sábado, 16 de fevereiro de 2013

As aventuras de Tintim


A nona arte sempre esteve presente em minha vida. Como muitas crianças brasileiras eu lia muita Mônica, Cebolinha e toda a turma criada por Maurício de Souza. Uma coisa leva a outra, e logo fui apresentado aos quadrinhos do bárbaro gaulês Asterix e do repórter belga Tintim, colecionando vários volumes desses quadrinhos por volta dos meus 10-12 anos. Gostava de ambos personagens, mas meu fascínio maior era pelas aventuras do topetudo e seu cachorro Milú, com suas pitadas de mistério, intrigas internacionais, humor, ação e até ficção científica.
Tintim e seu fiel amigo Milu
O personagem foi criado pelo belga George Remi, que utilizava o pseudônimo Hergé, e teve sua primeira aparição em 10 de janeiro de 1929, no suplemento infantil do jornal Le Vingtième Siècle, sendo uma evolução de um personagem anterior de Hergé, o escoteiro Totor. Apesar de, ao menos à principio, a série ser direcionada à crianças, o autor sempre trouxe temas adultos aos seus quadrinhos. Assim, ao lado de situações cartunescas, personagens caricatos e com nomes como General Tapioca, podemos encontrar temas como tráfico de drogas, guerra, espionagem, assassinatos e máfias. Ao mesmo tempo que os Dupond escorregavam em cascas de bananas, o protagonista era capaz de pegar em armas e arriscar a vida em revoluções na América do Sul e no oriente.
A primeira fase do personagem é hoje vista de forma polêmica. Em álbuns como Tintim no país dos Sovietes, Tintim no Congo e Tintim na América, as histórias passam visões eurocêntricas e preconceituosas de seu criador. O mais discutido trabalho desta época é, sem dúvida, aquele em que o personagem vai para a então colônia belga. Retratando o povo local como ignorantes e usando traços estereotipados nos personagens negros, o álbum é hoje tema de discussão por seu suposto racismo. Anos mais tarde Hergé se desculpou, dizendo ser a história produto do ambiente e das informações que chegavam a ele em sua juventude.
Mais uma polêmica se deu quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha nazista. Impedido de publicar suas histórias no Le Vingtième Siècle, Hergé passa a ter seus personagens frequentando páginas de jornais nazistas. Entretanto, é possível perceber no álbum "O cetro de Ottokar", publicado durante esses anos, uma clara alegoria à posição anti-expansionista que o quadrinista imprime em sua história.
A grande virada do personagem se deu na história O Lótus Azul, de 1936. Durante a escrita, Hergé se tornou amigo do estudante chinês Zhang Chongren, que supervisionou toda a concepção da história e retratação de seu país natal. Considerada uma das obras primas do autor, O Lótus Azul marcou um imenso salto de qualidade nos trabalhos por ele produzidos. À partir deste ponto Hergé se livrou de preconceitos e passou a fazer um grande trabalho de pesquisa sobre cada lugar que utilizava em suas histórias. Sua habilidade como roteirista (passando a substituir histórias segmentadas e a tremenda sorte do protagonista por  argumentos mais intrincados) e sua técnica como desenhista também evoluíram enormemente. Seu traço limpo e a presença de ambientes altamente detalhados se tornaram uma marca registrada e foram influência para todas as gerações de desenhistas posteriores.
Alguns dos álbuns de Tintim
Nesta fase vieram as histórias que se tornaram verdadeiros clássicos dos quadrinhos. Aventuras a la Indiana Jones, O ídolo roubado, As 7 bolas de cristal e O Império do Sol, conspirações como em No país do Ouro Negro, A Ilha Negra e O Caso Girassol e ficção científica como em Rumo à Lua, Explorando a Lua e A Estrela Misteriosa.
Hergé e seus amigos
Caso você não tenha acesso às HQs e quiser conhecer o trabalho de Hergé, a melhor forma é através da série animada franco-canadense produzida pelas empresas Nelvana e Ellipse Animation no início dos anos 90. Dividindo as histórias em 39 episódios distribuídos por três temporadas, foram produzidas adaptações para todos as HQs, com exceção das duas primeiras, Tintim no país dos Sovietes e Tintim no Congo, além da inacabada história Tintim e a Alfa-arte. Acredito que esta série foi uma das mais bem sucedidas transições de mídia que já tomei contato. Utilizando as cores e traços (da fase mais desenvolvida) de Hergé, os desenhos traziam histórias praticamente Ipsis litteris daquelas encontradas nos álbuns  Mudanças aqui e ali, algumas pequenas adaptações e até melhoria o desenvolvimento de alguns pontos da trama (em uma história, por exemplo, Tintim escapa de um sequestro usando um serrote para sair de um carro, no desenho trocaram o serrote por um canivete, objeto infinitamente mais plausível de ser carregado no bolso por qualquer um) foram feitas de forma extremamente competente.
Hergé conseguiu dar vida a um universo único, entre o real e o cartunesco, entre o infantil e o adulto, fazendo de seus personagens ícones dos quadrinhos europeus. Não à toa, mesmo tantos anos após sua morte, Tintim, Milu, Capitão Haddock, Professor Girassol, os Dupond e tantos outros personagens se mantém vivos e queridos por legiões de fãns.

Um comentário:

  1. Não acompanhei as HQs, mas com certeza vi os desenhos, e adorava na minha infância. Realmente eram muito bem feitos. Bela matéria, Danilo!

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