015. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Black Sabbath - 13 (2013)

"Desde que saí do Sabbath, diversos grandes músicos passaram pela banda. Mas ninguém toca o Sabbath como o Sabbath." disse Ozzy Osbourne em uma entrevista. Nada poderia estar mais certo. Com todo respeito à quem curte mais alguma outra fase da banda, o Black Sabbath original é que foi a banda que vai ficar na história. Com a formação Ozzy, Geezer, Ward e Iommi a banda lançou dezenas de clássicos imortais, redefiniu padrões e deu bases para a fundação de inúmeros estilos da música pesada. Em outros momentos o BS foi uma boa banda de heavy metal, mas foi com esse quatro garotos de Birminghan tocando seu blues pesado que o grupo fez suas obras primas. 
 
Geezer, Ozzy e Iommi
Podemos analisar 13 de três formas: é uma qualidade incrível para uma banda que não fazia nada junta desde 1978. Ou, ainda: é um trabalho morno para quem já lançou álbuns como o Master of Reality e Vol 4. Não à toa tenho visto dois tipos de reação ao trabalho, gente o descrevendo como a oitava maravilha do mundo, enquanto outros o massacram. Por fim, podemos analisar o álbum como se fosse o primeiro álbum de um novo grupo. Nesse caso, qual seria a reação da crítica e do público, teria tanta gente empolgada assim? Acho que dá pra chegar à um meio termo entre essas análises. 

Na primeira análise, se levarmos em conta o tempo desde a última vez que os 3 músicos estiveram em estúdio juntos o álbum pode ser considerado um sucesso. Claro que (provavelmente)  não tem nenhuma música que vai figurar no olimpo do rock juntamente com Iron Man ou Sabbath Bloody Sabbath, entretanto o grupo aproveitou muito bem a oportunidade e este é um (provável) fechamento de discografia muito mais digno do que os fraquíssimos Technical Ecstasy e Never Say Die. Se não vai ocupar o mesmo lugar de honra na história do rock que os quatro ou seis primeiros discos dos caras, ao menos 13 traz um bom conjunto de canções. Boas suficiente para ser o melhor álbum dos caras desde Heaven and Hell, de 1980, talvez o único sem a formação clássica que seja digno de nota.
Brad Wilk

Já a comparação direta com os clássicos é até injusta. O Black Sabbath dos anos 70 está dentre as mais geniais e influentes bandas de rock da história. A saída foi o auto-plágio. Desta forma, a escolha do produtor Rick Rubin foi acertada. Dá pra dizer que o cd está para os ingleses como o Death Magnetic está para o Metallica. Um monte de ideias usadas nos seus tempos áureos recicladas. Ou vai dizer que o começo e a estrutura de End of the Beginning (e mesmo de God is Dead?) não é idêntica à música que nomeia o grupo? E o que seria Zeitgeist se não uma Planet Caravan parte 2? Faça um exercício, tente cantar a letra de NIB enquanto ouve Loner. A faixa nada mais é do que uma irmã mais nova do clássico. Usando um pouco, bem pouco, de imaginação, é possível encontrar ecos do passado em todas as faixas. Por sorte este trabalho tem mais fôlego do que aquele dos americanos. As músicas soam mais como grandes homenagens do que como marmita requentada. Aliás, não entendo o porquê God is Dead? ter sido o primeiro single. É facilmente a faixa mais fraca do álbum. Apesar de seguir a cartilha da banda em seu ritmo arrastado, ela me soa mais tediosa do que tenebrosa (ainda que seus riffs finais sejam excelentes). Fiquei pensando que se tivessem deixado apenas a metade final da música ela seria bem mais interessante e poderosa. O outro clone de Black Sabbath, End of the Beginning é bem melhor. Ainda que seus primeiros três minutos sejam pura cópia, sua parte final é bastante empolgante.
Os 3 Sabbathicos com Rick Rubin

Por fim, o olhar sobre 13 como se este fosse o debut de uma banda desconhecida. Temos aqui um bom conjunto de canções, em especial no que se refere à guitarra. Iommi é o mestre, não tem jeito. Seus solos estão incríveis. Parece que foram gravados nos anos 70 e estão sendo usados agora. Além disso, ele mostra que ainda tem alguns ótimos riffs na manga.  Geezer sempre foi um dos meus baixistas prediletos e continua mostrando toda sua técnica e peso. Uma pena Bill não ter participado das gravações, mas seu substituto, Brad Wilk, fez um ótimo trabalho. Já a voz do Ozzy é só um fiapo do que era. Nem o mais die hard dos fãs pode dizer que o comedor de morcego foi algum dia um excelente cantor, mas ao menos em juventude ele tinha um vigor que os anos de abusos levaram embora. O timbre inconfundível está lá, o carisma também, mas falta um pouco de emoção em suas linhas, parece que ele está desanimado, cantando enquanto pensa nos seus problemas com a Sharon. No conjunto da obra acredito que esta "nova banda" conseguiria sim atrair alguma atenção. Não haveria tantas odes de amor ao álbum, mas tenho certeza de que arrebanhariam um número considerável de fãs e boas críticas. Principalmente devido às duas grandes músicas do cd, que são Live Forever e Damaged Soul. A primeira um vigoroso heavy metal com o melhor riff do trabalho e a segunda um delicioso blues cheio de solos e gaitas. Nessas duas músicas consegui sentir a magia Sabbathica chegando bem perto da força dos longínquos anos 70.

As três músicas bônus são todas muito boas, até é engraçado terem ficado de fora, sendo  melhores do que a maioria das "oficiais". Enquanto Peace of Mind e Pariah são faixas que conseguem remeter à fase clássica soando, ao mesmo tempo, modernas, Methademic é uma desgraceira da melhor qualidade. Interessante notar que são justamente nestas que estão os melhores momentos de Ozzy.  Acredito que se tivessem seguido nessa direção o resultado final seria bem melhor. Entretanto, é fácil entender o porquê das 3 músicas terem ficado de fora da edição "normal" do cd, elas são conceitualmente bem diferentes das demais. Essas faixas não cometem, por exemplo, o erro das anteriores, de serem mais longas do que deveriam.
Hora do chá

Resumindo:

Ao meu ver, são três os grandes problemas do álbum: a já discutida falta de empolgação de Ozzy, a duração das músicas, muitas delas são muito maiores do que deveriam, e o auto-plágio. Também faltaram alguns refrãos mais poderosos. Dear Father, por exemplo,  é uma música com ótimas guitarras, mas com um refrão que dá uma certa broxada.

E como pontos positivos: grandes riffs e solos e ... o auto-plágio! Em sua maioria as músicas dão aquela sensação de "já ouvi isso antes", mas sejamos honestos, alguém queria realmente que o Sabbath fizesse algo diferente nessa altura do campeonato? 13 não é apenas a continuação de uma discografia, é um retorno depois de mais de três décadas. Era difícil se arriscar (e acertar). Neste ponto a banda acertou o tom. Musicas com uma pegada setentista e a produção moderna. Seria irreal esperar uma evolução do BS, surgindo em 2013 como se tivesse passado apenas um ou dois anos de Volume 4.

Pensando bem, se olharmos o período entre o primeiro e este último álbum dos ingleses, muitas boas bandas de heavy metal surgiram, algumas poucas conseguiram chegar perto, menos ainda se igualaram (Iron Maiden, Metallica...talvez mais uma ou duas...), mas ninguém conseguiu superar os pais. Um Black Sabbath recauchutado e sem brilhar, muito longe do que já fez de mais incrível, é melhor do a gigantesca maioria das bandas atuais.

Álbum: 13
Artista: Black Sabbath
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Vertigo, Universal

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Alice in Chains - The Devil Put Dinosaurs Here (2013)

Quando foi anunciado o retorno do Alice in Chains com um novo trabalho e um novo vocalista todos os fãs experimentaram uma enorme apreensão. Poderia a banda sobreviver sem seu icônico vocalista Layne Staley? Quem poderia substituir à altura uma figura tão talentosa e carismática? O vocalista e guitarrista Willian DuVall entrou na banda e os caras tiveram com Black Gives Way to Blue um excelente recomeço. Aquele álbum foi pensado e executado como uma reapresentação da banda e do novo integrante, investindo em músicas que buscavam elementos passados e consagrados de forma bastante convincente. Desta forma, o cd de 2009 foi mais uma visita aos álbuns passados com uma roupagem nova do que uma evolução da banda, que vinha agregando novos elementos e se alterando em cada novo trabalho. A missão foi cumprida com louvor, assim eu imaginava (e esperava) que a banda voltaria à sua "metamorfose ambulante" em seu segundo álbum da nova fase. Entretanto, o que o AiC fez em The Devil Put Dinosaurs Here foi lançar uma espécie de Black Gives... parte 2.


Dá pra dividir o álbum em 3 grandes blocos distintos: As músicas pesadas, baseadas em riffs fortes de guitarra e andamentos moderados de bateria; as músicas densas e depressivas, arrastadas e com dedilhados tristes; e por fim as sempre presentes baladas. 

O cd abre com 3 pauladas: Hollow, Pretty Done e Stone. São todas faixas muito boas, entretanto soam de forma muito semelhante entre si. É até curioso que a banda tenha escolhido colocar essas músicas em sequência, o que acaba por tirar um pouco do impacto individual de cada uma. Dá a impressão que os músicos encontraram uma fórmula e vão repeti-la até o fim. Ao ouvir esse primeiro bloco tive a impressão de que o AiC havia se tornado uma espécie de AC/DC do grunge.

Voices é a primeira balada do disco. Bem no estilo da Your Decision do álbum anterior, porém sem o mesmo frescor. Assim como a Scalpel, que tem uma pegada meio country em seu arranjo. Ambas não se comprometem e não se destacam. Perto da grande experiência em baladas da banda essas duas músicas são bastante fracas.  Já a última faixa, Choke, é de longe a música mais emocionante do trabalho. Belas melodias vocais e arranjos. Adoraria ouvi-la sendo tocada em um set acústico ao lado de Nutshell e Over Now.

A faixa título vem naquele estilo Love Hate Love, com dedilhados e climas pesados. Gosto bastante do refrão, mais pela letra do que pelo ritmo, mas também não tem nada nela que a faça ficar grudada na memória. Lab Monkey mantém a pegada sombria, com algumas partes mais agitadas e um belo solo. Se destaca mais do que a anterior e o vocal de DuVall finalmente ganha mais destaque.

Low Ceiling é a faixa mais hard rock do trabalho, sendo a única que não tem pares no mesmo. É também a que mais me lembrou os trabalhos solo do guitarrista Jerry Cantrell. Uma faixa sem muita inspiração, mas que traz um solo de guitarra muito bonito, que a faz valer a pena.

Breath on a window tem um ótimo riff e um ritmo mais rápido do que as outras do seu estilo no cd. A variação de andamento e a guitarra do final da musica tornam ela mais épica ainda. Uma das melhores do trabalho, sem dúvidas. Já Phantom Limb volta a fórmula das 3 primeiras, guitarras e bateria pesadas, tendo o melhor riff principal de todo o álbum. Esta deve ser a música com maior destaque do vocal de DuVall. Aliás, acho uma pena que ele não apareça mais. Gosto da voz do Jerry e da dinâmica das duas vozes juntas, mas o vocal mais agudo e agressivo do "novo" vocalista confere mais emoção às faixas.

Hung on a Hook é a "Down in a Hole" da vez. Aqui DuVall canta os versos de forma muito diferente e interessante, em tons baixos, para explodir nos refrãos. Do bloco das músicas mais arrastadas é a mais criativa e minha preferida.

The Devil... é mais um bom trabalho dos caras. Não é melhor do que os álbuns clássicos, e talvez nem os próprios músicos tenham a pretensão de tentar superar aqueles registros. O grande pecado do grupo foi escolher fórmulas prontas e “fáceis” ao invés de se arriscar, como a banda fazia em seus primeiros anos. O AiC de hoje é uma grande banda de hard rock, sem dúvida dentre as melhores do estilo em atividade, mas que aparentemente não consegue mais sair de sua zona de conforto. Lugar que os trabalhos com Layne nem chegaram a conhecer.



Álbum: The Devil Put Dinosaurs Here
Artista: Alice in Chains
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Capitol

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Queens of the Stone Age - ... Like Clockwork (2013)


Quando penso no rock da primeira década do século XXI não tenho dúvidas de que a grande banda foi o Queens of the Stone Age. Nascido das cinzas do ótimo Kyuss, o Queens rompeu com todos os limites e criou álbuns que agregavam os mais diversos elementos de forma orgânica. Seus discos sempre foram pesados, dançantes, criativos, barulhentos, empolgantes. Assim ansiedade por este ...Like Clockwork, primeiro trabalho em seis anos, era imensa. 
A atual formação do Queens of the Stone Age

O cd abre com uma das melhores faixas, Keep your Eyes Peeled. Bluesão pesado, distorcido e arrastado, com excelentes riffs e andamentos. Ainda assim me pareceu uma escolha curiosa para abrir o álbum, por ser muito lenta e soturna. Essa é uma faixa que eu esperaria ouvir no vindouro álbum do Black Sabbath ou de alguma (boa) banda Doom Metal por aí.
As carismáticas If I Had a Tail e I Sat by the Ocean tem aquele estilo bem característico e consagrado da banda, contrastando bases pesadas com ritmos dançantes. Se não trazem nada de realmente novo à sonoridade da banda ao menos são bastante boas dentro de suas propostas, em especial a segunda, com suas ótimas linhas vocais.
The Vampyre of Time and Memory é uma balada bonita, que tem até uma pegada meio classic rock, principalmente no solo de guitarra. Outra faixa no mesmo estilo é a que nomeia e fecha o trabalho, uma música melancólica que começa ao piano e violão para ir ganhando corpo e emoção conforme evolui.
Kalopsia é a mais fraca do cd. Uma faixa que tem em sua concepção caras como Josh Homme e Trent Reznor (Nine Inch Nails) merecia mais do que ter apenas passagens bacanas. Se alternando entre versos lentos (tediosos) e refrões barulhentos (bem legais) fica bem aquém do que eu esperava. Prefiro a cooperação que os músicos tiveram na trilha sonora do documentário Sound City, aquela sim bem mais interessante.
A maior porrada do álbum é sem dúvidas a My God is the Sun, que foi mostrada pela primeira vez no Lollapalooza Brasil. Bons riffs, Dave Grohl detonando na bateria como sempre... é legal, mas fica pálida perto de outras barulhentas da banda, como Sick Sick Sick, Feel Good Hit of the Summer ou Song for the Dead, por exemplo. Divertida, mas duvido que se torne um clássico nos shows dos caras.
Smooth Sailing me lembrou um pouco o estilo amalucado reminiscente de Era Vulgaris em faixas como I'm Designer e Misfit Love, com inúmeros detalhes, camadas e sonoridades diferentes. A mais psicodélica e uma das melhores deste lançamento. No início de Fairweather Friends temi pelo pior, mas temos aqui um ótimo hard rock, engrandecido pelo ótimo piano de Sir Elton John. Música simples, mas bem eficiente.
A angustiante (no bom sentido) I Appear Missing é uma power balad furiosa. Épica até o osso, a semi-balada te deixa com os nervos à flor da pele até o fim. Alias, acho até anticlimático que o trabalho não se encerre com essa faixa. É tranquilamente um dos destaques de ...Like Clockwork
A produção do cd está excelente. Todos os instrumentos podem ser ouvidos com bastante definição. Ouça no fone de ouvido e descubra novos detalhes cada vez. Os timbres dos instrumentos foram todos muito bem escolhidos. As guitarras solo tem um som vintage delicioso enquanto as bases soam "gordas" e na cara. Os teclados e sintetizadores e o som seco escolhido para a bateria deixam tudo mais pesado. Outro dos destaques do álbum é a voz de Josh, que está cantando muito. É impressionante como ele vem melhorando cada vez neste quesito com o tempo. Fazia tempo que eu não ficava tão impressionado com a produção de um cd. Neste quesito dá até pra dizer que ...Like Clockwork é o Sgt Peppers do Queens. O que decepciona é que fora o piano de Elton John nenhum outro participante especial mostra muito a que veio. Se eu não tivesse lido a lista dos músicos convidados eu nunca saberia que participaram desta gravação.
Mais um bom trabalho da banda, que ainda está invicta, sem lançar nenhum cd realmente fraco. Entretanto faltou "aquela" música, entende? Não temos aqui nenhuma arrasa-quarteirão como No One Knows, Sick Sick Sick, Feel Good Hit of the Summer, entre outras. A impressão que dá é que o falta um pouco de tempero para o álbum, algo que o deixe diferenciado. Nada daqueles riffs criativos de outrora, a pegada aqui é bem mais Hard Rock setentista. Mais direto, mais ao ponto. Dá pra dizer que ...Like Clockwork é exatamente o oposto de Era Vulgaris. Enquanto aquele álbum tinha bastante músicas "médias" e umas 3 ou 4 arrasa-quarteirões, o novo release é um álbum forte e coeso, com suas 10 músicas mostrando qualidades, porém sem nenhum grande hit. ou "revolução". Nenhuma música aqui tem aquela pitada de insanidade, de desconstrução dos padrões estabelecidos que permeavam os álbuns anteriores e que  "explodem seu cérebro". É tudo muito bem feito e bacana, porém dentro da "normalidade". Aqui o Queens é uma ótima banda de hard rock/rock alternativo, mas não é desafiadora para os seus ouvintes.
Entretanto é importante ressaltar que apesar de manter certas referencias, conceitos e estilos, a banda nunca  se auto-plagia. A integridade artística do Queens continua intacta e este ...Like Clockwork é mais um passo em sua brilhante carreira, tendo uma cara bem própria, sendo o mais soturno e melancólico trabalho da banda. Se não é aquela explosão de criatividade da década passada, ao menos o álbum é um honesto, bem-feito e cativante registro de rock.
Um cd muito bom e que provavelmente será um dos destaques de 2013, mas ainda assim dificilmente será lembrado como um dos grandes clássicos dos caras. Para outras bandas seria um lançamento maravilhoso, mas para um grupo do quilate do Queens é pouco. Nos acostumaram mal demais.


Álbum: ... Like Clockwork
Artista: Queens of the Stone Age
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Matador, Rekords Rekords

sábado, 18 de maio de 2013

LUZ. CÂMERA. CLIPE! (parte III)



            Antes de tudo, gostaria de me desculpar pelo hiato de meses sem postar nada (tive problemas com meu computador e as atividades da faculdade estavam me consumindo). Agora toda vez que eu mencionar um clipe, farei o máximo pra achar algum bom exemplo do vídeo comentado e, assim, agitar um pouco esse blog, trazendo muitos clipes para os leitores. 

...

          No post anterior falamos de como a produção de vídeo clipes começou a crescer e ganhar importância, sendo um meio muito eficiente para a divulgação de músicas novas e artistas. Tão importante que até passou a ser encarada como uma commodity. Neste post vamos falar de como a indústria de clipes se desenvolveu na década de 80 e da criação dos canais que se dedicariam exclusivamente a exibição de vídeos musicais. 

1981 – 1991: a popularização dos videoclipes
         Em 1 de Agosto de 1981, às 12:01 a.m. de Nova York, o recém criado canal MTV exibia o vídeo Video killed the Radio star (lembram que eu disse no post anterior que esse clipe seria importante?) e começou uma era de clipes musicais 24 horas por dia na TV. Com esse novo canal, os videoclipes ganhariam cada vez mais importância no marketing musical, principalmente a partir de meados da década de 1980. Muitos artistas importantes desse período – como Madonna e Duran Duran – devem grande parte de seu sucesso ao apelo sedutor e à construção habilidosa de seus clipes.
Duas inovações na produção dos clipes modernos foram o desenvolvimento de técnicas mais simples e acessíveis de gravação/edição de vídeo, além de melhorias nas técnicas de efeitos visuais, como as obtidas com composição de imagens (como o Chroma key – ou fundo verde – que foi muito utilizado no seriados Chaves e Chapolin, da Televisa mexicana). 


Para muitos brasileiros, uma das cenas mais icônicas feitas em chroma key

A chegada dos gravadores de alta qualidade e de câmeras de vídeo portáteis coincidiu com a política do “faça você mesmo” da era New Wave, o que permitiu que muitos artistas pop produzissem vídeos promocionais de forma rápida e barata. Não à toa, a década de 80 é recheada por clipes que hoje consideraríamos de gosto, digamos, brega e duvidoso (o que, convenhamos, rende boas risadas). Conforme esse gênero se desenvolvia, os diretores dos clipes passavam a preferir filmes de 35 mm como meio preferido. Durante a década de 1980, os clipes tornaram-se quase que obrigatórios para os artistas. Essa obsessão chegou a ser parodiada em um clipe imperdível do programa Not the Nine O’Clock News, da BBC,  chamado “Nice vídeo, shame about the song”. Ao assistir esse vídeo não pude deixar de pensar que eles devem ter assistido Monty Python  por diversas vezes para ter inspiração. E sabe o que é pior? A música é legal e representa muito bem os clichês de clipes daquela década, tanto que em vários momentos ele se assemelha ao clipe de Total Eclipse of the Heart, que só seria lançado um ano depois. A letra é um tanto desconexa, pois há versos que não fazem sentido entre si (Vamos passar a lua de mel em Berlin oriental / E, como lemingues, nunca vamos nadar / A nave lunar do Diabo faz ondas no tempo / Meu irmão asiático diz ‘me dá um trocado’). Nessa música talvez haja algumas críticas a acontecimentos da época, já que eles falam sobre visitas a Alemanha Oriental (que era socialista) e sobre o ‘irmão asiático’, talvez uma referência às conseqüências da guerra do Vietnã, terminada em 1975, que deixou o Vietnã economicamente devastado. Crítica aliada a humor: a melhor combinação, não é mesmo? 
Nesse período, artistas e diretores começaram a explorar e a expandir a forma e o estilo dos clipes, usando efeitos mais sofisticados em seus vídeos e introduzindo uma história com enredos. Poucos eram os clipes que não mostravam os artistas (como nos raríssimos clipes de Under pressure, dirigido por David Mallet e TheChauffeur, dirigido por Ian Eme).  
Em 1983, foi lançado um dos clipes mais bem sucedidos, influentes e icônicos: o vídeo de 14 minutos para Thriller, de Michael Jackson, dirigido por John Landis. Esse vídeo estabeleceu novos padrões de produção, com um custo de quinhentos mil dólares para ser feito (se hoje esse valor ainda é expressivo, imaginem naquela época). Esse vídeo e outros previamente lançados pelo rei do pop contribuíram para que vídeos de afro-descendentes pudessem ser exibidos na MTV, pois antes do sucesso de Michael Jackson estes eram raramente exibidos. A própria MTV alegava ser um canal orientado para o rock (quem diria, não?) o que justificava a falta de clipes de artistas afro-americanos. Contudo, muito se falava que a MTV não os exibia por conta de um ‘racismo descarado’.

O rei do Pop e seus Dead Walkers. 

Ainda em 1983 seria lançado o primeiro rival da MTV: o Country Music Television (CMT) – ainda que exibisse uma programação voltada para a música country. Entretanto, houve conflitos entre a MTV e a CMT (esta, inclusive, acabou adotando a sigla CMTV em resposta a uma denúncia feita pelo canal concorrente, fazendo com que a sigla dos dois canais ficassem semelhantes). Hoje a CMT pertence à Viacom, que fundou a MTV Networks, administradora de operação de vários canais de TV (inclusive a própria MTV). A CMT chegou ao Brasil em um empreendimento conjunto com o Grupo Abril, mas teve uma vida curta, entre 1995 e 2002.
No Canadá criaram o canal Much Music, em 1984, que existe até hoje e está bem ativo, pois possui sua própria premiação, o Much Music Video Awards, que esse ano terá o cantor Psy como anfitrião (e performer, claro), afinal, nada melhor para uma premiação do que chamar o primeiro cantor com mais de 1 bilhão de visualizações no youtube (que também será comentado em um post posterior). Nesse mesmo ano foi realizada a primeira edição do MTV Video Music Awards, em 14 de setembro, o que ajudou a marcar a importância da MTV na indústria musical. Por ser a primeira edição, premiaram os melhores vídeos lançados entre maio de 1982 e maio de 1984 (afinal, Boheman Rhapsody é hors concours). A premiação teve como apresentador o ator Dan Aykroyd, e teve como grandes ganhadores o cantor Herbie Hancock (5 prêmios) e Michael Jackson (3 prêmios). Nesse festival a cantora Cindy Lauper teve nove nomeações, seis pelo vídeo "Girls just wanna have fun" e três pelo vídeo de "Time after time" (que infelizmente foi recentemente regravada por Claudia Leitte). 
Em meados da década de 80 a MTV começou a lançar suas ‘filiais’: em 1985 criou o VH-1: Video Hits One (ou VH1), que compreendia músicas mais suaves para abocanhar um público maior; a MTV Europa foi lançada em 1987; 


a versão brasuca estreou ao meio dia (horário de Brasília) de 20 de Outubro de 1990 (os clipes já tinham chegado ao Brasil em 1975, mas até então eram exibidos em sua grande parte no programa Fantástico, da TV Globo); a MTV Ásia estreou em 1991. Alguns programas britânicos tentaram fugir ao padrão MTV, exibindo apenas clipes, sem apresentadores, como foi o The Chart Show, exibido pelo Channel 4 em 1986: havia janelinhas que pulavam na tela com informações sobre o clipe ou a música, o que era bem inovador e fez bastante sucesso na época.  Até mesmo a própria MTV chegou a adotar esse esquema em alguns de seus programas.
Um dos primeiros clipes a utilizar animação computadorizada foi o clipe de Money for nothing, do Dire Straits, em 1985. O clipe foi bem sucedido e fez com que a canção se tornasse um hit internacional.
Com métodos melhores de filmagem e com diretores cada vez mais interessados em fazer clipes, o mundo musical começou a ganhar clipes cada vez mais técnicos e memoráveis. Quem é que não se lembra de vídeos como “November Rain”, “Don`t Cry” e “Stranged” (Guns’n’roses), “Human” (Human League), o cômico “The Ultimate Sin” (Ozzy Osbourne) e do quase cinematográfico “Hole in my soul”, do Aerosmith? Pois todos eles tem uma coisa em comum: o diretor. No próximo post (que prometo, não vai levar meses pra sair) veremos a importância crescente dos diretores nos clipes. Daria até o nome de um filme: “Rise of Directors”. Alguém se habilita a fazer o roteiro?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Homem Máquina - Max Barry


Certa vez parei para pensar e notei que praticamente todos os meus autores preferidos já estão mortos. Isso me deu desespero porque torna minhas opções de leitura finitas. O que vou ler na área da ficção científica quando acabar com toda bibliografia do Asimov, do Dick e do Clarke? Assim resolvi que me daria a chance de conhecer autores mais jovens, que estivessem vivos ou ao menos que eu nunca havia lido antes. Foi assim que acabei lendo este Homem Máquina, do australiano Max Barry.
Vou ser sincero, nunca tinha ouvido falar do autor ou do livro. Mas eu tenho vício de passear em livrarias e num desses passeios bati o olho na belíssima capa do livro. Peguei o livro, folheei, li a orelha, paquerei a capa. Como não era muito caro resolvi levar. Decisão mais do que acertada. Comecei a ler num sábado de manhã e só consegui largar o livro no domingo à noite, quando o terminei.
Em Homem Máquina somos apresentados ao Dr Charles Neumann, engenheiro muito habilidoso em criar as mais diversas coisas no super moderno laboratório da empresa Futuro Melhor e nada habilidoso no que se refere à relações pessoais. Em uma série de eventos (engraçadíssimos) ligados à procura de seu celular, Charles sofre um acidente e acaba perdendo umas das pernas. Em sua recuperação ele conhece a especialista em próteses Lola Shanks, por quem se apaixona, e recebe sua primeira perna mecânica. Intrigado pelo funcionamento da perna o engenheiro acaba criando uma prótese melhor. Tão melhor que ele acredita que sua perna natural também deveria ser substituída.
À partir deste ponto acompanhamos as transformações do personagem em uma interessante mistura de Sci-Fi e humor negro, com muitos toques de crítica social. Grandes livros de ficção científica são justamente aqueles que trazem inseridas em suas histórias fantásticas questionamentos sobre algum aspecto real da condição humana e Homem Máquina não desaponta nesse quesito. É possível encontrar no texto metáforas para as mais diversas questões, como consumismo (principalmente no que se refere à tecnologia), intervenções cirúrgicas cosméticas e interesses das grandes empresas, tudo costurado por um texto ágil e divertido, que prende o leitor que nunca deixa de se perguntar “até onde esse cara vai?”.
Max
Barry, que é engenheiro e já até trabalhou na HP, escreveu o livro de uma forma bastante moderna, publicando uma página por dia em seu site, deixando que seus leitores deixassem registradas correções e sugestões para a história. A edição final foi bastante modificada da versão do blog, mas a ideia não deixa de ser curiosa.
Devido a sua formação o autor traz muita bagagem à história, sabendo muito bem onde cutucar o mundo das grandes empresas e o dos engenheiros, fazendo com muito mais propriedade e talento o que o Big Bang Theory tenta fazer.
Ao terminar o livro senti um alívio. A ficção científica ainda tem muita lenha para queimar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Panela velha é que faz comida boa


Este parece ser o ano dos veteranos da música. Estão todos com novos trabalhos na praça e mandando super. Destaco abaixo alguns dos cds que mais me chamaram a atenção até agora.

Jimi Hendrix - People, Hell and Angels: O cara morreu faz mais de 40 anos e um cd seu com sobras de estúdio é mais relevante do que a maioria da produção atual. Se você não sabe porque Hendrix é considerado o melhor e mais influente guitarrista da história escute People, Hell and Angels e não tenha mais dúvida nenhuma. 
O trabalho é um passeio por diversas emoções. O solo da Hear my train a comin' é sobrenatural, me arrepia toda vez que ouço, já em Let me move you e Mojo Man a vontade é de sair dançando por aí. O álbum é um curso intensivo de blues, rock'n'roll e soul em 12 lições. Estude!

Seasick Steve - Hubcap Music: Seasick é um cara com uma história bem peculiar. Nascido em 1941, ele fugiu de casa aos 13 anos. Vagou pelo Tennessee e Mississipi, vivendo de pequenos bicos. Nos anos 1960 passou a excursionar com bandas de blues e a trabalhar como engenheiro de som e produtor. Também morou em Paris, nos anos 1990, onde se apresentava sozinho pelas estações de metro da cidade. Lançou seu primeiro álbum, Cheap, em 2004, aos 63 anos.
Hubcap Music apresenta uma sonoridade bem próxima do álbum anterior, You can't teach an old dog new trick, calcada em rock cru e blues eletrificado, com algum toquezinho de country music aqui e ali. Neste trabalho Seasick é acompanhado por uma banda formada pelo baterista Dan Magnusson e por ninguém menos do que John Paul Jones, ex-Led Zeppelin, no baixo, além da participação de Jack White na guitarra na faixa The Way I Do. 
O cd tem esse nome porque o instrumento que Seasick toca é caseiro, feito provavelmente por ele mesmo usando, entre outras coisas, duas calotas de roda (hubcaps). É pra ouvir no talo.

Dr John - Locked Down: Na verdade esse é do ano passado. 
Sabe pra que servem premiações e listas de melhores do ano? Para nos indicar coisas bacanas. Por exemplo, depois de ver a lista de indicados na categoria "melhor filme" no Oscar resolvi assistir um monte de filmes que, talvez, de outra forma eu não teria assistido. E no Grammy vi que este Locked Down do Dr John ganhou como melhor álbum de blues de 2012. Como já tinha visto esse álbum figurar  em várias listas de "melhores" de gente bacana no final do ano passado resolvi arriscar. E agora não consigo parar de ouvir! 
Com a produção e a guitarra de Dan Auerbach do The Black Keys o álbum tem uma sonoridade muito própria. Algo entre o rock'n'roll, soul e rythm and blues, mas o que mais me vem a cabeça ao ouvir esse trabalho são as trilhas sonoras dos filmes do Tarantino. Sabe aquele som sacana, dançante e malicioso que te faz lembrar de bares de strip tease enfumaçados? É mais ou menos isso. Imperdível. 


Deep Purple - Now What?! Eu via as notícias sobre esse cd e não dava muita bola. Veja bem, sou um grande fã dos caras. Os álbuns clássicos dos caras furaram de tanto que os ouvi e já fui em uns 3 ou 4 shows da banda. Mas sei lá, as músicas mais novas (leia-se dos 80s pra cá) nunca me apeteceram muito. Mas me deparei com o trabalho a dois cliques de distância, então porque não dar uma conferida, certo? A surpresa foi incrível! A banda está soando tão pesada e técnica quanto nos bons tempos de Machine Head. A interação entre o super guitarrista Steve Morse e o tecladista Don Ayrey (que aqui deixa pouco a dever ao grande mestre Jon Lord) é impressionante e confere lindos momentos instrumentais.
As quatro primeiras músicas são um um rolo compressor, só pedrada! Já na segunda metade do cd se ouvem mais baladas e momentos mais jazzy, mas tudo com o selo Deep Purple de qualidade. E ainda sobra tempo para a fantástica homenagem à um dos mestres do terror, o sr Vincent Price. Uma grata surpresa. 

Iggy Pop and The Stooges - Ready to Die: Que paulada! Nada de inovação, o que se ouve aqui é o massacre punk costumeiro da banda. E isso não é demérito nenhum! Poucos conseguem manter a qualidade depois de tanto tempo de estrada. Mas enquanto a grande maioria das bandas se torna cover de si mesmo, o Iggy Pop e seus Stooges tocam com a mesma pegada e atitude que tinham 40 anos atrás. Não vai mudar a história, mas a diversão é certa.

Veteranos fazendo bonito. Será que o Black Sabbath vai segurar a onda? 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Vikings (2013)

Karina Pimenta


Quando pensamos em History Channel, nos é familiar lembrar de documentários puramente baseados em fatos legítimos, recheado de detalhes e fatos históricos, com uma terceira pessoa narrando a linha do tempo. Tudo bem, também tem aquele programa absurdo dos Aliens, não lembro o nome, é super engraçado, mesmo não querendo ser. Mas o canal apostou diferente desta vez ao produzir um novo show com estrutura de seriado, com diversos episódios construindo temporadas. O mais relevante foi o tema, a propósito, uma bela escolha da produtora: "Vikings" estreou em abril desse ano e, com apenas alguns episódios lançados, já teve sua segunda temporada (dez episódios) confirmada para o próximo ano.


Ao contrário do que algumas pessoas comentam, eu não sou do time que acredita que o seriado só vem fazendo sucesso por conta da fama de Game of Thrones. Eu concordo que Vikings seja épico, tenha muitas cenas de luta, de guerras, tenha cenários e caracterizações de época mas, ao contrário de GoT, é baseado na história de um personagem que existiu, o lendário Ragnar Lodbrock (ou Lothbrock, depende da referência). A cultura da civilização viking é ícone de fascinação e/ou curiosidade para muitas pessoas, como pode ser constatado pelo sucesso do escritor Bernard Cornwell, que consegue escrever tantos livros épicos que se tornam best seller, como os da coleção Crônicas Saxônicas. Além disso existem diversos games inspirados no líder Ragnar, como Civilization III e IV e Medieval Total War.


A produção do programa é excelente, mesmo sendo o primeiro ficcional do History Channel. Eu não estava esperando muita qualidade, mas o seriado fala por si. Uma boa história, simples, mas bem construída, com atores desconhecidos que cumprem muito bem o seu papel. Ragnar Lodbrock é interpretado por Travis Fimmel (modelo australiano) e, na trama, Ragnar mora com sua família em um sítio e também é um audacioso guerreiro. Decide ir contra o senso comum ao explorar o desconhecido Oeste, na direção da Inglaterra. Ele é casado com Lagertha (Katheryn Winnick, canadense conhecida por Bones), e tem um irmão, Rollo, (Clive Standen, ator inglês, fez o irmão de Robin Hood) ambos com papéis muito importantes na história viking. O ator mais conhecido do seriado com certeza é Gabriel Byrne (Usual Suspects, Stigmata), que faz o papel de Earl Haraldson, líder viking inimigo das proezas e Ragnar.


Como era de se esperar de um seriado que já iniciou com a premissa ficcional, muitos fatos históricos são apresentados de forma ilegítima. Entretanto, existe também muita informação interessante sobre os costumes da civilização, como a religião e sacrifícios humanos, a navegação e seus barcos velozes que são fortes o suficiente para cruzar o mar, a violência dos atentados, os massacres, etc. Vale muito a pena se você estiver disposto a encarar como entretenimento! Domingo que vem é o último episódio da primeira temporada e, só para desabafar, estou esperando ansiosamente, muito mais do que GoT.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Ghost - Infestissumam (2013)


Do nada começaram a pipocar notícias e reviews sobre o Ghost. Não dei muita bola. Demorei a ter curiosidade sobre os caras. Mas depois de ver que até figurões como Phil Anselmo (Down, Pantera) e James Hetfield (Metallica) se declararam fãs e andavam por aí com camisetas do grupo deixei a preguiça de lado e fiz o download. Verdade seja dita, de cara não curti a banda. Achei leve demais e o timbre do vocal Papa Emeritus I não me desceu. Mas de repente me vi cantarolando algum riff ou melodia dos caras. E ouvi mais uma vez o álbum, só pra tirar teima. E mais uma. E outra. Logo já estava cantando todas as letras por aí. Não teve jeito,  também fui pego pela praga do Opus Eponymous, debut dos suecos. Já se passaram uns 2 anos desde meu primeiro contato e continuo ouvindo o cd sem parar.
O Papa e seus seguidores
Pra quem não sabe, o Ghost é uma banda que faz um resgate do heavy metal setentista, com influências de Blue Oister Cult e Uriah Heep e alguma pitada de Mercyful Fate. Desta última trouxeram principalmente o aspecto visual e teatral e as temáticas demoníacas. Para reforçar o aspecto sombrio a banda decidiu manter em sigilo as identidades de seus músicos. Alias, fora o vocalista Papa Emeritus I (agora Papa Emeritus II), que a imprensa acredita ser Tobias Forge, vocalista das bandas de death metal Repugnant e Subdivision, todos os outros outros cinco instrumentistas encapuzados são conhecidos apenas como Nameless Ghouls.
Dá para entender o rebuliço que o debut da banda causou. O contraste dos vocais suaves aliadas às belas melodias do hard rock/heavy metal setentista com as letras e visual obscuro e enigmático conferiram uma aura cult ao grupo. Aliás, não consigo parar de pensar que a banda é, além de uma grande homenagem as bandas clássicas, uma certa sátira à alguns clichés do metal. As letras de tão absurdamente satânicas (e até meio juvenis) passam a ser  engraçadas. Veja bem, isso não é uma crítica. Muito pelo contrário, acredito que a cada detalhe da banda foi pensado e repensado em cada pormenor e o Ghost é entretenimento puro. Desde as especulações sobre as identidades dos músicos até o que mais importa mesmo, o som.
Phil Anselmo, Dave Grohl e James Hetfield, fã club do Ghost
Com tudo isso veio a ansiedade pelo segundo álbum. O primeiro single liberado foi a "valsa" Secular Haze, que ganhou um clip no melhor estilo Black Sabbath. A música já mostrava o que seria ouvido no álbum, uma produção mais caprichada e uma atenção redobrada aos teclados. 
A banda fez excelentes escolhas na composição de Infestissumam. O primeiro aspecto é que não fizeram uma mera cópia do cd anterior. O grupo evoluiu e se aprofundou ainda mais em seu resgate da sonoridade setentista.  Seu som está até mais leve e melódico do que em Opus Eponymous, porém não menos carismático. Como já dito, a presença do teclado é bem mais forte e a adição de alguns corais gregorianos em certas faixas só acrescenta dramaticidade e consistência ao som do grupo.
O trabalho abre com a excelente instrumental que dá nome ao álbum, com bateria rápida e corais, já deixando o ouvinte em estado de alerta e preparando o clima para Per Asperi Ad Inferi, uma das mais pesadas do cd, com seu riff cortante e bateria militar em seu refrão. Esta é provavelmente uma das faixas que mais se parece com as do registro anterior.
Uma das diferenças entre este cd e o debut é a presença de "baladas". A primeira metade do épico Ghuleh/Zombie Queen é um exemplo, com seus teclados, piano e clima triste. A segunda metade da faixa começa com um efeito "tecnobrega" (o Ghost se inspirou em The Strokes?) e ela se torna uma das faixas mais agitadas e divertidas do álbum. Outra balada é Body and Blood, que poderia ter saído de qualquer cd da Mark III do Deep Purple.
Jigolo Har Megiddo, Idolatrine e Depth of Satan's Eyes são ótimos hard rocks. Todas com andamentos moderados em termos de velocidade, as faixas apresentam muita melodia e um clima até dançante, meio post-punk. Mostre essas músicas pra aquele seu amigo que acha que música boa é só aquela produzida nos anos 70 e pode apostar que ele vai amar.
A grande música do álbum (e da banda, ao menos até agora) é Year Zero. O coral cantando nomes de demônios dá espaço à riffs e andamentos que são ao mesmo tempo vintage e modernos. Impossível não se empolgar com esta faixa. Ela até já ganhou um clip bacaníssimo e bem sacado, cheio de subtextos, brincando com rituais católicos e pagãos, além da óbvia piada a respeito da identidade dos músicos. 
O trabalho fecha com Monstrance Clock. Imagino o King Diamond ouvindo esta e pensando "meus garotos" com um sorriso no rosto. Piano e um riff sabbatico dão o tom aqui. Só tome cuidado para não sair cantando em alto e bom som por aí "come together, together as one, come together, for Lucifer's son".
O desafio do segundo álbum está mais do que superado. O Ghost veio para ficar.


Álbum: Infestissumam
Artista: Ghost
Lançamento: 2013
Gravadora/Distribuidora:   Loma Vista